A indústria sempre exerceu um papel estruturante no desenvolvimento econômico e social, ao organizar cadeias produtivas, gerar empregos qualificados e estimular a inovação tecnológica.
No Brasil, no entanto, esse protagonismo vem sendo progressivamente enfraquecido, não apenas pela perda de competitividade frente a outras economias, mas também pela ausência de uma agenda pública consistente que reconheça o setor como vetor estratégico para o desenvolvimento urbano e social.
Dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), analisados pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), indicam que avanços pontuais no posicionamento internacional da indústria brasileira não se traduziram em maior relevância global.
Persistem limitações estruturais que comprometem a produtividade, a inserção em cadeias mais sofisticadas e a geração de valor no território nacional. Esse quadro impacta diretamente a sustentabilidade econômica das cidades, reforçando a necessidade de políticas públicas que reposicionem a indústria no centro das estratégias de desenvolvimento.
Evolução da indústria brasileira
Números do IBGE apontam evolução pífia da indústria em 2025: apenas 0,6% de crescimento em relação a 2024. No cenário global, o Brasil ocupa a 13ª posição entre os maiores produtores industriais, com apenas 1,5% da produção mundial, atrás de economias como China, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Índia e Reino Unido.
Ainda assim, o peso estrutural da indústria na economia nacional permanece expressivo. O setor responde por 24,7% do Produto Interno Bruto (PIB), concentra 68,7% das exportações de bens e serviços e é responsável por 66,8% dos investimentos empresariais em pesquisa e desenvolvimento.
Também exerce papel central na arrecadação, contribuindo com 35,2% dos tributos federais, excluídas as receitas previdenciárias, o que reforça sua relevância fiscal para estados e municípios.
Qualificação profissional
No campo da qualificação profissional, observa-se um paradoxo. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), referência na formação técnica, oferece cursos diversos, por vezes gratuitos, e apresenta elevada empregabilidade, com 85,6% dos egressos inseridos no mercado de trabalho.
Ainda assim, enfrenta baixa procura, reflexo da insuficiência de estímulos e de estratégias de comunicação capazes de atrair jovens.
Essa realidade está associada à percepção, ainda presente entre as novas gerações, de que a indústria representa ambientes ultrapassados. Tal visão desconsidera a profunda transformação tecnológica em curso, marcada pela incorporação de automação, robótica e inteligência artificial aos processos produtivos.
Além disso, os empregos industriais exigem maior qualificação técnica e oferecem remuneração média superior à observada em setores como comércio e construção civil.
Destaque no agronegócio na economia brasileira
Por outro lado, o agronegócio reafirma seu papel de destaque no cenário econômico nacional. Em 2024, o setor representou 23,2% do PIB brasileiro, com projeções de crescimento expressivo em 2025, alcançando 29,4% de participação, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A expansão da agroindústria traz uma oportunidade ímpar para o Brasil de unir a vocação de produção agropecuária que nos posiciona entre os maiores do mundo em diversas cadeias, da carne ao café, da soja ao açúcar, da laranja ao algodão, e potencializar sua contribuição para além das commodities, usando a capacidade da indústria para transformá-las em produtos de consumo, com maior valor agregado e ampliando a geração de receita e renda aos nossos municípios.
Investimentos na indústria brasileira
Com o objetivo de fomentar a modernização industrial, o país tem estruturado a “Missão 4: Indústria e Revolução Digital”, que prevê investimentos de R$ 186,6 bilhões em tecnologias estratégicas.
Os recursos, públicos e privados, serão direcionados à digitalização industrial, à expansão da infraestrutura tecnológica e ao fortalecimento da competitividade produtiva, sinalizando que há escala financeira e direcionamento estratégico.
Nesse contexto, vê-se uma oportunidade muito interessante para os municípios criarem políticas de atração e fomento à indústria, determinante para a geração de empregos qualificados, o aumento da renda e o fortalecimento do consumo local.
Ignorar essa dinâmica compromete a sustentabilidade fiscal das cidades, especialmente em um cenário de reforma tributária, no qual elevar a renda da população torna-se um componente estratégico do desenvolvimento econômico.
A articulação entre indústria, agronegócio, inovação tecnológica e qualificação profissional consolida-se, portanto, como uma agenda estratégica para o país. Transformar dados, investimentos e potencial produtivo em políticas públicas estruturadas é condição essencial para garantir crescimento econômico sustentável, competitividade nacional e desenvolvimento local de longo prazo.
*Mariana Soletti Beckheuser é CEO da Beckhauser, indústria de equipamentos para a pecuária. É co-fundadora da Associação Parsifal21 e também conselheira em entidades paranaenses, especialmente as do município de Maringá, voltadas a inovação, desenvolvimento econômico e cidadania empresarial.
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