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Forbes Mulher Agro: A Próxima Revolução das Usinas de Cana Não Será Apenas Tecnológica. Será Intelectual

O uso da inteligência artificial promete preservar e potencializar o conhecimento humano, transformando dados em decisões estratégicas

8 min

Durante décadas, acreditamos que os principais ativos de uma usina eram suas terras, seus canaviais, sua indústria ou sua capacidade de produção. E, de fato, continuam sendo patrimônios fundamentais para a competitividade do segmento produtor de etanol de cana. Mas uma nova realidade começa a se desenhar.

Nas próximas décadas, o diferencial das empresas mais competitivas provavelmente não estará apenas na eficiência de seus equipamentos ou na produtividade de suas lavouras. Estará, sobretudo, na capacidade de transformar conhecimento em decisões.

É justamente nesse ponto que a inteligência artificial começa, silenciosamente, a redesenhar o futuro das usinas produtoras de etanol de cana e, por consequência, contribuir para a evolução do setor sucroenergético brasileiro.

O valor do conhecimento humano e empírico

Muito se fala sobre algoritmos, modelos preditivos e automação. Entretanto, talvez a maior contribuição da inteligência artificial não seja substituir o trabalho humano, mas potencializar aquilo que sempre representou o maior patrimônio das organizações: a experiência acumulada pelas pessoas.

Existe um conhecimento extraordinário dentro das usinas brasileiras. Ele está no operador que identifica uma alteração quase imperceptível no funcionamento de um equipamento antes mesmo que qualquer sensor emita um alerta.

Está no supervisor agrícola que, ao caminhar por um canavial, percebe sinais de deficiência nutricional, estresse hídrico ou início de uma infestação, muito antes que esses fenômenos apareçam em um relatório.

Está no gestor industrial que reconhece pequenas alterações na fermentação capazes de comprometer o rendimento da produção.

Está no executivo que, após décadas acompanhando o mercado, consegue antecipar movimentos comerciais, regulatórios e econômicos que dificilmente seriam percebidos apenas pela análise de dados históricos.

A preservação do patrimônio intelectual

Durante muito tempo, esse conhecimento permaneceu concentrado na experiência individual de profissionais altamente qualificados. O maior risco para as empresas nunca foi perder dados. Sempre foi perder conhecimento.

A aposentadoria de profissionais experientes, a sucessão das lideranças e a renovação das equipes sempre trouxeram consigo um desafio silencioso: como preservar décadas de aprendizado construídas dentro das organizações? É justamente nesse contexto que a inteligência artificial assume um papel transformador.

Mais do que executar tarefas, ela pode ajudar a capturar padrões, organizar informações, integrar conhecimentos e apoiar decisões, fazendo com que parte dessa inteligência deixe de existir apenas na memória das pessoas e passe a fazer parte do patrimônio intelectual das empresas.

Das máquinas para as decisões

Essa mudança representa uma nova etapa da evolução das usinas produtoras de etanol de cana, cuja trajetória sempre foi marcada pela incorporação de tecnologia e pela busca contínua por eficiência.

A primeira grande transformação foi mecânica. Vieram a mecanização agrícola, a automação industrial, os sistemas supervisórios, o GPS, os equipamentos embarcados e a agricultura de precisão. Agora inicia-se uma segunda revolução. Ela não acontece nas máquinas. Acontece nas decisões.

A inteligência artificial permite analisar milhões de informações produzidas diariamente pelas usinas, como clima, solo, variedades, produtividade, ATR, maturação, consumo de insumos, rendimento industrial, manutenção, logística, preços, estoques, custos e indicadores financeiros. Essa nova tecnologia identifica as relações que dificilmente seriam percebidas de forma isolada.

  • Na agricultura: significa prever produtividade, identificar falhas de plantio, antecipar déficits hídricos, reconhecer pragas e doenças, recomendar o melhor momento para o corte e otimizar a utilização de fertilizantes, defensivos e máquinas.
  • Na indústria: significa acompanhar o comportamento dos equipamentos em tempo real, prever falhas antes que provoquem interrupções, otimizar a fermentação, reduzir perdas industriais, melhorar o consumo energético e aumentar a eficiência operacional.
  • Na logística: possibilita reorganizar rotas, reduzir tempos de espera e sincronizar o fluxo entre colheita, transporte e moagem.
  • Na gestão comercial e financeira: permite construir cenários cada vez mais consistentes sobre preços do açúcar, do etanol, do petróleo, do câmbio, dos custos logísticos, dos riscos regulatórios e do comportamento dos mercados.

Embora as reflexões aqui apresentadas tenham como referência a realidade das usinas produtoras de etanol a partir da cana-de-açúcar, os desafios relacionados à transformação digital, à inteligência artificial e à gestão baseada em dados tendem a alcançar, em diferentes intensidades, as diversas rotas tecnológicas de produção de biocombustíveis.

O foco deste artigo, contudo, permanece na cadeia da cana, segmento em que se consolidou a experiência brasileira e no qual se fundamentam estas reflexões.

O desafio da governança de dados e da cultura

Entretanto, o verdadeiro valor dessa tecnologia não está na velocidade com que processa informações. Está na qualidade das decisões que ajuda a construir.

Durante muitos anos, produzir mais foi o principal diferencial competitivo das empresas. No futuro, decidir melhor poderá ser ainda mais importante. Mas talvez o maior desafio dessa transformação não seja tecnológico. Seja cultural.

As usinas brasileiras já produzem milhões de dados diariamente. O problema é que grande parte dessas informações permanece distribuída entre sistemas que não conversam entre si, planilhas, relatórios, sensores e bancos de dados construídos ao longo de décadas.

Antes de investir em inteligência artificial, será indispensável investir em organização. Governança de dados, padronização das informações, integração entre sistemas, segurança cibernética, rastreabilidade e qualidade dos registros serão condições fundamentais para que as novas tecnologias produzam resultados consistentes.

Não existe inteligência artificial capaz de compensar dados desorganizados. Existe, porém, enorme capacidade de potencializar empresas que compreendem seus processos e estruturam adequadamente suas informações.

Dados como novos ativos estratégicos

Há uma analogia particularmente interessante com a própria história do setor. Durante muitos anos, o bagaço da cana foi tratado apenas como um resíduo inevitável do processo produtivo. Com inovação e investimento, passou a gerar energia elétrica, tornando-se uma importante fonte de receita, sustentabilidade e economia circular.

Os dados vivem uma transformação semelhante. Durante décadas foram apenas registros operacionais. Agora passam a produzir inteligência. A inteligência artificial também impõe uma reflexão importante sobre o papel das pessoas.

Nenhum algoritmo conhece, sozinho, as particularidades de uma variedade cultivada em determinado solo, submetida a condições climáticas específicas e processada em uma indústria com características próprias.

A experiência humana continuará sendo insubstituível para interpretar contextos, compreender exceções, avaliar riscos e tomar decisões estratégicas. A tecnologia não substituirá o conhecimento. Ela ampliará sua capacidade de gerar valor.

O futuro sustentado pela inteligência

Esse talvez seja o maior legado dessa nova transformação. Ao preservar, organizar e disseminar o conhecimento construído ao longo de décadas, as empresas fortalecem sua capacidade de inovar, preparar novas lideranças e garantir continuidade em um ambiente cada vez mais complexo.

O segmento produtor de etanol de cana sempre demonstrou extraordinária capacidade de adaptação. Transformou energia solar em biomassa. Transformou biomassa em alimento, combustível renovável, bioeletricidade e desenvolvimento regional.

Agora inicia uma nova etapa. Uma revolução que não será medida apenas pelo número de sensores instalados, pela capacidade computacional ou pelos algoritmos utilizados. Será medida pela capacidade das organizações de transformar experiência em conhecimento, conhecimento em inteligência e inteligência em melhores decisões.

A cana-de-açúcar continuará sendo a matéria-prima que sustenta uma das mais bem-sucedidas trajetórias de produção de biocombustíveis do mundo. Mas será o conhecimento, potencializado pela inteligência artificial, que definirá a competitividade das usinas nas próximas décadas.

A tecnologia continuará evoluindo. Os mercados continuarão mudando. O verdadeiro diferencial competitivo, entretanto, permanecerá na capacidade das organizações de aprender, adaptar-se e transformar conhecimento em valor.

*Cíntia Cristina Ticianeli é graduada em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Engenharia de Produção pela POLI-USP PRO. Atua há mais de 30 anos no setor sucroenergético. É CFO da Agro Serra Industrial, produtora de etanol no sul do Maranhão, Vice-Presidente da FIEMA, Diretora de Relações Institucionais do SINDICANALCOOL MA/PA e Conselheira da UDOP e do COAGRO da CNI.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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