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O Bilionário Que Comanda Ferrari e Stellantis e Tem Raízes no Brasil

John Elkann desembarcou em Minas Gerais para celebrar meio século da Fiat em Betim, um dos polos mais importantes da Stellantis

7 min

John Elkann não veio ao Brasil apenas para uma cerimônia corporativa. O chairman da Stellantis e da Ferrari, CEO da Exor e herdeiro da família Agnelli desembarcou em Betim, Minas Gerais, no último dia 21 de julho, para marcar os 50 anos da Fiat no país – uma data que ajuda a explicar não só a história da montadora italiana no Brasil, mas também o peso do país dentro de um dos maiores grupos automotivos do mundo.

Com fortuna estimada em US$ 2,5 bilhões pela Lista de Bilionários da Forbes 2026, Elkann é hoje uma das figuras mais relevantes da indústria automobilística global. À frente da Exor, holding da família Agnelli, ele está ligado a um portfólio que inclui Ferrari, Stellantis, Philips, CNH, Iveco Group, Juventus, The Economist, Christian Louboutin, Via Transportation e outras empresas. No setor automotivo, seu nome está associado a decisões que ajudaram a redesenhar o mapa da indústria nas últimas duas décadas.

Nascido em Nova York, formado entre Paris e Turim e fluente em português, além de inglês, francês e italiano, Elkann também tem uma relação pessoal com o Brasil. Ele morou no país durante a infância, quando tinha 7 anos, e passou cinco anos por aqui. Em seu discurso em Betim, feito em português, lembrou que esse período deixou marcas em sua visão de mundo.

“O Brasil me deixou algo que levo comigo ainda hoje: o otimismo, o calor humano e a capacidade de enfrentar os momentos mais difíceis com um sorriso”, disse.

A fala não foi apenas protocolar. A visita de Elkann ao Brasil aconteceu em torno da celebração dos 50 anos da Fiat em Betim, uma unidade que nasceu sob a influência direta da família Agnelli e se tornou um dos polos industriais mais importantes da América do Sul.

“O nascimento dessa fábrica foi possível graças à visão e ao entusiasmo do meu avô Gianni Agnelli, que soube ver em Minas Gerais e no Brasil aquilo que muitos ainda não enxergavam”, afirmou.

O Brasil No Centro Da História Da Fiat

A fábrica de Betim começou a operar em julho de 1976, com a produção do Fiat 147. O modelo marcou a estreia da unidade e inaugurou uma nova fronteira para a indústria automotiva brasileira, fora do eixo tradicional de produção do país, no ABC paulista.

Cinco décadas depois, o Polo Automotivo Stellantis de Betim ocupa 2,2 milhões de metros quadrados, com mais de 900 mil metros quadrados de área construída. A capacidade instalada chega a 650 mil veículos por ano. Desde o início das operações, mais de 18 milhões de veículos já saíram da unidade, com mais de 4 milhões exportados para cerca de 40 países.

Hoje, Betim produz Fiat Argo, Mobi, Pulse, Fastback, Fiorino, Peugeot Partner Rapid, Ram 700 e Fiat Strada. A picape se tornou o veículo mais vendido do Brasil por cinco anos consecutivos, reforçando a centralidade da fábrica mineira dentro da operação da Stellantis.

O complexo também reúne mais de 19 mil colaboradores e uma rede com mais de 400 fornecedores diretos. Além da produção, Betim passou a ocupar um papel tecnológico dentro da companhia ao se credenciar para receber o Centro de Expertise em Cibersegurança da Stellantis.

Para Elkann, essa evolução mostra como o Brasil deixou de ser apenas um mercado importante para se tornar parte da inteligência industrial do grupo.

“Betim tem hoje uma de nossas fábricas mais avançadas no mundo: manufatura de última geração, centros de pesquisa e desenvolvimento, laboratórios e tecnologias que conectam pessoas, carros e dados”, disse.

A relação da Fiat com o Brasil também é feita de adaptações. O país concentra 40% das vendas globais da marca e se tornou berço de soluções que marcaram a história da montadora, do Fiat 147 movido a álcool às tecnologias que hoje combinam biocombustíveis e eletrificação, como a estratégia Bio-Hybrid. No discurso, Elkann resumiu essa relação em uma frase: “O Brasil ensinou à Fiat novas maneiras de pensar.”

O Herdeiro Que Redesenhou A Fiat

A presença de Elkann em Betim também carrega uma dimensão simbólica maior. Ele assumiu papel de liderança na família Agnelli e na Fiat em 2004, após a morte de seu avô, Gianni Agnelli, patriarca de uma dinastia industrial iniciada em 1899 por Giovanni Agnelli, fundador da Fiat em Turim.

Desde então, Elkann esteve ligado a movimentos decisivos. Em 2009, acompanhou a entrada da Fiat na Chrysler, operação que ajudou a transformar a empresa em Fiat Chrysler Automobiles. Em 2021, a fusão entre FCA e PSA deu origem à Stellantis, hoje dona de marcas como Fiat, Jeep, Ram, Peugeot e Citroën.

Sua carreira começou em 2001, na General Electric, onde atuou em auditoria corporativa em operações na Ásia, Europa e América do Norte. Em 2003, entrou no Grupo Fiat. Também é chairman da Ferrari desde 2018 e fundador da Lingotto, gestora de investimentos criada em 2023, além da Vento, plataforma voltada a empreendedores italianos pelo mundo. Elkann ainda integra o conselho da Meta, é trustee do MoMA, preside a Fundação Agnelli e participa de conselhos internacionais do J.P. Morgan e da Allianz.

No caso da Stellantis, sua influência ganhou ainda mais peso após um período de forte ajuste. Em carta como CEO da Exor, Elkann definiu o ano de 2025 como um momento de “reckoning and reset” para a companhia. Segundo ele, a empresa enfrentou seu período mais difícil, pressionada por fatores externos, mudanças regulatórias, tarifas e decisões internas que precisaram ser revistas.

Ele apontou que a Stellantis havia acelerado demais em direção à eletrificação em relação ao ritmo da demanda dos consumidores. Também reconheceu que cortes de custos agressivos prejudicaram a capacidade de entregar veículos no ritmo e na qualidade esperados. Para Elkann, a empresa se afastou demais das preferências dos clientes.

Os números mostram o tamanho da correção. Em 2023, a Stellantis registrou € 189,5 bilhões em receitas líquidas e lucro líquido de € 18,6 bilhões. Dois anos depois, as receitas caíram para € 153,5 bilhões, e a empresa reportou prejuízo líquido de € 22,3 bilhões. Em 2025, a Stellantis reconheceu encargos incomuns de aproximadamente € 25 bilhões como parte da revisão de balanço e da mudança estratégica.

A resposta veio com reorganização regional, foco em qualidade, engenharia, manufatura e vendas. Elkann também destacou que, durante o período em que atuou como CEO interino da Stellantis, viajou por fábricas, centros de engenharia e unidades em diferentes mercados para ouvir equipes e reconstruir relações com concessionários, fornecedores e sindicatos.

A escolha de Antonio Filosa como CEO da Stellantis também faz parte desse redesenho. Para Elkann, a nova fase da empresa precisa colocar no centro a liberdade de escolha dos consumidores entre elétricos, híbridos e motores a combustão avançados. A eletrificação continua no plano, mas em um ritmo governado pela demanda.

Ferrari, Stellantis E A Lógica Do Longo Prazo

A influência de Elkann vai além da Stellantis. Na Ferrari, ele preside uma marca que vive outra lógica: menos escala, mais exclusividade. Em 2025, a fabricante registrou receita líquida de € 7,1 bilhões, alta de 7% em relação ao ano anterior. O EBIT cresceu 12%, com margem de 29,5%. A carteira de pedidos se estende até o fim de 2027.

Em sua carta, Elkann defendeu que a Ferrari deve crescer de forma constante, sem ceder à pressa dos mercados. O plano estratégico até 2030 prevê, em média, quatro lançamentos por ano entre 2026 e 2030, com meta de cerca de € 9 bilhões em receitas e EBITDA de pelo menos € 3,6 bilhões.

Esse contraste entre Stellantis e Ferrari mostra a amplitude do papel de Elkann na indústria. De um lado, ele lida com o desafio de reposicionar um conglomerado de massa em meio à transição energética. De outro, preserva a exclusividade de uma das marcas mais valiosas e emocionais do setor automotivo.

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