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Guerra entre EUA e Irã Ameaça Corredor de US$ 3 Bi do Frango Brasileiro

Em entrevista exclusiva, Ricardo Santin, da ABPA, destaca como a escalada de tensão no Oriente Médio põe à prova a logística do setor

5 min

“Mesmo em meio a um conflito, a segurança alimentar precisa prevalecer.” A frase do bacharel em direito e mestre em ciências políticas e governamentais Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), resume a preocupação crescente do setor avícola brasileiro diante da escalada de tensões no Oriente Médio. Ele falou exclusivamente com a Forbes Agro sobre os impactos na guerra entre os Estados Unidos e o Irã.

A ABPA é a entidade que representa do setor da indústria frigorífica e de insumos para a cadeia de aves e suínos, onde estão empresas signatárias como as gigantes JBS, MBRF, Cargill, Aurora Alimentos, Granja Faria e Lar Cooperativa.

Nos bastidores do comércio internacional, a entidade passou a monitorar rotas marítimas, dialogar com importadores e acompanhar os riscos logísticos que podem comprometer o abastecimento alimentar em países da região. A preocupação não é trivial. Em 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 3,2 bilhões (R$ 16,0 bilhões, segundo a cotação atual) em função de 1,5 milhão de toneladas de carne de frango para 14 países do Oriente Médio, mercados altamente dependentes da proteína importada.

O valor representou 33,1% do total de carne de frango exportada em 2025, que foi de US$ 9,6 bilhões (R$ 48 bilhões). O volume foi de 29,9% do total de 5,7 milhões de toneladas de carne de frango.

Qualquer ruptura no fluxo comercial pode afetar tanto o abastecimento desses países quanto o planejamento das indústrias brasileiras. E, no centro dessa equação, está um dos pontos mais sensíveis da geopolítica global, o Estreito de Ormuz, que está há cinco dias paralisado em função do conflito.

Em nota, publicada na tarde de ontem (3), a ABPA relatou que algumas das principais empresas operadoras de transporte marítimo no mundo anunciaram medidas preventivas, incluindo suspensão de novas reservas e redirecionamento de rotas, em função do cenário de segurança na região.

Essas decisões podem gerar impactos pontuais sobre prazos, custos logísticos e disponibilidade de equipamentos, especialmente para cargas refrigeradas.

“Pelo que estamos vendo até agora estamos podendo contornar a situação, porque a prioridade é manter o abastecimento dessas regiões. Nenhum impacto desacelerou as indústrias, nem mesmo a redução de produção nas granjas”, diz o presidente da ABPA.

Quando energia e alimentos dividem a mesma rota

Anadolu/Getty ImagesMapa com detalhe do Estreito de Ormuz

Embora o Estreito de Ormuz seja conhecido sobretudo por sua importância energética, seus efeitos ultrapassam o mercado de petróleo, afetando a logística de alimentos como grãos e proteínas.

O corredor marítimo também faz parte da logística de transporte que abastece diversos países do Oriente Médio com alimentos importados. A região é uma das mais dependentes do mundo de compras externas de proteína animal.

“Estamos em conversas com o ministro Carlos Fávaro, da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, sobre corredores emergenciais para passagens de alimentos, no entanto, isso depende de documentação de autorização”, diz Santin.

Como maior exportador global de carne de frango, o país abastece diversos mercados da região, incluindo Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Omã, Bahrein, Jordânia, Iraque e outros compradores estratégicos.

Uma das alternativas tem sido o acesso a portos pelo Mar Vermelho e utilização de transporte terrestre até o destino das cargas brasileiras de carne de frango.

O risco logístico para as exportações brasileiras

exportação
Getty ImagesVista aérea de navio de exportação em alto mar

O primeiro efeito costuma aparecer no custo do transporte marítimo. Seguradoras elevam os prêmios de risco para navios que cruzam zonas de tensão. Fretes aumentam. Em alguns casos, companhias de navegação optam por rotas alternativas, o que amplia o tempo de viagem.

“O frete deve encarecer. Certamente vai encarecer porque há taxa de guerra”, diz Santin.

A Sobretaxa de Risco de Guerra (WRS), segundo a Trading Economics e Baltic Dry Index, gera adicionais emergenciais que podem variar de US$ 3 mil a US$ 4 mil (R$ 15 mil a R$ 20 mil) por contêiner para embarcações que ainda aceitam navegar na zona de conflito.

Para a indústria de carne de frango, representada pela ABPA, altamente dependente de logística refrigerada e contratos rígidos de entrega, atrasos ou mudanças de rota podem gerar desequilíbrios importantes.

A mobilização da cadeia avícola

Diante desse cenário, a ABPA tem atuado para manter o fluxo comercial e reduzir incertezas no mercado.

“Épocas de tensão como essa são muito sérias e é muito ruim para todos que estão por lá. E neste sentido estamos fazendo o possível e buscando alternativas para manter o fluxo de alimentos”, diz Santin.

A entidade acompanha a situação geopolítica, mantém diálogo com empresas exportadoras e monitora possíveis impactos logísticos. O objetivo é garantir que as cadeias de suprimento alimentares permaneçam operando, mesmo em um ambiente de instabilidade.

Para países do Oriente Médio, o abastecimento de alimentos é tema sensível. Muitas dessas nações possuem limitações estruturais de produção agrícola e dependem fortemente das importações para atender à demanda interna.

“Por estarem no período de Ramadã [que começou em meados de fevereiro e termina no dia 19 deste mês de março], muitos dos destinos atendidos pelo Brasil possuem estoques estratégicos de alimentos, incluindo a carne de frango”, diz Santin. No entanto, a entidade observa isso atentamente, a partir de agora.

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