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Jônadan Ma: Entenda por Que Este Produtor de Leite Não Aceita “Tirar Leite”

Saiba o que pensa o presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da CNA sobre um setor que produz 36 bilhões de litros por ano, está entre os 10 maiores do mundo, mas ainda não sabe prever e proteger o futuro de sua produção

8 min

“Quero produzir e vender – não tirar leite nem entregar.” A frase dita por Jônadan Ma retrata uma convicção que o acompanha há décadas: para ele, quem “tira leite” e “entrega” aceita passivamente o preço que a indústria define; quem produz e vende negocia, planeja e age sobre o mercado. É essa distinção que ele carrega para além das cercas da Fazenda Boa Fé, em Conquista, no Triângulo Mineiro. Ma poderia se dedicar exclusivamente à gestão do Grupo Araunah, empresa familiar fundada pelo pai, o imigrante chinês Ma Shou Tao, que chegou ao Brasil em 1959 e criou o grupo em 1973, há 53 anos. Mas para o engenheiro agrônomo, cuidar do próprio rebanho nunca foi suficiente.

A causa da pecuária leiteira brasileira entrou na vida de Ma como uma escolha e se transformou em uma missão. Não por acaso se tornou uma liderança do setor. Formado pela Esalq/USP em 1981, com MBA executivo pela FGV, ele acumula ao menos cinco anos na estrutura da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e hoje preside a Comissão Nacional de Pecuária de Leite da entidade. No cargo, ele articula três frentes que considera determinantes para a sobrevivência do setor: a criação de mecanismos de previsibilidade de preços, a adoção de medidas antidumping contra lácteos vindos de países vizinhos e a mudança de mentalidade do produtor brasileiro em relação ao próprio negócio.

O Brasil produz cerca de 36 bilhões de litros por ano, o que, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) coloca o país na sexta posição global. São 1,2 milhão de estabelecimentos produtores, dos quais quase 1 milhão são propriedades agrofamiliares. Esse complexo, segundo o IBGE, responde por um Valor Bruto da Produção (VBP) de leite da ordem de R$ 87,5 bilhões. E ainda importa, principalmente de Argentina e Uruguai leite em pó barato e na entressafra. Em 2025 foram 225 mil toneladas por US$ 884 milhões (R$ 4,3 bilhões na cotação atual).

Nesta quarta-feira (13), Ma participou do lançamento de um contrato futuro de leite desenvolvido pela corretora StoneX Leite Brasil, com apoio da CNA e parceria do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), na sede da confederação em Brasília. Para ele, o instrumento representa o primeiro passo concreto para quebrar o que chama de “idiossincrasia” do mercado leiteiro nacional: o hábito de o preço ser divulgado ao produtor somente após o fechamento do mês anterior, ao contrário do que praticam as multinacionais do setor em outros países. “Estamos vivendo uma nova era do leite. Estamos marcando história”, disse em entrevista exclusiva à Forbes. Confira:

O setor de leite atravessa um período de margem muito apertada. O que hoje mais ameaça a sustentabilidade econômica do produtor?
Neste momento, o setor está se recuperando do que foi atravessar as dificuldades do ano passado. Estamos em ajustes e rearranjo novamente na cadeia. O produtor tem três grandes gargalos, três grandes dores. A número um: total imprevisibilidade na cadeia do preço do leite,do mercado dele. O segundo é a sucessão do negócio e como conduzir essa mudança. O terceiro chama-se mão de obra nas propriedades leiteiras. Esses três itens comprometem a sustentabilidade do produtor de leite e podem comprometer a continuidade ou não da sua atividade leiteira

Mecanismos de mercado futuro são usados justamente com foco na previsibilidade. Por que é tão difícil fazer o produtor de leite operar em rede, como fazem o café, a soja, o milho e o boi?
É uma questão cultural. Em primeiro lugar, o produtor não diz que produz. Ele fala que “tira leite”. Já deprecia o que ele faz. E o segundo: ele não vende, ele “entrega o leite”. Está acostumado com isso como parte da normalidade. É esse inconformismo que nos levou a criar mais uma ferramenta, e ainda trabalhando fortemente em relação a outros mecanismos como Conseleite (que atua no cálculo e na determinação de preços de referência), o indicador CEPEA e outros indexadores.

A grande resistência é essa questão de tradicionalismo, de conformismo do produtor com a situação, e achar que ele não pode reverter esse quadro. Por isso, nosso próximo passo é conversar com os heads das empresas nacionais e multinacionais, os maiores industrializadores de leite do Brasil, cooperativas e indústrias privadas. Lá fora, essas empresas têm mecanismos não só de proteção, mas de precificação antecipada. No Brasil adota-se uma idiossincrasia: depois que a indústria fecha o mês, no mês seguinte é que ela solta o preço do leite. Com o mercado futuro estamos dando o primeiro passo agora para romper com isso.

A concentração crescente da indústria de lácteos não limita o poder de negociação do produtor, mesmo com novas ferramentas?
Em tese aumenta, mas a massa de operação precisa criar corpo. Quando os produtores criarem corpo nesse nível de comercialização, poderemos reorganizar essa situação de mercado que hoje está totalmente nas mãos das indústrias. Quando o produtor começar a poder também falar ‘eu quero assim. Se não tiver assim, eu não aceito’, ele passa a criar um poder de barganha. É disso que precisamos.

As importações de lácteos da Argentina e do Uruguai acumulam anos de pressão sobre o setor. Por que o Brasil não consegue competir em pé de igualdade com esses países?
O Brasil está perdendo competitividade porque está jogando com armas diferentes. Não tem paridade de armas. Temos uma alta regulamentação aqui e entra leite de fora, da Argentina e do Uruguai, com dumping já comprovado, com margem de até 60%. Não tem competitividade estruturada que consiga superar essa margem. O que precisamos é adotar a medida antidumping para competir pelo menos em pé de igualdade.

Não estou dizendo que o Brasil não é competitivo. O problema é que aceitamos muitas coisas. Estamos há três anos vivendo com esse dumping, e é um processo que demora. Assim como o mercado futuro nasceu agora, esperamos que até o final deste mês saia esse processo antidumping também. De nada adiantaria falar sobre mercado futuro se estamos sofrendo uma competição desleal e predatória.

Apesar desse cenário, o consumo de leite mudou muito nos últimos anos, com produtos premium, funcionais e a onda da proteína. O produtor brasileiro está preparado para essa nova demanda?
Infelizmente, em termos gerais, não está preparado. O Brasil ainda tem um sistema que remunera pelo volume, não trabalha com sólidos. Temos muito para melhorar. É uma questão educacional, de capacitação para que se possam assumir mecanismos que realmente agreguem valor.

Enquanto o produtor for remunerado por volume, por melhores que sejam os programas de bonificação por qualidade, essa bonificação ainda é muito ínfima. O Brasil é um dos poucos países que pagam pelo volume. A Europa, os Estados Unidos, a Nova Zelândia trabalham tudo com sólidos, que é a gordura e a proteína. É o que faz o queijo, o iogurte, os produtos lácteos. Essa etapa precisa ser superada.

O que separa os produtores que conseguem crescer daqueles que estão deixando a atividade?
Com certeza, um dos grandes fatores chama-se nível de adoção à tecnologia. Outra é a questão da escala de produção. Mais de 80% dos produtores brasileiros produzem menos de 200 litros de leite por dia. Esse volume, por melhor que seja o preço, não tem escala para gerar caixa para a fazenda. Aqueles que recebem tecnologia e estão desenvolvendo escala, esses são os que estão crescendo. É uma questão de escala, tecnologia, produtividade e margem líquida operacional.

Qual foi a mudança mais profunda que o senhor viu na pecuária leiteira nas últimas décadas?
Jônadan Ma: Posso falar em dois aspectos. No tecnológico, o grande divisor de águas foi o processo de melhoramento genético por meio da genômica, associado à metodologia de transferência de embriões. Em termos de tecnologia, isso trouxe o maior avanço para a pecuária e permitiu escalar a produtividade a passos mais largos. No aspecto mercadológico, a mudança ainda é bem mais incipiente. Ainda estamos engatinhando na criação de mecanismos de previsibilidade.

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