No dia 11 de junho, às 16 horas, ela levará o primeiro chute. Trionda é o seu nome. Antes de entrar no Estádio Azteca para o jogo de abertura da Copa do Mundo FIFA 2026, ela passou por uma seringueira, por um canavial e por uma fábrica de reciclagem de garrafas plásticas. O objeto mais fotografado do maior torneio esportivo do planeta é, antes de tudo, um produto do agronegócio.
“A bola oficial da Copa do Mundo FIFA 26 chegou e é uma beleza”, disse o presidente da FIFA, Gianni Infantino, em outubro do ano passado. Naquele mês, a entidade fez uma série de eventos de apresentação oficial da Trionda. ” É a bola de Copa do Mundo mais visualmente lúdica que já criamos”, disse Sam Handy, diretor-geral da Adidas Football, marca responsável pela sua fabricação.

A câmara interna da Trionda é feita de látex natural extraído da Hevea brasiliensis, a seringueira cultivada sobretudo na Malásia, na Indonésia, na Tailândia e em partes do Brasil, em florestas plantadas. A árvore é sangrada, um corte superficial no tronco de onde escorre o látex branco, coletado em pequenas tigelas e processado em folhas de borracha que, depois de vulcanizadas, formam a câmara responsável por reter o ar e dar à bola sua resposta elástica ao toque. Sem esse material de origem agrícola, a bola não infla, não quica e não voa.
O revestimento externo, em poliuretano, incorpora derivados de cana-de-açúcar processada em etanol e convertida em polímeros de base biológica, além de óleos vegetais em adesivos e espumas internas. A carcaça estrutural, a camada de tecido entre o látex e o revestimento externo, é feita de poliéster reciclado, produzido a partir de garrafas PET recolhidas no pós-consumo. No total, 52,3% da composição da Trionda vem de fontes biológicas renováveis ou de materiais reciclados, segundo a Adidas. É o índice mais alto já registrado em uma bola oficial de Copa do Mundo.
A textura pronunciada da superfície, com cavidades e relevos em macro e micropadrões, não é estética. Ela é uma resposta técnica ao maior fracasso da história das bolas de Copa: a Jabulani, de 2010, cuja superfície lisa gerava trajetórias imprevisíveis que desconcertavam goleiros e atacantes. A Trionda termina o ciclo iniciado pela Al Rihla, em 2022, de bolas com superfícies tratadas para estabilizar o voo em alta velocidade e em condições de umidade. O nome combina “tri”, referência aos três países-sede, com “onda”, alusão ao movimento da torcida latino-americana que o mundo conhece como “la ola”. Ela é fabricada em Sialkot, Punjab, Paquistão, pela Forward Sports, a mesma empresa que produziu a Al Rihla para o Catar.
O mercado global de bolas de futebol foi avaliado em cerca de US$ 2,79 bilhões, cerca de R$ 15,8 bilhões, em 2024, com projeção de crescimento anual de 9,4% até 2034, segundo a Zion Market Research. Nike e Adidas juntas detêm 35% do volume global. A Copa do Mundo, que desta vez reúne 48 seleções em 104 partidas distribuídas por 16 cidades nos Estados Unidos, no Canadá e no México, é o maior catalisador global de vendas do produto. A estimativa é de que cerca de 1.500 a 2.000 bolas sejam utilizadas nos jogos da Copa.
Saiba como a bola chegou até aqui
Século 13 ao 18: Bexigas e improviso
Na Inglaterra medieval, o futebol era jogado com bexigas de porco ou boi envoltas em couro e amarradas com cadarços de botina, substituídas várias vezes por partida. Na China, o cuju, ancestral do futebol, usava bolas recheadas com penas de ave. Em algumas regiões inglesas, garrafas de couro cheias de aparas de cortiça serviam como bola em jogos disputados às margens de rios. Há registros de que, em períodos de guerra, crânios humanos chegaram a ser chutados nas ruas.
1844: A borracha muda tudo
O americano Charles Goodyear patenteia a borracha vulcanizada, processo que elimina a pegajosidade natural do material e o torna durável, elástico e resistente ao calor e ao frio. A invenção não foi pensada para o futebol, mas vai transformá-lo para sempre.
1855: A primeira bola de verdade
Goodyear constrói a primeira bola de futebol inteiramente em borracha vulcanizada. O modelo original está exposto até hoje no National Soccer Hall of Fame, em Frisco, Texas.
1862: A câmara inflável
O inglês H.J. Lindon desenvolve a primeira câmara interna inflável de borracha. A motivação era trágica: sua esposa morreu de doença pulmonar contraída ao inflar, com a própria boca, centenas de bexigas de porco. Lindon também reivindicou a invenção da bola oval do rúgbi, mas não chegou a patentear nenhuma das duas criações.
1863: Regras sem bola padronizada
A Football Association (FA) é fundada na Inglaterra e estabelece as primeiras Leis do Jogo. A bola ainda não tem especificações técnicas obrigatórias, e era comum que os times discutissem qual modelo usar antes do apito inicial.
1872: Primeiro padrão oficial
A FA determina circunferência entre 68 e 71 centímetros e peso entre 369 e 425 gramas. As variações persistiam, já que todas seguiam sendo costuradas à mão, uma a uma.
1888: Produção em massa, ainda em couro
As bolas passam a ser fabricadas em série. As de maior qualidade usavam couro do quarto traseiro do boi; as mais baratas, do ombro. Em 1891, o canadense James Naismith inventou o basquete em Springfield, Massachusetts, usando uma bola de futebol desse tipo e duas cestas de pêssego pregadas na parede do ginásio.
1930: A primeira Copa, sem bola única
A final entre Uruguai e Argentina começou em disputa: o primeiro tempo foi jogado com a bola argentina, o modelo Tiento, e o segundo com a uruguaia, o T-Model. O Uruguai venceu por 4 a 2.
1940-1951: Guerra e bolas que explodiam
A baixa qualidade do couro disponível no pós-guerra fez bolas estourarem durante partidas, chegando a interferir em resultados. Tintas sintéticas e materiais não porosos reduziram a absorção de água. Em 1951, a bola branca foi autorizada pela primeira vez para facilitar a visibilidade com a chegada dos holofotes nos estádios.
Anos 1950-1960: O design que o mundo reconhece
Inspirada na geometria das cúpulas geodésicas do arquiteto americano R. Buckminster Fuller, a empresa dinamarquesa Select fabrica e comercializa, nos anos 1950, a primeira bola de 32 painéis, com 20 hexágonos e 12 pentágonos. O modelo chega ao grande público em 1970, quando a Adidas o adota na Telstar, introduzindo os pentágonos pretos na iconografia do futebol mundial. Nessa mesma época, os materiais sintéticos começam a substituir o couro nas camadas internas das bolas.
1970: Adidas entra em campo
Na Copa do México, a Telstar estreia como primeira bola oficial da parceria Adidas-FIFA. Branca com pentágonos pretos, foi desenhada para ser visível nas transmissões em preto e branco.
2006: O fim da costura
A +Teamgeist, da Copa da Alemanha, inaugura a termocolagem: painéis unidos com calor e pressão, superfície contínua e sem emendas, maior impermeabilidade e trajetória de voo mais previsível. O número de painéis começa a cair progressivamente.
2010: O maior fracasso
A Jabulani, com oito painéis e superfície excessivamente lisa, gerava trajetórias erráticas. O goleiro Iker Casillas e o atacante Robinho fizeram reclamações públicas durante o torneio. Virou caso de estudo em aerodinâmica esportiva.
2014: A Brazuca
Com seis painéis simétricos e superfície texturizada, foi amplamente elogiada por jogadores e técnicos. Primeira bola oficial de Copa com perfil nas redes sociais, chegou a 3 milhões de seguidores no Twitter durante o torneio no Brasil.
2022: O chip entra em campo
A Al Rihla, da Copa do Catar, inaugura a bola conectada, com sensor de movimento no interior da câmara. Foi também a primeira bola oficial de Copa fabricada inteiramente com tintas e adesivos à base de água, sem solventes.
2 de outubro de 2025: Trionda
Adidas e FIFA lançam oficialmente a bola da Copa de 2026 em Nova York. É a 15ª bola consecutiva fornecida pela Adidas para uma Copa do Mundo