“Como qualquer atividade, existem altos e baixos, e a resiliência e a capacidade de superação dos momentos difíceis é que transformam sonhos em realidades.” A frase de Tages Martinelli, dita em uma entrevista à Forbes Agro, que no próximo mês de setembro completa um ano na presidência da Jotabasso, uma das maiores produtoras de sementes do Brasil, com faturamento na casa de R$ 1 bilhão declarado pela empresa, após uma trajetória de quase 28 anos construída dentro da própria companhia.
Martinelli, 50 anos, assumiu o cargo sabendo o que havia pela frente: o setor de sementes num dos ambientes mais desafiadores vividos recentemente pelo mercado brasileiro. A combinação de preços mais pressionados para as commodities agrícolas, aumento dos custos de produção, margens mais estreitas e um produtor rural cada vez mais seletivo, transformou 2026 em um período de ajustes para grande parte da indústria de insumos.
As sementes respondem em uma lavoura por cerca de 11% de seu custo e é um dos insumos que mais interferem na produtividade. De que adianta a melhor preparação do solo, adubo, agroquímicos, máquinas e clima perfeito, se a semente não tem genética que dê conta de expressar esse investimento?
A estimativa é de que esse mercado movimente cerca de R$ 45 bilhões por ano no Brasil. Hoje, o setor vive um momento de reconfiguração. Depois de anos de expansão acelerada da capacidade produtiva e da entrada de novos competidores, o setor convive com excesso de oferta para a safra 2026/2027, com margens apertadas e inadimplência levando as sementeiras a rever planos.

“Sabemos que o momento da atividade agrícola é de baixa, com pressões externas e pressões de câmbio. Porém, estamos preparados e sabemos que tudo isso é cíclico”, afirma o executivo.
A Jotabasso nasceu em 1971, quando João Basso comprou 1.000 hectares em Ponta Porã (MS). Mas a produção definitiva de sementes se deu com a compra da Fazenda Verde em Rondonópolis (MT), quando a produção de sementes passou a ser escalada a partir de 1980.
O que é uma das maiores sementeiras do Brasil
Embora a empresa também produza grãos, tenha pecuária de corte e invista em melhoramento genético animal, o coração do negócio continua sendo a semente. A produção de sementes no Brasil cresceu 2,9% na safra 2025/2026, alcançando 4,25 milhões de hectares monitorados por órgãos oficiais, segundo dados da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem).
A semente de soja lidera com hegemonia o setor, ocupando 3,48 milhões de hectares desse total. Em seguida, destacam-se o milho, com 207,3 mil hectares, e o mercado de pastagens forrageiras, com 101,5 mil hectares.
A Jotabasso consolidou sua posição ao lado de grandes produtoras de sementes do País como Boa Safra, Atto, Girassol, além da divisão de sementes de grandes grupos como Amaggi, Bom Futuro, SLC, praticamente todas empresas de controle familiar. Atualmente, a Jotabasso produz cerca de 1 milhão de sacas de sementes de soja por ano.
“Qualidade não se mede no volume. Qualidade se mede pela entrega ao produtor,” diz Martinelli.
Biotecnologias mais avançadas, tratamentos industriais sofisticados, materiais genéticos adaptados a diferentes regiões e soluções capazes de reduzir riscos climáticos passaram a definir a competitividade do setor. Foi nesse ambiente que a Jotabasso ganhou protagonismo.
Durante a última década, a disputa no mercado de sementes deixou de ocorrer apenas em toneladas produzidas e passou a migrar para o valor tecnológico agregado. Para essas empresas, os principais programas de melhoramento e licenciamento ainda passam pelos obtentores globais, entre entre eles Bayer/FiberMax, Corteva, Syngenta Seeds, com as sementeiras nacionais atuando como multiplicadoras licenciadas.
Globalmente, o mercado de sementes em 2026 é estimado em US$ 81,1 bilhões (R$ 419,3 bilhões na cotação atual), crescendo de US$ 77 bilhões (R$ 398,1 bilhões) em 2025, com projeção de US$ 105,16 bilhões (R$ 543,7 bilhões) para 2031, a uma CAGR de 5,33%, segundo a consultoria global Mordor Intelligence.
Em maio deste ano, o ISF World Seed Congress, o Congresso Mundial de Sementes, organizado pela International Seed Federation (ISF), reuniu participantes de 78 países, com presença recorde de mais de 900 empresas e organizações, além de representantes da OMC, do Banco Mundial e da Convenção Internacional para a Proteção dos Vegetais (CIPV).
As principais discussões giraram em torno da necessidade de sistemas de sementes resilientes e inclusivos diante das mudanças climáticas, com destaque para o alinhamento regulatório das Novas Técnicas Genômicas (NGTs) e para políticas que permitam que a inovação no melhoramento vegetal chegue aos agricultores sem barreiras e com respaldo científico.
Uma estrutura espalhada no Cerrado
O RaboResearch, departamento do Rabobank, projeta que o mercado de sementes de soja pode alcançar R$ 37 bilhões até 2040, com crescimento anual composto de 2,8%. A análise aponta uma mudança de ciclo: o crescimento baseado na expansão de área – que entre 2000 e 2025 foi de 5,1% ao ano – deve recuar para cerca de 1,5% ao ano nas próximas safras
No caso da Jotabasso, o crescimento da companhia acompanhou o avanço da agricultura brasileira sobre o Cerrado. Hoje, a empresa mantém operações estratégicas em algumas das regiões mais importantes do agronegócio nacional, incluindo estruturas produtivas e unidades de beneficiamento de sementes localizadas em Rondonópolis (MT), e Ponta Porã (MS). Essas unidades funcionam como centros de processamento e distribuição.
A diversificação das atividades, com pecuária e a produção de grãos como soja em grão, milho e trigo também vem tendo participação crescente dentro do faturamento do grupo, o que, segundo Martinelli, ajuda a diluir riscos, melhorar a utilização das áreas agrícolas e aumentar a eficiência econômica da operação.

Martinelli diz que os planos de expansão da Jotabasso continuam sobre a mesa. O detalhe é que o crescimento não virá baseado apenas em aumento de produção. “Queremos crescimento com rentabilidade”, diz o executivo. Depois de um período de expansão acelerada impulsionado pelos preços recordes das commodities, o setor voltou a olhar com mais atenção para eficiência operacional, gestão financeira e controle de custos.
Dentro da Jotabasso, isso significa buscar ganhos em todas as etapas do processo produtivo. “Temos que olhar para dentro de casa. Está na nossa mão. Hoje, temos muito mais controle dos nossos custos”, afirma o CEO.
O executivo se refere ao movimento da companhia no segundo semestre de 2024, quando foi realizada uma operação de CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) junto ao Banco BOCOM BBM, que atuou com o Bradesco BBI na emissão de R$ 300 milhões.
A captação foi destinada a fortalecer a operação principal de produção, beneficiamento e armazenagem das sementes. Hoje, ela continua avaliando instrumentos capazes de reduzir o custo financeiro das operações em um ambiente de juros historicamente elevados.
A companhia possui conselho de administração desde os anos 2000 e mantém processos auditados por uma das grandes empresas globais de auditoria, combinação que fortaleceu sua estrutura de governança sem abrir mão dos valores da família fundadora.
“Uma das grandes fortalezas da Jotabasso sempre foi a valorização das equipes e a preparação das pessoas para enfrentar os momentos de dificuldade que acontecem ciclicamente no agro”, diz Martinelli. Filho de pequenos produtores rurais do interior do Rio Grande do Sul, formado em técnico agrícola. Hoje, poucos executivos conhecem tão profundamente a estrutura da empresa quanto ele.