A entrada em vigor da tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos industriais e manufaturados brasileiros amplia a pressão sobre a indústria nacional da madeira. A medida passou a valer em 22 de julho, após investigação conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana, e atinge produtos que não foram incluídos na lista oficial de exceções. O impacto ocorre em um momento em que o setor já registrava redução das exportações para o mercado americano.
Levantamento da WoodFlow, plataforma online especializada na exportação de madeira brasileira, mostra que os embarques de dez dos principais produtos exportados pelo setor totalizaram US$ 855,2 milhões no primeiro semestre de 2026, ante US$ 929,5 milhões no mesmo período do ano anterior. A retração foi de 8% em valor e de 6% em volume antes mesmo da entrada em vigor da nova tarifa.
Nos embarques destinados aos Estados Unidos, a queda foi mais intensa. Segundo a empresa, as exportações dos produtos monitorados recuaram 33% na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026.
“Continuamos perdendo mercado para concorrentes diretos, como Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile e México. Há indústrias com contratos congelados, operando no vermelho ou recorrendo a férias coletivas”, afirma Gustavo Milazzo, CEO da WoodFlow.
A tarifa decorre de investigação comercial conduzida pelo governo norte-americano. Nos primeiros dias de vigência, alguns produtos chegaram a enfrentar sobretaxa de até 35%, em razão da sobreposição temporária da nova cobrança com a tarifa global de 10% prevista na Seção 122, cuja vigência estava programada até 24 de julho. Encerrado esse período, permanece a alíquota adicional de 25%, salvo eventual alteração da política comercial dos Estados Unidos.
A lista de exceções contempla códigos tarifários específicos para algumas madeiras tropicais em tora ou serradas, determinados compensados, lâminas, pisos de madeira tropical e categorias de celulose química. A exclusão, porém, não abrange de forma ampla todos os produtos classificados no Capítulo 44 do Sistema Harmonizado, o que exige análise individual da classificação tarifária de cada mercadoria exportada.
Os efeitos da perda de competitividade já vinham sendo observados antes da confirmação da nova tarifa. Marcelo Wiecheteck, head de Desenvolvimento Estratégico da STCP, apresentou levantamento indicando redução próxima de US$ 351 milhões nas exportações de sete dos principais produtos brasileiros de madeira destinados aos Estados Unidos durante o primeiro semestre deste ano. “No caso da madeira serrada de pinus, a redução foi de 37% em volume e de 41% em valor na comparação com 2025. De modo geral, tivemos uma retração próxima de 40%, ainda mais acentuada em molduras e produtos de maior valor agregado”, afirma Wiecheteck.

A reorganização das exportações, no entanto, não depende apenas da abertura de novos destinos comerciais. Parte da indústria brasileira foi estruturada para atender especificações técnicas exigidas pelo mercado norte-americano, o que limita o redirecionamento imediato da produção. O diretor da Águia Florestal e presidente do Sindimadeira Ponta Grossa, Álvaro Scheffer Junior afirma que cerca de 90% das vendas da empresa estavam concentradas nos Estados Unidos. A necessidade de buscar outros mercados levou a companhia a investir em adaptações produtivas e no desenvolvimento de novos produtos.
“Quando uma indústria está voltada ao produto norte-americano, dificilmente consegue mudar de mercado utilizando a mesma linha de produção. Para entrar em outro país, é necessário tirar espaço de um fornecedor já estabelecido, ser competitivo em preço e, muitas vezes, automatizar e investir em novos produtos”, afirma.
Na avaliação de representantes do setor, a diversificação deverá combinar novos mercados e produtos de maior valor agregado. Países da Ásia, Europa, América Latina e Oriente Médio permanecem como alternativas, embora nenhum deles tenha capacidade para absorver, no curto prazo, o volume anteriormente destinado aos Estados Unidos. Não por acaso, o mercado interno ganha importância nas estratégias das empresas. Segundo Wiecheteck, a indústria florestal brasileira reúne produtividade, conhecimento técnico, genética melhorada e experiência industrial acumulada ao longo de décadas, mas ainda enfrenta dificuldades para ampliar o consumo doméstico de madeira.
A construção civil aparece entre os segmentos com maior potencial de expansão. Segundo a Fundação João Pinheiro, o Brasil apresentava déficit habitacional de aproximadamente 5,77 milhões de moradias em 2024. Ao mesmo tempo, cresce a pressão por sistemas construtivos capazes de reduzir as emissões de carbono. Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente indicam que edifícios e construção respondem por cerca de 37% das emissões relacionadas ao consumo de energia e aos processos produtivos.