A safra brasileira de soja 2026/27, com plantio no país a partir de meados de setembro, pode registrar uma queda de cerca de 2% ante o recorde do ciclo anterior, para 178 milhões de toneladas, em meio a difíceis condições de mercado que deverão levar a uma estabilização da área plantada, afirmou o Rabobank nesta quinta-feira.
A estimativa inicial do banco holandês considera uma “pausa” no aumento “sustentado” de área plantada, que tem sido visto no país há mais de duas décadas a uma taxa de cerca de 4% ao ano, segundo relatório assinado pela analista sênior de grãos e oleaginosas, Marcela Marini.
Margens de agricultores comprimidas por preços baixos da commodity, condições de crédito mais restritivas, custos de financiamento mais elevados e “crescente incerteza” em torno dos mercados de insumos desmotivam agora a expansão de área no maior produtor e exportador de soja, escreveu Marini.
O recuo esperado na produção considera uma “normalização” da produtividade média, após resultado no anterior acima da tendência, “em vez de queda na área plantada”.
Contudo, os riscos de queda maior na produtividade são elevados, “particularmente devido a potenciais impactos do El Niño e aos custos mais elevados de fertilizantes associados a tensões geopolíticas” geradas pela guerra no Irã.
“Nesta fase, a estimativa não incorpora potenciais impactos climáticos adversos associados ao El Niño”, disse o Rabobank, lembrando que episódios recentes do fenômeno climático tiveram impactos negativos na produção em regiões importantes, notadamente na safra 2023/24.
O ambiente mais restritivo também está aumentando a disponibilidade de terras agrícolas para venda ou arrendamento, à medida que os produtores buscam liquidez e ajustes em seus balanços, apontou o relatório.
“O consequente aumento na oferta de terras deve desacelerar a expansão da área cultivada — particularmente aquela decorrente da conversão de pastagens –, ao mesmo tempo em que redireciona o modelo de crescimento da soja no Brasil para a otimização e a realocação de áreas agrícolas já existentes”, concluiu.
Fase de transição
A especialista classificou a expectativa de estagnação da área como uma “mudança chave” e um “ponto de inflexão” no foco estratégico de produtores.
Mas a mudança não significa uma “contração estrutural” na produção de soja do Brasil, que, com o crescimento contínuo da safra, expandiu sua participação na produção global de 28% em 2010 para 42% em 2026.
“Trata-se, na verdade, de uma moderação no ritmo de expansão, refletindo tanto condições econômicas mais restritivas para os produtores quanto um crescimento mais lento da demanda global”, apontou Marini.
Ela lembrou que a terra continua sendo o principal ativo do produtor, “o que limita a probabilidade de uma redução significativa da área”.
“No entanto, espera-se que a expansão futura se torne mais seletiva, cada vez mais condicionada à rentabilidade, ao acesso ao crédito e a considerações sobre gestão de riscos”.
Em 2026/27, se confirmada a projeção de safra menor, ela poderia contribuir para um cenário global de oferta e demanda mais equilibrado, fluxos de exportação mais estáveis e um suporte moderado aos níveis de “basis” da soja no mercado interno.