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Algodão Brasileiro Atinge R$ 36,4 Bilhões E Mira Novo Salto Global

Com produtividade em alta e exportações recordes, setor projeta 7% a 8,5% de expansão da área na safra 2026/27

8 min

“A mudança é estrutural. O Brasil está conquistando o mercado internacional em consequência da nossa alta eficiência produtiva e do nosso sistema produtivo”, afirma Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola, resumindo uma das principais conclusões do debate “O algodão brasileiro no tabuleiro global: perspectivas e estratégias para a safra 2026/27”, realizado na quarta-feira (23), no segundo dia do 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), em Belo Horizonte. O evento começou na terça-feira (22), segue até quinta-feira (24), e vem sendo acompanhado pela Forbes Agro.

O tamanho dessa transformação aparece também nos dados econômicos. O Valor Bruto da Produção (VBP) do algodão chegou a R$ 36,36 bilhões em 2025, o maior valor da série histórica analisada pelo Ministério da Agricultura. Em 2026, o VBP preliminar, calculado com dados de janeiro a agosto, está em R$ 35,14 bilhões, ainda o segundo maior resultado da série.

Além de Pavinato, à frente de um dos maiores grupos produtores de algodão e que faturou R$ 8,6 bilhões em 2025, também participaram o evento o consultor de mercado e CEO da Agroconsult, André Pessôa, a produtora rural Alessandra Zanotto Costa, presidente Associação Baiana de Produtores de Algodão (Abapa), e o produtor Alexandre De Marco, CEO do Grupo BDM, de Mato Grosso.

De R$ 4 bilhões para mais de R$ 36 bilhões

Divulgação/CBAAndré Pessoa: “A presença constante de produto brasileiro disponível para o mercado internacional é uma característica muito relevante”

O avanço do VBP ajuda a contar a história de uma cultura que praticamente mudou de endereço, escala e modelo produtivo no Brasil. O menor valor da série ocorreu em 1997, quando o algodão gerou R$ 3,96 bilhões. A partir dos anos 2000, a expansão no Cerrado, a mecanização, a tecnologia e a integração com a soja deram novo padrão à atividade.

A diferença de escala é ainda mais expressiva quando se olha para a produtividade. Segundo Pavinato, o Brasil saiu de cerca de 1 milhão de hectares plantados há duas décadas para um pouco mais de 2 milhões, enquanto a produtividade média nacional avançou de aproximadamente 1.200 para 2.000 quilos de pluma por hectare. Nesse mesmo período, a China também elevou fortemente sua produtividade, mas reduziu a área plantada.

É justamente nessa combinação entre escala, produtividade e capacidade de produzir em segunda safra que está uma das principais vantagens brasileiras. “O que garante nossa competitividade é a condição de fazer duas safras, ter alta produtividade e a possibilidade de ofertar algodão 12 meses por ano”, afirmou Pavinato. “Além da alta eficiência em produção, o que ajudou muito o Brasil a chegar onde chegou foi a organização da cadeia,” diz Alessandra.

André Pessôa, consultor de mercado e CEO da Agroconsult, reforçou durante o painel que o Brasil já ultrapassou os Estados Unidos em produção de algodão considerando Mato Grosso isoladamente e que a Bahia também está acima da Austrália. Na exportação, segundo ele, o Brasil passou os Estados Unidos por duas safras consecutivas e, no ciclo encerrado em julho, embarcou 27% mais algodão que os norte-americanos. No ano passado, as exportações brasileiras de algodão em pluma foram de 3,1 milhões de toneladas, o que correspondeu a 74,8% da safra 2025/26, com receita de US$ 5,2 bilhões (R$ 26,6 bilhões, na cotação atual).

A vantagem brasileira vai além da porteira

Divulgação/CBAPavinato: “O que garante nossa competitividade é a condição de fazer duas safras e ter alta produtividade”

O salto não aconteceu apenas porque o produtor brasileiro passou a colher mais por hectare. O país construiu uma cadeia capaz de entregar grandes volumes ao mercado externo durante praticamente todos os meses do ano. Para o comprador internacional, essa regularidade passou a ser um diferencial.

“A presença constante de produto brasileiro disponível para o mercado internacional é uma característica muito relevante na comercialização que passamos a ter”, afirmou Pessôa. Segundo o consultor, o Brasil já consegue superar 400 mil toneladas exportadas em determinados meses e mantém embarques acima de 200 mil toneladas na maior parte dos períodos.

Essa mudança também alterou a relação do Brasil com os concorrentes. China, Índia, Estados Unidos, Austrália e Paquistão continuam relevantes, mas enfrentam limitações específicas. A Austrália depende fortemente da disponibilidade de água; Paquistão e Índia perderam área e produtividade; e Estados Unidos e China utilizam diferentes mecanismos de proteção e apoio à produção, segundo a análise apresentada no congresso.

Para Alexandre De Marco, CEO do Grupo BDM, existe ainda uma vantagem estrutural brasileira. “Dois grandes competidores, Índia e China, têm o dilema de produzir alimentos devido à alta população; o Brasil não tem essa pressão sobre a área agrícola.”

Isso não significa, porém, que exista espaço para crescer sem limite. Pavinato fez um alerta importante: a expansão precisa ocorrer em áreas de alto potencial produtivo. “Não dá para investir em produção de algodão numa área marginal para realmente conseguir ter um custo por libra cada vez menor.”

O verdadeiro concorrente está fora da lavoura

Divulgação/CBAAlessandra Zanotto Costa: “Além da alta eficiência em produção, o que ajudou muito o Brasil a chegar onde chegou foi a organização da cadeia”

Se há uma conclusão estratégica que apareceu com força no debate, é que o principal adversário do algodão brasileiro não é necessariamente o algodão produzido em outro país. É o poliéster, fibra sintética derivada da cadeia petroquímica.

Nos últimos anos, o petróleo mais barato ajudou o poliéster a ganhar competitividade. Agora, o movimento dos preços internacionais do petróleo mudou parte dessa equação. “Na medida em que ficou mais cara a fibra sintética, aumentou a posição relativa de competitividade do algodão brasileiro, americano e australiano”, explicou Pessôa.

Pavinato resumiu a mudança de cenário de outra maneira. Segundo ele, durante anos a indústria trabalhou com a percepção de que a volatilidade era um problema principalmente do algodão. Os conflitos recentes, porém, levaram essa instabilidade para o petróleo e, consequentemente, para o poliéster. “A fibra natural funciona como um mitigador de risco para a indústria têxtil.”

É uma mudança importante porque coloca a cotonicultura diante de uma questão maior do que conquistar participação de mercado de outros países produtores: como aumentar o consumo mundial de algodão?

Pavinato afirmou que a cadeia discute justamente novas tecnologias de fiação e tecidos mistos capazes de ampliar o uso da fibra natural. Para De Marco, o objetivo estratégico deve ser ganhar espaço sobre as fibras sintéticas por meio do aumento do consumo global de fibras naturais.

Safra 2026/27: mais área, mas com olho no custo e no clima

Divulgação/CBAAlexandre De Marco: “A gente não controla o preço final; no fim do dia, a gente trabalha por margem”

Para a próxima temporada, a Agroconsult projeta crescimento de 7% a 8,5% na área plantada, chegando a aproximadamente 2,2 milhões de hectares. O Mato Grosso deve superar novamente 1,5 milhão de hectares, enquanto a Bahia deve passar de 400 mil hectares. A expansão, contudo, encontra uma limitação importante: crédito e financiamento.

O clima será outro ponto de atenção, porque o El Niño pode alterar a distribuição das chuvas e reduzir a segurança da janela de plantio, especialmente no Nordeste e na segunda safra do Centro-Oeste. Na Bahia, porém, a expansão da irrigação elevou a capacidade de resposta do produtor. Segundo Pessôa, quase 200 mil hectares de algodão já são irrigados no estado.

O custo também entra no centro da equação, com a alta dos fertilizantes, especialmente os fosfatados, impedindo uma redução mais expressiva do custo de produção para 2026/27. Ainda assim, a valorização recente do algodão melhorou a relação de troca do produtor. Pessôa afirma que o setor deve manter um nível adequado de rentabilidade na próxima safra, embora longe dos maiores picos históricos.

Para De Marco, o ponto crítico está cada vez menos no custo direto da lavoura e mais nas despesas administrativas, comerciais, financeiras e logísticas. “A gente não controla o preço final; no fim do dia, a gente trabalha por margem.”

Até quinta-feira (23), a Forbes Agro acompanhará os principais debates, anúncios e tendências que devem influenciar os rumos de uma das cadeias mais estratégicas do agronegócio nacional.

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