Uma decisão estimada em R$ 2 bilhões pode influenciar diretamente a competitividade do agronegócio brasileiro na próxima safra. O valor corresponde à subvenção emergencial defendida pela Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), entidade que representa, coordena e divulga a cadeia de fertilizantes no Brasil, para conter os efeitos da disparada do preço do enxofre, matéria-prima essencial para a fabricação dos fertilizantes fosfatados.
Segundo estimativas apresentadas durante o 13º Congresso Internacional Brasil 2026, realizado na terça-feira (25), em São Paulo, a medida pode evitar perdas entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões para a economia brasileira decorrentes da redução da produtividade agrícola.
“Pedimos ao governo uma subvenção temporária de R$ 2 bilhões para o enxofre, o que pode evitar que o Brasil perca de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões na economia”, afirmou Eduardo de Souza Monteiro, Country Manager da Mosaic.
O pedido da indústria ocorre em um momento em que o Brasil enfrenta uma das maiores pressões já registradas sobre o mercado de fertilizantes. A escalada do custo do enxofre, associada às restrições logísticas provocadas pelos conflitos no Oriente Médio e ao aumento da seletividade na concessão de crédito rural, passou a ameaçar tanto a produção nacional de fertilizantes quanto o planejamento da próxima safra.
Este ano, segundo a consultoria Agroconsult, somadas as importações de 38,4 milhões de toneladas (86,9%) e a produção nacional de 5,8 milhões de toneladas (13,1%), o Brasil pode somar 44,2 milhões de toneladas de fertilizantes. A queda seria de 12,5% em comparação a 2025.
Mais do que garantir o abastecimento da próxima safra, a discussão passou a envolver a capacidade do Brasil de sustentar sua liderança na produção mundial de alimentos em um ambiente internacional cada vez mais instável. Para a indústria, esse objetivo dependerá de uma combinação entre respostas emergenciais para enfrentar a atual crise e políticas permanentes voltadas ao fortalecimento da produção nacional, da inovação e da segurança de suprimento.
A conta da dependência

Os números apresentados pela ANDA ajudam a explicar por que o tema ganhou prioridade entre empresas, produtores e governo. Segundo a entidade, o preço do enxofre CFR Brasil aumentou 1.225,6% entre janeiro de 2024 e julho de 2026, alcançando US$ 1.200 (R$ 6.180, na cotação atual) por tonelada. O enxofre CFR Brasil se refere ao pagamento com o frete e o seguro pagos até um porto brasileiro. No mesmo período, o fertilizante fosfato monoamônico (MAP), composto por fósforo e nitrogênio, registrou valorização de 60,7%, insuficiente para compensar o aumento da principal matéria-prima da cadeia.
Como consequência, o enxofre, que tradicionalmente representava entre 15% e 20% do custo do fertilizante, passou a responder por cerca de 66,7% do valor do produto final. Na prática, isso significa que boa parte das fábricas brasileiras passou a operar com margens negativas. O estudo econômico elaborado pelo Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert) alerta que, mantido o cenário atual, unidades industriais poderão interromper suas atividades ainda neste ano, comprometendo empregos, arrecadação e o abastecimento de diversos segmentos da economia.
Os reflexos não se restringem à indústria. O documento estima perdas entre US$ 2,5 bilhões (R$ 12,9 bilhões) e US$ 3,5 bilhões (R$ 18 bilhões) em receitas de exportação da soja em apenas um ciclo agrícola, além de impactos sobre aproximadamente cinco mil empregos diretos e indiretos e sobre a produção de compostos utilizados na fluoretação da água.
É justamente para evitar esse efeito em cadeia que a entidade propõe uma Medida Provisória instituindo um regime emergencial de abastecimento. Pela proposta, a União subsidiaria 85% da parcela do preço do enxofre que exceder US$ 500 (R$ 2.575) por tonelada, mecanismo que seria automaticamente reduzido à medida que os preços internacionais recuassem.
A crise bate forte na porta das fábricas

Para Elias Alves Lima, presidente do Conselho de Administração da ANDA e vice-presidente de Operações da Mosaic para a América do Sul, a velocidade da alta dos preços transformou uma preocupação logística em um problema industrial.
O executivo lembra que o Brasil depende de importações para suprir praticamente toda a demanda por enxofre utilizada na fabricação dos fertilizantes fosfatados.
“Nós dependemos de mais de 90% de importação de enxofre para manter a produção de fertilizantes fosfatados no país.”
Essa dependência tornou-se ainda mais evidente com a explosão dos preços internacionais. “Em 2024, comercializávamos o enxofre a US$ 80 (R$ 412,0) por tonelada; agora está em US$ 1.200 (R$ 6.180,0) por tonelada.” Segundo Lima, a elevação do custo retirou competitividade da produção doméstica. “Se a gente importar enxofre e comercializar o fertilizante no Brasil com o preço de US$ 1.200 (R$ 6.180,0) por tonelada, ele vai deixar de ser competitivo.”
O resultado já aparece nas fábricas. “A produção nacional de fertilizantes está sofrendo um momento muito grave; algumas plantas estão paralisando.” Na avaliação do dirigente, o problema vai além do abastecimento agrícola. “A crise afeta a cadeia de fertilizantes, mas também afeta o tratamento de água.”
Por isso, a entidade defende uma resposta imediata. “Estamos conversando com o governo para tentar uma subvenção, como foi feita no óleo diesel, para subsidiar o custo do enxofre.”
Ao mesmo tempo, Lima considera que medidas estruturantes continuam necessárias. O Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), aprovado pelo Congresso Nacional e que deve ser sancionado nos próximos dias, prevê até R$ 10 bilhões em créditos fiscais entre 2027 e 2031 para estimular investimentos na produção nacional. Para ele, porém, o programa responde ao futuro, enquanto a indústria busca uma solução para o presente.
“O Profert é muito importante, mas é um programa de médio e longo prazo; não é um plano para o problema de agora.”
Menos fertilizante, menor produtividade
Para a Mosaic, o principal risco da crise não é apenas a paralisação de fábricas, mas a possibilidade de que produtores reduzam a aplicação de fertilizantes diante do aumento dos custos e das dificuldades de acesso ao crédito.
Monteiro avalia que a agricultura brasileira atravessa um cenário sem precedentes recentes. “Nos últimos 25 anos, seguramente eu não vi nada tão complexo na agricultura brasileira.”
Segundo o executivo, a pressão sobre o setor resulta da combinação entre juros elevados, maior aversão ao risco por parte das instituições financeiras, volatilidade das commodities e mudanças provocadas pela geopolítica sobre as cadeias globais de suprimento.
Entre esses fatores, ele destaca a interrupção dos fluxos internacionais de enxofre provocada pelas tensões no Oriente Médio. “A interrupção do fluxo pelo Estreito de Ormuz afetou o enxofre, matéria-prima insubstituível para fertilizantes fosfatados que representa 70% da produção da indústria.”
Mesmo que o conflito fosse encerrado imediatamente, afirma Monteiro, a normalização do abastecimento não seria rápida. “Mesmo se a guerra no Oriente Médio acabasse hoje, demandaríamos de seis a doze meses para que a produção e o refino de enxofre fossem restabelecidos.” Na avaliação da empresa, esse intervalo pode coincidir justamente com a formação da próxima safra brasileira, ampliando o risco de redução na adubação das lavouras.
A preocupação não está relacionada apenas à disponibilidade física dos fertilizantes, mas principalmente ao comportamento do produtor diante do aumento dos custos. Quando a reposição de nutrientes é reduzida, especialmente em áreas de menor fertilidade, os efeitos aparecem na produtividade das culturas. “Estimamos que a produtividade brasileira pode cair de 5% a 7% por redução de tecnologia e menor uso de fertilizantes fosfatados.”
É essa projeção que sustenta a estimativa de perdas econômicas apresentada pela Mosaic durante o congresso. Segundo Monteiro, uma subvenção temporária teria custo significativamente inferior aos prejuízos que poderiam ser provocados pela redução da produção agrícola. “A cada R$ 1 investido na subvenção do enxofre evitamos uma perda de R$ 15 na economia brasileira.”
A geopolítica passou a influenciar a fazenda

Os debates do congresso mostraram que a crise do enxofre representa apenas um dos efeitos de uma transformação mais ampla nas relações internacionais. Durante o painel “Geopolítica e os Fertilizantes: como o Brasil pode reduzir vulnerabilidades” destacou que a dependência externa de fertilizantes tornou a agricultura brasileira mais exposta aos efeitos de conflitos internacionais. Participaram do debate Marcelo Altieri, Presidente da Yara Brasil, Matias Spektor, diretor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) e o embaixador Rubens Barbosa, diretor presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice).
Durante o painel, o presidente da Yara Brasil, Marcelo Altieri, lembrou que nenhuma potência agrícola é totalmente autossuficiente em fertilizantes e que o desafio consiste em construir cadeias de suprimento mais resilientes, preservando simultaneamente competitividade e sustentabilidade.
“Não é que temos que escolher entre alimentar o mundo ou proteger o planeta, o Brasil tem que fazer as duas coisas juntas,” diz Altieri.
“Ser competitivo em uma economia de baixa emissão de carbono será fundamental para o país”, diz o executivo da Yara. “Hoje, varejistas, investidores e consumidores querem entender como os produtos chegam às suas mãos. A indústria precisa mudar a forma como produz alimentos e fertilizantes para o futuro, e o Brasil está super bem posicionado para liderar essa transição.”
Já o diretor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Matias Spektor, avaliou que as mudanças geopolíticas deixaram de influenciar apenas os preços dos insumos e passaram a alterar o equilíbrio das relações comerciais globais.
“O Brasil precisa aceleradamente reduzir a sua dependência da China. Exportar 30% de tudo que você vende no mundo para um país só é pedir para contratar um problema,” diz Spektor.
Para o embaixador Rubens Barbosa, a nova configuração internacional exige maior protagonismo tanto do setor público quanto da iniciativa privada na formulação de estratégias capazes de reduzir a dependência brasileira de fornecedores externos.
“O setor privado não pode ficar mais aguardando que o governo tome as providências de acordo com os interesses políticos deles; o setor privado tem de ter uma posição ativa,” diz Barbosa
O crédito tornou-se parte da equação

A preocupação com os fertilizantes também apareceu sob outro ângulo no painel “A Economia Brasileira, o Agronegócio e os Fertilizantes: riscos e oportunidades do desequilíbrio entre a oferta e a demanda global”, com as análises de André Pessôa, presidente da Agroconsult e o consultor Jeferson Souza, analista de Insumos na Agrinvest Commodities.
André Pessôa mostrou que a recuperação parcial dos preços internacionais das commodities não foi suficiente para recompor a rentabilidade das propriedades rurais. Segundo ele, o aumento dos custos de produção e dos juros reduziu significativamente a capacidade de investimento dos agricultores.
“Estamos convivendo com taxas de juros do mundo real de 18%, 20% a 22%, incompatíveis com qualquer atividade produtiva lícita.” Na avaliação do consultor, a consequência é que parte dos produtores passou a limitar decisões agronômicas por questões financeiras. “A tomada de decisão técnica do produtor rural está sendo limitada pela disponibilidade financeira, forçando-o a usar a reserva nutricional do solo.”
O analista Jeferson Souza reforçou esse diagnóstico ao afirmar que o principal desafio atual não é a oferta de fertilizantes, mas o acesso ao crédito necessário para financiá-los. Essa combinação entre custos elevados, crédito restrito e maior volatilidade internacional explica por que a indústria considera essencial preservar a capacidade de produção instalada no país antes que a demanda pela próxima safra aumente.
Bioinsumos entram na agenda estratégica
Além das medidas emergenciais, o congresso dedicou espaço para discutir tecnologias capazes de aumentar a eficiência da adubação. Entre elas estão os bioinsumos, apontados pela indústria como uma alternativa complementar aos fertilizantes minerais.
“Hoje temos o avanço dos bioinsumos, mas esse mercado ainda depende da formalização da legislação”, diz Elias Alves Lima, da ANDA. “Já temos regras e regulamentações definidas em outros países, como o Paraguai. A própria Mosaic comercializa bioinsumos no Paraguai, mas não conseguimos avançar na mesma velocidade no Brasil porque a legislação correspondente ainda não foi sancionada.”
A avaliação foi compartilhada por Eduardo, da Mosaic, que vê na ampliação do acesso a essas tecnologias uma oportunidade para elevar a eficiência do uso de nutrientes, estimular investimentos e fortalecer a competitividade da agricultura brasileira. “A principal oportunidade reside no segmento de bioinsumos e fertilizantes especiais. É um mercado que vem registrando crescimento acima da média.”