O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou na quarta-feira (26) que o governo norte-americano analisará a presença de regulamentações excessivas nas plantas de processamento de carne bovina no país. A afirmação ocorreu durante uma entrevista ao programa do apresentador Glenn Beck, em um momento de acentuado atrito entre a Casa Branca e os produtores rurais locais.
O aceno de desregulamentação surge como tentativa de conter o descontentamento da base eleitoral no campo. A insatisfação de pecuaristas e parlamentares republicanos vem se acumulando desde a última sexta-feira (21), quando a administração norte-americana anunciou a liberação para importar até 300 mil toneladas extras de carne bovina sem a cobrança de tarifas fora de cota, em uma janela temporária de 90 dias.
O objetivo do governo com a abertura de mercado é conter a escalada de preços no varejo, com foco na carne destinada à produção de hambúrgueres. O produto acumula altas expressivas e já ultrapassa US$ 6,80 por libra-peso (cerca de US$ 15 o quilo, ou R$ 80) nos supermercados dos EUA. A pressão inflacionária é reflexo de um problema estrutural da pecuária norte-americana, que registra o menor rebanho bovino em 75 anos por motivo de secas prolongadas e custos elevados de produção.
Ao prometer a revisão de regras operacionais e burocráticas nas unidades processadoras, Trump tenta sinalizar apoio ao setor doméstico e amortecer o impacto político causado pela permissão de compras do exterior. Mas há reações e elas não são poucas
A reação das entidades rurais
A decisão de zerar tarifas para volumes adicionais de carne importada provocou resistência imediata e duras notas oficiais das principais entidades de classe do setor pecuário dos Estados Unidos.
A National Cattlemen’s Beef Association (NCBA) manifestou oposição ao plano por meio de posicionamento assinado por seu presidente executivo, Colin Woodall. A entidade declarou estar “extremamente decepcionada” e criticou a decisão. “Embora os produtores de gado da América compartilhem do objetivo de manter as compras de supermercado acessíveis para os consumidores, inundar o mercado com carne bovina subsidiada pelo governo e abaixo do preço de mercado não é a forma de reconstruir o rebanho bovino americano“, afirmou Woodall em nota.
No mesmo tom, a U.S. Cattlemen’s Association (USCA) posicionou-se contra o anúncio. Em declaração concedida à emissora de rádio agrícola Western Ag Network, o presidente da entidade, Justin Tupper, criticou a intervenção estatal. “Tentamos transmitir à Casa Branca que isso não tem o efeito que eles esperavam. Sempre que você interfere nesses mercados, as únicas pessoas que vão ganhar dinheiro são os grandes frigoríficos e os varejistas”, declarou Tupper. O dirigente arrematou afirmando que “não se coloca os Estados Unidos em primeiro lugar colocando os pecuaristas americanos em último”.

Representantes estaduais de associações de produtores de Iowa, Illinois e Montana também divulgaram alertas sobre os impactos regionais das importações. O vice-presidente executivo da Illinois Beef Association, Josh St. Peters, declarou à rede Brownfield Ag News, que “o presidente Trump fez uma promessa aos consumidores hoje sobre a redução de preços às custas dos agricultores familiares em todo o país. É isso que deixou todo mundo furioso”. St. Peters lembrou ainda que o anúncio representou mais um golpe para o setor produtivo logo após o anúncio de fechamento de uma grande unidade fabril da Tyson, em Illinois.
Já o presidente da Montana Farmers Union, Walter Schweitzer, destacou em entrevista à Western Ag Network que a medida causa um forte choque no setor, embora a cota represente cerca de 2% do consumo do país.
“Os frigoríficos e os compradores vão utilizar isso para forçar os preços para baixo e tentar tirar vantagem dos produtores de gado neste outono, que é um momento crítico de vendas”, afirmou Schweitzer.
Oposição no Congresso e no Cinturão Agrícola
No âmbito político, a insatisfação atingiu congressistas e autoridades de estados com forte tradição pecuária no Cinturão Agrícola (Farm Belt), provocando ruído entre o governo e importantes lideranças do próprio Partido Republicano.
O senador John Barrasso (R-WY), número dois do Partido Republicano no Senado (Majority Whip), rompeu com a Casa Branca em torno da pauta e afirmou em nota que “os americanos querem carne norte-americana na mesa, não importações estrangeiras. Nossos pecuaristas não pedem tratamento especial, apenas um mercado justo”.
Em Nebraska, um dos estados mais representativos da pecuária norte-americana, os senadores republicanos também criticaram o movimento do governo. A senadora Deb Fischer, que é criadora de gado no estado, pontuou ao jornal Financial Times que “inundar o mercado com carne bovina estrangeira prejudica nossa indústria pecuária e compromete a solução de longo prazo, que é a expansão do rebanho norte-americano para atender à demanda”.
No mesmo tom, o senador Pete Ricketts publicou na rede social X (antigo Twitter): “Aprecio o trabalho da administração para baixar os preços dos alimentos. Mas mudanças de política de curto prazo não equivalem a soluções de longo prazo. Inundar o mercado com carne de menor qualidade compromete os agricultores e pecuaristas de Nebraska”.
Na Câmara dos Deputados, a deputada republicana por Iowa, Ashley Hinson, manifestou-se em uma coletiva durante a feira agrícola Iowa State Fair, ocorrida de 13 e 23, em Des Moines, que “aumentar a importação de carne estrangeira é uma má ideia. O rebanho está no nível mais baixo em 70 anos, e precisamos fazer de tudo para apoiar nossos pecuaristas de Iowa no que eles fazem”. Em publicação posterior na rede X, Hinson reforçou: “Quero baixar os preços, mas esta é uma má ideia. Deveríamos focar em cortar a burocracia para os produtores de gado e baixar o custo de produção”.
Também na Iowa State Fair, o Secretário de Agricultura de Iowa, Mike Naig, rebateu a medida e fez um alerta direto em suas redes sociais e durante uma entrevista coletiva concedida ao lado da secretária do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), Brooke Rollins: “Precisamos de comida acessível, mas não às custas dos produtores de gado”. Naig questionou a estratégia do governo, fazendo a seguinte pergunta.
“Por que o presidente está dando um soco no estômago dos agricultores com essas 660 milhões de libras de carne para hambúrguer que só vão durar 90 dias?”.
O senador recém-eleito por Montana, Tim Sheehy (R-MT), também se uniu ao bloco de oposição dentro do partido ao declarar ao portal Briefs Finance, que essa “medida vai prejudicar nossas famílias de pecuaristas que alimentam a nação”.
Impacto na Bolsa de Chicago e nos contratos da pecuária
O anúncio provocou desvalorizações na Chicago Mercantile Exchange (CME). No pregão desta terça-feira (25), o contrato futuro de gado gordo (Live Cattle) para outubro fechou em queda de US$ 2,65, cotado a US$ 210,95 por libra-peso – equivalente a US$ 4,65 por quilo, ou R$ 24/kg) – atingindo o menor patamar em oito meses.
No segmento de reposição (Feeder Cattle), o vencimento para novembro recuou US$ 5,27, negociado a US$ 305,70 por libra-peso – ou US$ 6,74 por quilo (cerca de R$ 35/kg). O movimento sucedeu a forte desvalorização do pregão de segunda-feira (24), no qual os contratos registraram perdas diárias que chegaram a US$ 4,32 por libra-peso.
A reação do mercado futuro acompanhou o recuo nos preços do gado no mercado físico interno, onde os negócios fecharam a terça (25) cotados a US$ 218,00 por hundredweight (cwt) – equivalente a US$ 4,80 por quilo, ou R$ 24,70/kg –, uma retração em relação à média de US$ 225,01 por cwt (US$ 4,96/kg) registrada na semana anterior. O recuo mostra a postura de confinadores e frigoríficos, que reduziram o ritmo de aquisição de gado no mercado local à espera da entrada dos volumes importados sem taxa tarifária.
Até o momento, grandes plantas industriais e grupos representativos de processadores de carne mantiveram discrição pública sem emitir notas oficiais sobre a possível importação de carne. Analistas do setor agrícola e corretoras atuantes em Chicago apontam que as grandes indústrias optaram pelo silêncio para não acentuar o desgaste com os produtores rurais. Mas há conversas de consultorias de mercado dizendo que os setores de compra das processadoras já trabalham com a perspectiva de ajustar as margens operacionais utilizando a matéria-prima importada mais barata.
Entidades de produtores, como a U.S. Cattlemen’s Association (USCA), criticaram a posição das indústrias ao declarar que a intervenção governamental favorece a margem financeira de frigoríficos e grandes redes varejistas sem assegurar repasses significativos de descontos ao consumidor final.