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Guerra Coloca Agro da Ucrânia em Colapso; País Era Grande Exportador de Trigo, Milho, Cevada e Girassol

País prepara uma reivindicação de US$ 57 bilhões (R$ 295,9 bilhões) contra a Rússia, por danos ambientais provocados pela invasão

10 min

Em 5 de agosto, a CNN informou que a Rússia havia lançado um novo ataque com mísseis contra Kyiv e outras cidades e municípios próximos na Ucrânia. Pelo menos 17 pessoas morreram nos ataques, e grandes varejistas, armazéns e centros logísticos foram destruídos. Enquanto isso, na cidade de Brovary, uma plataforma ferroviária foi atingida pelo ataque russo com mísseis. Oito civis morreram no ataque.

As Nações Unidas anunciaram que os ataques russos se intensificaram na Ucrânia, afirmando que julho foi o “mês mais letal para os civis ucranianos desde abril de 2022”. Em seu relatório, a ONU também constatou que muitos desses ataques russos com mísseis e drones destruíram “casas, escolas, infraestrutura de transporte público, sistemas de abastecimento de água e armazéns humanitários”.

Desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos verificou mais de 65 mil vítimas civis ucranianas. Além disso, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura informou que, em 29 de julho, mais de 500 locais de valor cultural na Ucrânia haviam sido danificados. Um artigo do New York Times afirmou ainda que mais de 210 mil estruturas residenciais e públicas foram danificadas na Ucrânia. O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia declarou também que, até 2024, pelo menos nove cidades ucranianas haviam sido destruídas durante a guerra. Por fim, uma Avaliação Rápida de Danos e Necessidades, divulgada em fevereiro pelo Governo da Ucrânia, pelo Grupo Banco Mundial, pela Comissão Europeia e pela ONU, estimou que o custo total da reconstrução e recuperação da Ucrânia chega a quase US$ 588 bilhões (R$ 3,04 trilhões na cotação atual).

Além dessas consequências socioeconômicas, a invasão em grande escala que a Rússia mantém contra a Ucrânia também afetou o setor agrícola e o meio ambiente do país. Os efeitos ecológicos da guerra também tiveram repercussões globais.

Antes do início da invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022, a Ucrânia era “um dos principais produtores e exportadores agrícolas do mundo“. Segundo dados de 2021 divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, a Ucrânia ocupava a sétima posição entre os produtores mundiais de trigo, a sexta posição na produção de milho, a quarta na produção de cevada e a segunda na produção de óleo de girassol.

A Ucrânia também ocupava o primeiro lugar entre os exportadores mundiais de óleo de girassol, o terceiro entre os exportadores de cevada, o quarto entre os exportadores de milho e o quinto entre os exportadores de trigo. Além disso, o relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos afirmava que “mais de 55% da área territorial da Ucrânia é composta por terras agricultáveis”.

A terra preta, ou solo negro, da Ucrânia, conhecida como chernozem, é rica em elementos e nutrientes, o que torna o país muito favorável à produção agrícola. Como resultado, a Ucrânia possui uma vasta extensão de terras cultivadas, correspondente a milhões de hectares. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura informa que a Ucrânia possui mais de 60 milhões de hectares de território, dos quais 42,5 milhões de hectares são utilizados na agricultura.

A guerra, no entanto, afetou significativamente a produção agrícola e o meio ambiente da Ucrânia. A Radio France Internationale informou, por exemplo, que somente em 2025 quase 1 milhão de hectares de terras sofreram os impactos da invasão russa em grande escala. A RFI acrescentou que dados de satélite obtidos pela emissora mostraram que incêndios consumiram quase 1 milhão de hectares na Ucrânia, aproximadamente um terço deles formado por terras agrícolas.

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Existem outros problemas relacionados às terras agricultáveis da Ucrânia. A poluição gerada por veículos e por armamentos utilizados durante a guerra lançou substâncias químicas no ar, na água e no solo da Ucrânia, contaminando esses ambientes. Além disso, 30% do território ucraniano continha “minas terrestres e artefatos explosivos não detonados”, tornando essas áreas impróprias para a agricultura. O desmatamento e os incêndios florestais também contribuíram para essa perda de terras agricultáveis. As emissões de gases de efeito estufa na Ucrânia também aumentaram, agravando a poluição do ar no país.

Os danos causados a instalações e edifícios ucranianos ampliaram as consequências negativas para o setor agrícola e o meio ambiente da Ucrânia. Os bombardeios russos contra fábricas ucranianas provocaram danos em tubulações de esgoto, que passaram a despejar águas residuais no abastecimento de água do país. Estações de bombeamento de esgoto e estações de tratamento de águas residuais também foram destruídas em diversas regiões da Ucrânia.

Enquanto isso, parte das terras agrícolas ucranianas foi tomada pelas inundações. Em junho de 2023, a barragem de Nova Kakhovka, que continha um enorme reservatório de água usado para abastecer a península da Crimeia e também a Usina Nuclear de Zaporizhzhia, foi destruída. A Reuters informou que as inundações cobriram “dezenas de milhares de hectares de terras agrícolas no sul da Ucrânia”, tornando essas áreas inutilizáveis para a agricultura. Além disso, após a destruição da barragem, petróleo e diversos produtos químicos foram derramados no reservatório, e centenas de animais morreram nas inundações.

As exportações de grãos da Ucrânia também foram afetadas pela guerra. Quando começou a invasão russa em grande escala, a BBC informou que soldados russos estavam “roubando grãos e outros produtos de agricultores locais” em partes do sul e do leste da Ucrânia. Da mesma forma, uma reportagem da Forbes publicada em junho de 2022 informou que a Rússia era acusada de “roubar centenas de milhares de toneladas de grãos”. Esses episódios tiveram impacto direto sobre os preços globais dos alimentos e sobre a distribuição de alimentos em todo o mundo. Além das ocorrências envolvendo terras agrícolas ucranianas queimadas e grãos roubados, no início da invasão em grande escala a Federação Russa impôs um bloqueio ao Mar Negro, prejudicando as exportações agrícolas da Ucrânia.

Em consequência disso, o Conselho da União Europeia alertou que esses acontecimentos haviam “agravado ainda mais a crise alimentar global”. A BBC informou que a ONU intermediou, em 2022, um acordo para a Iniciativa de Grãos do Mar Negro entre Rússia e Ucrânia, pelo qual a Rússia concordou em suspender o bloqueio às exportações agrícolas ucranianas, mas o acordo foi interrompido em meados de 2023. Mais recentemente, em 4 de agosto, a Reuters constatou que a Ucrânia começou a estudar rotas alternativas para a exportação de grãos, à medida que ataques russos com mísseis e drones passaram a atingir portos e embarcações ucranianas no Mar Negro.

Por fim, também ocorreram ataques contra as usinas nucleares da Ucrânia. Em 7 de junho, a NBC News informou que um drone russo atingiu uma instalação de armazenamento de combustível nuclear usado próxima à Usina Nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. Um drone russo já havia danificado, em fevereiro de 2025, o arco de confinamento instalado sobre a usina nuclear de Chernobyl. Enquanto isso, ao longo da invasão russa em grande escala da Ucrânia desde fevereiro de 2022, a Agência Internacional de Energia Atômica registrou atividades militares nas proximidades da Usina Nuclear de Zaporizhzhia. CNN, NPR e outros veículos de comunicação também documentaram ataques de forças russas contra a usina de Zaporizhzhia durante a guerra. Caso os ataques nessas áreas se intensifiquem, a segurança nuclear na Ucrânia ficará em risco, sobretudo para os cidadãos ucranianos, a vida silvestre e o território. Em razão dessas preocupações, representantes da AIEA acompanham e documentam regularmente a situação.

Diante dos danos agrícolas e ambientais causados pela invasão russa em grande escala desde fevereiro de 2022, o Governo da Ucrânia começa agora a procurar mecanismos de responsabilização por essa destruição. Em 30 de abril, a Verkhovna Rada da Ucrânia ratificou a Convenção sobre a Criação de uma Comissão Internacional de Reclamações para a Ucrânia. Até 20 de maio, o Conselho da Europa havia registrado que a Convenção tinha sido assinada por 38 Estados e pela União Europeia e também ratificada por seis desses signatários.

A Convenção funcionará como um mecanismo internacional de compensação no âmbito do Conselho da Europa e irá “examinar, avaliar e decidir sobre pedidos de indenização por danos, perdas ou prejuízos causados por atos internacionalmente ilícitos cometidos pela Federação Russa na Ucrânia ou contra a Ucrânia”. Os ucranianos estão preparando uma reivindicação superior a US$ 57 bilhões (R$ 294,9 bilhões na cotação atual) contra a Rússia pelas emissões de gases de efeito estufa e pela destruição ambiental provocadas durante a guerra.

Agora está sendo criado um mecanismo para que a Ucrânia possa apresentar um caso de arbitragem e receber compensação da Federação Russa pelos danos agrícolas e ambientais causados durante a guerra. Ainda não se sabe como isso funcionará na prática.

Enquanto especialistas ambientais e jurídicos discutem essa nova plataforma, a invasão russa em grande escala da Ucrânia continua. Não está claro quando nem como a guerra terminará, mas a continuidade dos combates provocará ainda mais devastação para os cidadãos ucranianos e para o país.

A guerra entre Rússia e Ucrânia teve impacto significativo sobre o setor agrícola e o meio ambiente da Ucrânia e também afetou o restante do mundo. Apoiadores da Ucrânia e observadores da guerra acompanharão atentamente os desdobramentos da Convenção sobre a Criação de uma Comissão Internacional de Reclamações para a Ucrânia e se ela alcançará seu objetivo.

Publicada originalmente em Forbes EUA

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