Pela primeira vez, um estudo mediu o nível de aderência entre a finalidade do crédito rural destinado ao cultivo da soja e a cultura efetivamente identificada nas áreas financiadas. Elaborado pela Serasa Experian, o Mapa da Soja mostra que 82,6% das 42.691 operações de custeio da safra 2025/26 apresentaram conformidade entre o financiamento concedido e o cultivo realizado. Já as operações com divergências superiores a 10% da área contratada estão associadas a mais de R$ 2,2 bilhões em crédito rural.
A empresa divulgou nesta terça-feira (25) o panorama do financiamento da maior lavoura cultivada nacionalmente. A colheita de soja no Brasil na safra 2025/26 é estimada em 180,5 milhões de toneladas, 5,2% a mais ante a temporada 2024/25, segundo o mais recente levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Além da análise sobre a aplicação dos recursos, o levantamento da Serasa avaliou o calendário de plantio da soja e identificou que 97,8% dos 46,9 milhões de hectares monitorados foram semeados dentro dos períodos recomendados pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), indicador alinhado às diretrizes do Manual de Crédito Rural (MCR) para redução da exposição ao risco climático. A total de soja brasileira é estimada em 48,6 milhões de hectares na safra 2025/26.
O estudo avaliou operações equivalentes a 1,97 milhão de hectares financiados. Em comparação com a safra 2022/23, quando a Serasa realizou este mesmo estudo (mas sem divulgação pela imprensa), a aderência foi de 76%. Isso significou que o indicador avançou 6,6 pontos percentuais. Segundo a metodologia do levantamento, 66,7% das operações não apresentaram divergências entre a área financiada e a área cultivada. Outros 15,9% registraram diferenças de até 10%, percentual que pode estar relacionado à escala do mapeamento e aos limites das glebas avaliadas.
Nas demais 17,4% das operações, a divergência superou 10% da área financiada. Desse total, 10,6% apresentaram diferenças entre 10% e 50% da área contratada, 3,7% entre 50% e 90% e 3,1% entre 90% e 100%.
Entre os casos avaliados pelo estudo, houve, por exemplo, uma operação de custeio da soja em que nenhum hectare (ha) da cultura foi identificado nos 76,54 ha financiados, enquanto imagens de satélite apontaram a presença de outro cultivo. Em outra operação, dos 37 ha contratados para soja, a cultura foi identificada em apenas 10,42 ha, resultando em uma divergência de 71,8% da área financiada.
Segundo Marcelo Pimenta, head de Agronegócio da Serasa Experian, os indicadores obtidos por sensoriamento remoto são instrumentos de monitoramento e priorização das operações e, isoladamente, não comprovam desvio de finalidade. A confirmação de eventual irregularidade depende de análises documentais, cadastrais, contratuais e agronômicas.
“Quando transformamos imagens de satélite e dados territoriais em indicadores objetivos, o monitoramento deixa de depender de uma análise amostral e evita altos custos para verificar toda a carteira. A tecnologia ajuda a identificar onde estão as maiores divergências e permite que a instituição financeira concentre esforços justamente nas operações que demandam maior atenção,” diz Marcelo.
Estudo também avaliou o calendário de plantio

Além da aderência entre o crédito e o cultivo, o levantamento analisou o período de semeadura da safra 2025/26. Foram monitorados 1,53 milhão de talhões, que somam 46,9 milhões de hectares de soja. Do total da área analisada, 84,9% foi enquadrada na faixa de risco agroclimático de 20%, 10,7% na faixa de 30% e 2,2% na faixa de 40%. Outros 2,2% apresentaram divergência entre a data estimada de plantio e a janela regional parametrizada.
“O ZARC traz uma dimensão complementar importante para a análise porque permite entender não apenas se a soja foi plantada, mas em que momento isso ocorreu e sob qual nível de exposição agroclimática. As diferentes faixas de risco ajudam a contextualizar as condições enfrentadas pela lavoura e, quando combinadas a outros dados do ciclo produtivo, oferecem uma visão mais completa para acompanhar a operação e avaliar o risco ao longo da safra”, diz Marcelo Pimenta.
Os indicadores produzidos por sensoriamento remoto, segundo a Serasa Experian, funcionam como ferramenta de monitoramento e gestão de risco, sem substituir as validações necessárias para a conclusão sobre eventuais irregularidades.
Sensoriamento remoto cruza dados do crédito rural e imagens de satélite
O Mapa da Soja combina microdados públicos do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor) com mapas proprietários de cultivo da Serasa Experian. A metodologia utiliza séries temporais de imagens dos satélites Sentinel-2, interpretação analítica e modelos automatizados de identificação de culturas agrícolas para verificar a presença da soja nas áreas informadas nas operações de financiamento.
Segundo a empresa, esse tipo de monitoramento está alinhado às diretrizes do Manual de Crédito Rural e à Resolução CMN nº 5.267/2025, ampliando a capacidade de acompanhamento das operações financiadas.