Ela tem uma voz baixa e precisa na fala, uma postura contida e um olhar quase inquisidor. São essas as primeiras impressões quando se está diante da chinesa Mo Yun, 54 anos, doutora pela Universidade Agrícola de seu país e hoje uma das mulheres mais poderosas da China para o setor de sementes OGM (ou genética transgênica). Maior acionista da Beijing Dabeinong Technology Group (DBN Group) – uma das companhias que vem liderando o melhoramento genético da soja no país -, entre os atuais afazeres de Mo Yun está olhar para o Brasil de forma cirúrgica.
O DBN Group almeja 30% do mercado das biotecnologias de sementes de soja OGM certificadas e vendidas atualmente no Brasil, um setor dominado por biotecnologias desenvolvidas pelas multinacionais Bayer (legado da Monsanto), Corteva Agriscience (em parceria com a M.S. Technologies), a Basf e a também chinesa Syngenta, comprada pela China National Chemical Corporation em 2015.
“Temos toda atenção e consideração, porque sempre tratamos a América do Sul como um mercado estratégico para nós”, disse Mo Yun, no final da manhã do dia 4 de agosto, uma terça-feira de sol escaldante em Pequim, quando recebeu um grupo de 28 brasileiros na sede do grupo, juntando produtores e multiplicadores de sementes, entre eles André Schwening, presidente da Abrass (Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja). Do grupo de produtores, 17 sementeiros representam no mercado brasileiro algo em torno de 24 milhões de sacas, volume próximo de 50% do total de sementes certificadas comercializadas em todo o país. Entre eles estava a SLC Agrícola, Boa Safra, Agro Amazônia, Atto, Butiá, Latitude, Delta, Jatobasso, Genética Soy, TGM, GDM, cooperativas como Coamo e C.Vale, além de representantes da gestora de ativos Patria Investiments, da Embrapa e da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Abrass), hoje com 46 empresas.
Mo Yun foi uma das responsáveis pela estruturação da área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) da DBN, criada em 1993 junto com o marido Shao Genhuo (falecido em fevereiro deste ano). Listado na Bolsa de Shenzhen, em 2025 a receita foi de 29,1 bilhões de yuans (US$ 4,3 bilhões, ou R$ 22,1 bilhões), 1,2% acima de 2024. A companhia é um conglomerado privado com negócios fortemente concentrados no setor de nutrição animal, complementados pelas divisões de agricultura e saúde animal.
Em 2025, a divisão de sementes faturou 1,53 bilhão de yuans (US$ 227,3 milhões), alta de 7,2% em um ano, enquanto o volume comercializado de sementes de milho, arroz e soja cresceu 16,2%, para 62,2 mil toneladas. O lucro líquido do negócio de sementes convencionais superou 260 milhões de yuans (US$ 38,6 milhões), avanço de 70%, segundo a companhia. Mas as sementes ainda representaram no ano passado apenas 5,25% do faturamento do DBN Group, apesar do crescimento da área. Em 2025, rações responderam por 63,48% e suínos por 22,63% da receita.
E é aí que o Brasil pode mudar o jogo. Com Mo Yun está uma equipe de 50 doutores um um caixa dedicado de cerca de US$ 15 milhões (R$ 81 milhões) à P&D. O coração operacional e tecnológico dessa engrenagem é o Phoenix Parque Eco Industrial, no distrito de Haidian, ao pé do Monte Phoenix, uma estrutura integrada de 5,5 hectares e 160 mil metros quadrados de área tomada por laboratórios e escritórios, mais um hotel onde o grupo de brasileiros ficou hospedado, incluindo a Forbes que acompanhou a viagem a convite da companhia.

A China plantou 10,26 milhões de hectares de soja no total em 2025 e colheu 20,91 milhões de toneladas, 1,3% acima da safra anterior, segundo o National Bureau of Statistics (NBS), órgão oficial de estatísticas do país, publicado em fevereiro deste ano. Mas a soja OGM ainda representa apenas 1,3 milhão de hectares, a maior parte das lavouras concentradas no nordeste do país, nas regiões de Heilongjiang, Jilin e na Mongólia. A China possui atualmente uma demanda de 120 milhões de toneladas, e importa 100 milhões, das quais 75% do Brasil.
Embora haja um esforço de aumento de produção e produtividade, a soja concorre com o milho, uma cultura que na safra encerrada em 2025 ocupou 44,96 milhões de hectares e produção de 301,24 milhões de toneladas, um crescimento de 2,1% no período. Para comparação, no mesmo período os EUA colheram 432,3 milhões de toneladas e o Brasil 141 milhões de toneladas.
No Brasil, os chineses já anunciaram que seu centro de pesquisa será em Campinas (SP), começando com um laboratório de biologia molecular de OGMs, e que até o final deste ano ele deve ser oficialmente formalizado. Mao Changqing é o presidente da Crop Division da DBN Biotech, executivo da área que reúne os negócios de sementes e biotecnologia para cultivos e que ganhou peso na estratégia de internacionalização do grupo. Ele explica que a companhia trabalha em duas frentes conectadas, começando pelo melhoramento genético, análise de genes e características agronômicas e seleção de variedades, até chegar à produção e distribuição das sementes.

A ambição chinesa tem prazo. “Daqui a cinco anos, esperamos que a DBN consiga ser top 1 ou top 2 na China”, disse Mao. Segundo ele, a meta é triplicar a atual receita. A companhia está entre as cinco maiores do mercado chinês de sementes de milho e ocupa a primeira posição em algumas regiões do sul e do oeste do país. Na estrutura geral de sementes, Mao coloca a DBN entre as três maiores empresas da China em capacidade integrada e como a maior entre os grupos privados.
Parte desse avanço passa justamente pela abertura recente da China aos organismos geneticamente modificados. O país começou a movimentar comercialmente esse mercado a partir de 2019 e possui atualmente 234 variedades autorizadas de soja e milho. “A DBN representa 60%, que são 142 variedades de soja e milho”, afirmou. De acordo com o executivo, os materiais da companhia também responderam por mais de 60% da área plantada com essas variedades no último ano.
Para sustentar essa escala, a DBN mantém dois laboratórios centrais, quatro laboratórios ligados ao Ministério da Agricultura chinês e projetos conjuntos com instituições como a Universidade Tsinghua e a Universidade de Tecnologia Química de Pequim. “Continuamos investindo em pesquisa e desenvolvimento e precisamos dessas parcerias para as sementes”, disse Mao. É nessa estrutura que entram melhoramento genético, identificação de genes e traits, seleção de variedades e biotecnologia, áreas que antecedem a multiplicação e a chegada das sementes ao produtor.
O Brasil entra nessa engrenagem como mercado e como plataforma de expansão. A DBN já mantém presença na América Latina e trabalha com autorizações para seus materiais genéticos no Brasil, Argentina e Uruguai. Mao afirma que o plano vai além de transferir para o país produtos desenvolvidos para a agricultura chinesa. “Primeiro, precisamos trabalhar com variedades boas. “Esperamos, no futuro, introduzir parte dessa tecnologia no Brasil.” A expansão apontada pelo chineses sinaliza que esse movimento pode ir além, vendendo genética e comprando os grãos dessa operação.

Não por acaso, a viagem contemplou uma visita à sede da estatal chinesa Cofco, maior grupo de comércio agrícola em escala doméstica, com reunião a portas fechadas da qual participaram o grupo de brasileiros e o adido agrícola do Brasil na China, Jean Gouhie, que também esteve na DBN. Em 2025, a estatal registrou 589,1 bilhões de yuans (US$ 87,5 bilhões) em receita e operou 180 milhões de toneladas de produtos agrícolas e alimentares. Sua rede cobre armazenagem, logística, processamento e trading em quase 40 países, incluindo o Brasil.
O Brasil para a China
Para a soja, a companhia estruturou um pipeline que começa com duas plataformas. A sopa é de letrinhas, mas para o entendidos a soja GGT reúne as proteínas CP4 e PAT, que conferem tolerância aos herbicidas glifosato e glufosinato. A GIR combina Vip3A, uma proteína usada no controle de lagartas, com PAT. Na geração seguinte, a chamada GIR Plus, entram as proteínas Cry1A e Cry2A, ampliando os mecanismos destinados ao controle de insetos.
A entrada dessas tecnologias no mercado brasileiro segue um calendário definido pela companhia. Em 2026, a DBN prevê iniciar o relacionamento com a cadeia comercial de soja e os primeiros eventos e trabalhos de campo com a combinação GGT e GIR. Para 2027, está prevista a preparação do lançamento comercial, programado para 2028. Neste mesmo ano, a empresa pretende começar os trabalhos de campo com a geração seguinte, que acrescenta o GIR Plus.
Mas o plano não termina nas características já desenvolvidas porque, para o médio e longo prazo, a DBN informa manter em testes novas tecnologias para tolerância aos herbicidas 2,4-D e aos inibidores das enzimas PPO e HPPD. O pipeline inclui ainda características voltadas ao controle de percevejos, ferrugem e nematoides, problemas que fazem parte do manejo das lavouras de soja, porém não estabelece datas para a chegada dessas tecnologias ao mercado.
Marino Stefani Colpo, cofundador e CEO da Boa Safra, uma das maiores produtoras de sementes do Brasil, com receita de R$ 2,62 bilhões em 2025, esteve pela primeira vez na China. Segundo o executivo, o primeiro pacote de biotecnologia que a empresa chinesa prepara para o mercado brasileiro ainda se aproxima das soluções disponíveis no país, mas as tecnologias seguintes mudam essa perspectiva. “A segunda biotecnologia acho que é muito boa. Realmente, ela vai ter um controle superior ao que se tem no mercado, principalmente para a lagarta”, afirma. O produtor também destaca as pesquisas ainda sem data de lançamento para percevejo na soja e bicudo no algodão.
André Schwening, presidente da Abrass e também produtor de sementes, diz que o movimento atual ocorre pela posição estratégica da China no futuro da agricultura brasileira. “Além da sua relevância como parceiro comercial, temos a convicção de que será cada vez mais importante para o desenvolvimento tecnológico do nosso setor e para a competitividade da sojicultura. A semente de soja é o principal motor de evolução da sojicultura brasileira, com um mercado de mais de US$ 5 bilhões na trilha de sementes, genética e biotecnologia”, diz ele. “Acreditamos que um setor de multiplicação de sementes forte é a base para que a tecnologia chegue ao produtor com qualidade e geração de valor. Os multiplicadores de sementes de soja brasileiros acompanham a chegada da DBN ao Brasil com grande expectativa, especialmente pelo significado estratégico para o mercado de biotecnologia.”