O Pacífico equatorial voltou a se aquecer e, desta vez, com força. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) mantém um alerta formal para o El Niño e calcula uma probabilidade de 97% de que as condições persistam até o outono de 2027, com 81% de chance de que o fenômeno alcance a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro.
O índice Niño 3.4, o termômetro acompanhado pelos especialistas, já subiu para +1,2 °C, e os modelos projetam que ultrapasse +2 °C no pico. Esse patamar tem nome próprio: Super El Niño, e, para a Argentina, não se trata apenas de mais um dado meteorológico.

Convém começar pelo básico, porque o nome pode enganar. O El Niño não é uma tempestade nem uma temporada de chuvas: é a fase quente do ENOS, o grande pêndulo climático do planeta, que alterna entre águas quentes e frias a cada dois a sete anos. Quando o Pacífico central e oriental se aquece durante meses, a atmosfera reage em cadeia e redesenha o clima do planeta. O sudeste da América do Sul está entre as regiões extratropicais mais sensíveis: em mais de 80% dos episódios, o El Niño traz para essa região chuvas acima do normal.
Um fenômeno com memória
A Argentina possui um histórico extenso e doloroso do que esse padrão é capaz de provocar. Os três grandes episódios de El Niño das últimas décadas, 1982-83, 1997-98 e 2015-16, deixaram a mesma marca: cheias na Bacia do Prata, alagamentos na Mesopotâmia argentina e no Litoral, com cidades das províncias de Corrientes e Entre Ríos lutando contra a água.
O episódio de 1997-98 provocou inundações na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e no sul do Brasil e, em escala global, a FAO contabilizou desastres hídricos, com secas e inundações em 41 países, além da destruição de cerca de 16% dos recifes de coral do mundo. Não é um fantasma distante: é um roteiro que já conhecemos de memória.
O mesmo fenômeno tem uma segunda face, e isso explica por que o campo olha para o céu com alívio e apreensão ao mesmo tempo. As chuvas recarregam os lençóis freáticos e os perfis de solo castigados por anos secos e costumam melhorar a produtividade da soja, do milho e do trigo justamente quando o país precisa de dólares.
O problema aparece quando há água em excesso: áreas de cultivo alagadas, estradas rurais intransitáveis, colheitas atrasadas e doenças nas lavouras. No noroeste e na região da Cordilheira dos Andes na Argentina, o efeito se inverte, assim como em outras regiões, entre elas o nordeste do Brasil, o sudeste asiático, a América Central e a Austrália: nesses locais, a seca pode ser calamitosa. Um mesmo evento distribui efeitos muito diferentes conforme a latitude.
Por que o bolso dos argentinos está tão exposto
Basta olhar para o que aconteceu recentemente no sentido oposto. A seca da tripla La Niña de 2022-23, a pior em mais de sessenta anos, custou à economia cerca de US$ 20 bilhões (R$ 102,39 bilhões na cotação atual), aproximadamente três pontos do PIB. Somente com soja, trigo e milho, os produtores perderam mais de US$ 14 bilhões (R$ 71,67 bilhões na cotação atual). Esse é o tamanho real da influência do clima em um país no qual essas três culturas respondem por 43% das exportações. Quando o clima muda, a macroeconomia treme. Tanto é assim que os eventos de La Niña costumam estar associados às maiores crises econômicas da Argentina.
Um bom El Niño poderia representar o outro lado dessa moeda: uma safra de grãos robusta, capaz de sustentar as exportações, as reservas e a arrecadação. Mas é sabido que boa parte dos ativos rurais e industriais possui cobertura de seguro insuficiente diante do risco climático, e as estradas rurais argentinas têm a curiosa capacidade de desaparecer justamente quando precisam cumprir sua função mais importante: permitir o tráfego sob chuva.
Ao mesmo tempo, a infraestrutura crítica fica sob atenção: as bacias dos rios Paraná, Uruguai e Paraguai podem entrar em período de cheia durante o verão, deixando o Delta e as localidades costeiras expostos a alagamentos e sudestadas, muitas vezes acompanhados de problemas nos serviços de abastecimento de água e saneamento.
Algo semelhante aconteceu durante o El Niño de 1982-83, quando quem escreve pôde ver trechos e estruturas de alívio da Rota Nacional 168 serem dinamitados para permitir o escoamento da água e evitar um colapso maior da via e das pontes… e, ainda assim, não foi possível impedir o colapso da Ponte Suspensa de Santa Fe.
Estamos mais preparados do que em 1998?
Em alguns aspectos, sim. O Serviço Meteorológico Nacional opera atualmente um sistema de alertas antecipados com um tempo de antecedência impensável há 25 anos, e o governo nacional e as províncias já coordenam respostas diante de inundações. A lição aprendida indica que a diferença entre sofrer perdas ou aproveitar a oportunidade depende das decisões preventivas tomadas no momento adequado.

Mas o outro lado da realidade é incômodo: protocolos que são acionados sem financiamento claramente definido, órgãos públicos enfraquecidos, o Serviço Meteorológico Nacional opera com recursos humanos e orçamentários limitados e dispõe de apenas cerca de 120 estações meteorológicas, quando seriam necessárias pelo menos 1.100 para atender minimamente às necessidades de observação de um país que ocupa o oitavo lugar no mundo em extensão territorial, e menos de 1% dos municípios conta com sistemas de alerta precoce multiameaça, de ponta a ponta e centrados nas pessoas. Receber um alerta não é a mesma coisa que estar realmente protegido.
A dívida pendente: alerta precoce de ponta a ponta, na cidade e no campo
E aqui está o cerne da questão. A Lei 27.287, que criou em 2016 o Sistema Nacional para a Gestão Integral do Risco e a Proteção Civil (SINAGIR), é clara: a gestão local de riscos é responsabilidade dos municípios, que conhecem seus bairros de áreas baixas, suas bacias e suas estradas rurais. O que falta não são mais avisos isolados, mas Sistemas de Alerta Precoce locais de ponta a ponta (end-to-end): uma cadeia integral que detecta a ameaça, processa os dados, dispara o alerta em massa e aciona a resposta e as ações comunitárias para salvar vidas.
Essa engrenagem se sustenta sobre quatro pilares que precisam funcionar de forma sincronizada: o conhecimento do risco, com mapas de vulnerabilidade e histórico de ameaças; o monitoramento e a detecção, com sensores, radares, satélites e modelos que acompanhem as variáveis em tempo real; a difusão e a comunicação, com canais de massa que levem a informação sem demora e orientem sobre o que fazer; e a preparação e a resposta, com planos, capacitação e protocolos para agir assim que o alarme for acionado.
Esse modelo é válido tanto para a cidade quanto para o campo, porque o risco não termina no limite do perímetro urbano. Nos centros urbanos, um bom sistema de alerta precoce evita que um temporal se transforme em tragédia nos bairros de áreas baixas; no meio rural, permite antecipar o alagamento das áreas de cultivo, organizar a retirada do gado, proteger máquinas e ajustar os calendários de plantio e colheita antes que a água decida pelo produtor.
Há uma razão importante para não vincular essa rede apenas ao evento El Niño do momento. As inundações urbanas mais letais da história argentina não ocorreram durante grandes episódios de El Niño, mas em anos de La Niña ou neutros: na cidade de Buenos Aires, em 1985, 2010 e 2013; a inundação de La Plata, em 2013; a da cidade de Santa Fe, em 2003; e a recente catástrofe de Bahía Blanca, em 2025. Todas ocorreram sem esse forçante climático.
A próxima tragédia hídrica pode não chegar com o rótulo de um Super El Niño. Por isso, um sistema de alerta precoce municipal ou provincial, permanente e multiameaça, capaz de responder também a outros eventos hidrometeorológicos, geológicos, tecnológicos ou ambientais, não é um luxo técnico: é a diferença entre um aviso que se perde e uma comunidade que reage a tempo.
As incertezas que os especialistas não escondem
Nenhuma previsão séria apresenta, neste momento, um mapa definitivo: ainda existem dúvidas sobre a intensidade máxima e o momento exato do pico, além de um aspecto importante: a intensidade global do evento não se traduz automaticamente em uma quantidade precisa de chuva para cada cidade. O El Niño inclina o campo de jogo, mas não determina o resultado de cada partida. Além disso, o fenômeno ocorre sobre oceanos que já registram recordes de temperatura, uma combinação capaz de intensificar ondas de calor, chuvas torrenciais e tempestades severas além do que o ENOS, isoladamente, indicaria.
Por isso, a conclusão principal vai além do episódio que nos ocupa neste momento: não devemos esperar o El Niño para nos prepararmos. A resiliência é construída nos anos tranquilos, não na véspera do desastre, porque, quando o fenômeno se instala, já é tarde para pensar no sistema e resta apenas entregar-se a ele. A pergunta já não é se o El Niño vai chegar, quanto a isso não há dúvidas, mas se vamos usar este alerta para construir, de uma vez por todas, a rede que nos proteja do próximo evento, qualquer que seja o seu nome.
Publicada originalmente em Forbes Argentina