Apresentado na terça-feira (8), o estudo Global Farmer Insights 2026, elaborado pela consultoria McKinsey & Company, aponta transformações profundas na tomada de decisão dos produtores rurais ao redor do mundo. Em sua quarta edição, a pesquisa ouviu produtores em dez países para traçar um raio-x do setor diante do aperto financeiro internacional, das oscilações climáticas e do avanço das ferramentas digitais nas propriedades. Além de Brasil, foram ouvidos produtores na Argentina, Peru, Estados Unidos e Canadá, nas Américas. Na Europa foram França, Alemanha e Espanha, e na Ásia a China e Índia
A análise mostra um cenário no qual a disciplina de custos passou a ditar o ritmo dos negócios no agronegócio. “Nossa pesquisa bienal global com 5.500 agricultores mostra que eles estão se tornando mais seletivos em seus gastos diante das pressões econômicas. A inteligência artificial está ganhando terreno, mesmo com os entrevistados continuando a recorrer a consultores de confiança para orientação de compra”, destaca a publicação da consultoria.
Apesar do tom mais cauteloso na gestão do caixa, o estudo aponta que a busca por eficiência abriu espaço para inovações práticas e de retorno rápido. A migração de canais de compra e a adoção acelerada de soluções digitais convivem com a valorização de diagnósticos técnicos personalizados, desenhando uma nova dinâmica comercial entre produtores, fornecedores e consultorias.
Confira 10 pontos de destaque do estudo:
1 – O freio de mão nos investimentos globais
O bolso do produtor ficou mais apertado. A disposição para fazer novos aportes financeiros nos próximos 18 meses despencou 24 pontos percentuais na comparação com 2024. A contenção de despesas sobressai na Argentina, com uma retração de 49 pontos no indicador. O movimento de cautela também atinge o produtor brasileiro, que reduziu suas intenções de gastos em 25 pontos percentuais em razão das margens operacionais mais espremidas.
2 – A estratégia do “corta e restaura” nos insumos
Com o caixa pressionado, o fazendeiro aprendeu a priorizar. Os fertilizantes são o primeiro item sacrificado na crise por 36% dos entrevistados. Contudo, a lógica muda rápido no primeiro sinal de melhora econômica: 48% colocam a nutrição do solo como prioridade de investimento. O maquinário segue ritmo parecido: 16% adiam a troca de frota no aperto financeiro, mas 35% correm para renovar os tratores assim que o faturamento volta a subir.
3 – A virada dos genéricos sobre os produtos de grife
Para fazer o orçamento fechar, os agricultores de grãos dos Estados Unidos e da Europa decidiram mudar o carrinho de compras. Nas lavouras norte-americanas, 36% projetam migrar para defensivos genéricos nos próximos dois anos. Já no mercado europeu, 30% farão essa troca. O movimento só não ganha a mesma força na América Latina porque a pressão de pragas por aqui é mais agressiva, o que obriga o produtor a manter fórmulas de marca com alta eficiência.
4 – Dores diferentes para cada canto do planeta
A preocupação do produtor varia conforme a sua geografia. Na América do Norte (66%) e na Europa (58%), a grande dor de cabeça está na alta dos custos dos insumos. Do lado de cá do Equador, o pesadelo é outro: para 58% dos agricultores latino-americanos, os eventos climáticos extremos figuram como a ameaça central à rentabilidade, dado o rastro de prejuízos deixado por fenômenos como o El Niño.
5 – Os biológicos viram regra nas lavouras
A busca por eficiência no campo abriu espaço definitivo para a ciência biológica. Nas lavouras de especialidades, como frutas e hortaliças, o uso de bioestimulantes atingiu a marca de 59% das propriedades, enquanto o controle biológico alcançou 52%. A América Latina lidera essa transição global graças à necessidade de combater pragas resistentes e atender exigências sustentáveis de mercados compradores.
6 – Tecnologia tradicional bate no teto de adoção
O entusiasmo com agtechs consagradas perdeu fôlego. O uso de ferramentas como agronomia digital e conectividade subiu apenas quatro pontos percentuais em dois anos, atingindo metade dos produtores mundiais. Em mercados amadurecidos como Canadá e Estados Unidos, soluções de sensoriamento e softwares de gestão começam a bater no teto. Para vender novas licenças, as startups terão que provar o retorno financeiro em números reais.
7 – A inteligência artificial fura a fila das inovações
Se as tecnologias tradicionais desaceleraram, a inteligência artificial generativa pisou no acelerador. O recurso já faz parte do dia a dia de 17% dos fazendeiros ao redor do globo. Nos Estados Unidos, a adesão a ferramentas pagas de IA chegou a 11% das propriedades. O ritmo de adoção impressiona por igualar, em tempo recorde, trajetórias históricas de inovações como o piloto automático e a aplicação de insumos em taxa variável.
8 – Onde a IA realmente ajuda o produtor
A inteligência artificial conquistou o fazendeiro por resolver problemas práticos do escritório antes de ir para o campo. Entre os usuários da tecnologia, 43% empregam as ferramentas na fase de planejamento estratégico da safra e 33% no manejo operacional da lavoura. A utilização, porém, perde força na hora de tomar decisões de alto risco, como compras de máquinas, rotinas de mão de obra ou negociações de financiamento bancário.
9 – O smartphone vira balcão de negócios
A jornada de compra no agronegócio está cada vez mais digital. A preferência por pesquisar defensivos e sementes em canais virtuais subiu para 31%. O salto mais expressivo ocorreu na fase de comparação de fornecedores: 36% dos produtores preferem usar telas e plataformas online para avaliar cotações antes de fechar o negócio, um crescimento de 14 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior.
10 – O fim do vendedor “tirador de pedido”
O produtor rural quer conversa técnica, não discurso comercial. O estudo indica uma queda expressiva na influência dos representantes de vendas tradicionais, que despencaram de 67% de relevância em 2024 para 49% em 2026. Como as informações sobre preços e produtos estão disponíveis na internet, o agricultor prefere fechar negócios amparado no diagnóstico de agrônomos e consultores de confiança, apontados por 56% dos entrevistados como a autoridade máxima na decisão final.