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China Fecha a Torneira da Carne Bovina Brasileira com Tarifa de 55% a Partir de 1º de Outubro

Entenda por que a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes estima queda de 10% no volume total exportado pelo Brasil em relação a 2025

7 min

A China passará a aplicar, a partir deta quinta-feira, 1º de outubro, uma tarifa adicional de 55% sobre a carne bovina brasileira que ultrapassar a cota anual destinada ao país. O limite de 1,1 milhão de toneladas foi alcançado nesta quarta-feira (30), segundo o Ministério do Comércio chinês.

A sobretaxa faz parte do sistema anunciado por Pequim em janeiro para conter o avanço das importações e dar proteção à pecuária doméstica. Como a carne bovina brasileira já está sujeita à tarifa regular de 12%, os embarques acima da cota passarão a enfrentar uma carga total de 67% na entrada no mercado chinês.

O governo brasileiro até tentou encontrar uma alternativa para ampliar o volume disponível. Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Uruguai havia autorizado o Brasil a utilizar uma parcela de sua cota que não seria aproveitada. A transferência, porém, depende da concordância da China, que até agora não cedeu à essa proposta (confira em Por que a China está brecando compras?)

A atenção do mercado agora se volta para 2027 e para a decisão chinesa sobre a continuidade do sistema de cotas. A China é o principal destino da carne bovina brasileira e, como mostram os gráficos desta reportagem (abaixo), ganhou peso acelerado nas exportações do país ao longo da última década. Para 2026, a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), estima queda de 10% no volume total exportado pelo Brasil em relação a 2025, em um cenário que combina as restrições chinesas e medidas recentes adotadas pela União Europeia.

A invasão da carne brasileira no mercado chinês

Na última década, a China passou a ocupar um espaço cada vez maior no comércio brasileiro de carne bovina. Entre 2016 e 2025, os embarques destinados ao mercado chinês totalizaram 8,2 milhões de toneladas, segundo os dados do Ministério da Agricultura e Pecuária. Em valor nominal, esse fluxo movimentou US$ 42,3 bilhões no período.

O avanço na década foi crescente e constante, passando de 164,9 mil toneladas em 2016, para 1,6 milhão de toneladas em 2025, praticamente dez vezes mais. A trajetória não foi linear, com recuos em alguns anos, mas o patamar mudou de forma consistente a partir de 2020 e ganhou nova escala depois de 2022.

GettyimagesCarne brasileira na China cresceu de forma constante em 10 anos

O mesmo ocorreu com a receita. As vendas passaram de US$ 703,1 milhões em 2016, para US$ 8,8 bilhões em 2025. O salto em valor foi ainda mais expressivo em alguns momentos, como em 2022, quando o faturamento chegou a US$ 8 bilhões, mesmo com volume menor que o registrado três anos depois. Isso mostra que além da quantidade embarcada, preços internacionais e composição das vendas também tiveram peso no resultado anual.

Os gráficos a seguir ajudam a dimensionar essa mudança. Até 2019, os embarques anuais permaneciam abaixo de 500 mil toneladas. Em 2022, ultrapassaram pela primeira vez 1 milhão de toneladas e não voltaram mais abaixo desse nível. Em receita, o mercado chinês saiu de uma faixa inferior a US$ 1 bilhão por ano no início da série, para valores próximos ou superiores a US$ 6 bilhões em quatro dos últimos cinco anos da década.

Por que a China está brecando compras?

Crise de Margem e Colapso de Preços na Pecuária Chinesa

Queda Livre nas Cotações Locais: Dados do Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China mostram que o preço médio da carne bovina no atacado chinês acumulou uma queda superior a 20% nos últimos dois anos, caindo de picos próximos a 83 yuan/kg para patamares de 62 a 65 yuan/kg em 2026.


Prejuízo na Produção do Gado: O custo de produção de um bovino acabado na China varia entre 28 e 32 yuan por quilo (peso vivo), enquanto o preço pago ao produtor local caiu para a faixa de 23 a 25 yuan por quilo. Essa diferença gera um prejuízo operacional estimado entre 2.500 e 4.000 yuan (aproximadamente US$ 350 a US$ 560) por animal abatido nas propriedades chinesas.


Liquidação de Rebanho: Em decorrência do prejuízo contínuo na atividade de corte, produtores rurais na China passaram a descartar vacas leiteiras e matrizes de corte para gerar caixa imediato. Esse abatedouro emergencial elevou a oferta interna no curto prazo, pressionando ainda mais as cotações locais para baixo.

GettyimagesProdutor de gado na China não é competitivo

Disparidade de Custos com o Produto Importado

Preço do Produto Brasileiro no Porto: A carne bovina desossada e congelada do Brasil desembarcou nos portos chineses (preço CIF) em patamares médios entre US$ 4.300 e US$ 4.800 por tonelada ao longo do primeiro semestre de 2026.


Custo Competitivo: Convertida e acrescida apenas da tarifa padrão de 12%, a carne brasileira chegava ao atacado chinês custando cerca de 38 a 42 yuan por quilo, valor significativamente menor que o custo de produção da carne nacional chinesa (acima de 55 yuan por quilo equivalente carcaça).


Barreira dos 67%: Ao somar a alíquota de 55% (totalizando 67%), o preço de entrada da carne brasileira salta para o equivalente a 60 a 65 yuan por quilo, igualando ou superando os preços internos da China e neutralizando a vantagem competitiva do produto importado.

Mecânica Global da Salvaguarda (Medida Não Exclusiva ao Brasil)

Normativa Multilateral: A aplicação do Comunicado nº 87 do Ministério do Comércio da China baseia-se nas regras de salvaguarda da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para evitar retaliações por discriminação comercial direta, a tarifa adota o modelo de cota global distribuída por limites específicos a cada país exportador.


Efeito sobre Outros Fornecedores: O estouro de cotas e a incidência de tarifas sobretaxadas atingiram outros concorrentes no mercado chinês. A Austrália ultrapassou seu limite de cota anual ainda em meados de junho de 2026, passando a pagar a mesma tarifa extra de 55%. Os Estados Unidos e Argentina tiveram seus fluxos de envio desacelerados à medida que se aproximavam de seus respectivos tetos de importação.

Política de Autossuficiência e Segurança Alimentar

Metas do Plano Quinquenal: O governo chinês estabeleceu como meta estratégica manter o índice de autossuficiência em carnes vermelhas em pelo menos 70% a 75% do consumo nacional.


Aumento do Volume Importado: As importações chinesas de carne bovina cresceram de menos de 1,5 milhão de toneladas em 2018 para cerca de 2,7 a 2,8 milhões de toneladas nos anos recentes. O Brasil passou a responder por mais de 40% de todo o suprimento externo absorvido pela China.

Bloqueio Comercial ao Remanejamento de Cotas (Uruguai)

Volume Restrito: A cota anual do Uruguai no mecanismo chinês é de aproximadamente 300 mil toneladas. Como o Uruguai utilizou cerca de metade desse limite até o terceiro trimestre de 2026, havia uma sobra teórica de 150 mil toneladas.


Decisão do Ministério do Comércio Chinês: Permissões para transferência de saldo entre países vizinhos alterariam a eficácia do teto global estipulado. Se a China permitisse que o Brasil operasse com o saldo uruguaio, o volume total de carne brasileira entraria no mercado chinês sem a sobretaxa desincentivadora, anulando o efeito de proteção à pecuária local. Por esse motivo, Pequim manteve a vedação estrita à manobra negociada entre os países sul-americanos.

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