Pesquisadores da Embrapa Florestas, do Instituto Federal do Paraná e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná verificaram que compostos aromáticos sintéticos podem atrair morcegos frugívoros, animais que participam da dispersão de sementes e da regeneração da vegetação. A alternativa reproduz o efeito de óleos essenciais extraídos de frutos consumidos por esses mamíferos e pode simplificar a aplicação da técnica em projetos de restauração ecológica.
“Trabalhamos para identificar quais partes dos óleos naturais eram responsáveis pela atração dos morcegos. Mas o melhor resultado foi constatar que compostos sintéticos já disponíveis no mercado têm efeito atrativo semelhante quando utilizados em pequenas quantidades”, afirma Sandra Mikich, pesquisadora da Embrapa Florestas e uma das autoras do trabalho, desenvolvido também por Gledson Bianconi, do IFPR, e Lays Cherobim, da PUC-PR.
Os estudos sobre o uso de aromas começaram em 2003, com óleos essenciais obtidos de frutos consumidos por morcegos dos gêneros Artibeus, Carollia e Sturnira. Entre as plantas utilizadas estão espécies de Ficus, grupo das figueiras, Piper, no qual estão jaborandis, e Solanum, que inclui tomates silvestres. Ao seguir os odores, os animais passam mais tempo sobrevoando a área e aumentam a possibilidade de depositar sementes por meio das fezes.
Nos últimos seis anos, a equipe passou a testar frações dos óleos e substâncias fabricadas artificialmente. A substituição do produto natural pode reduzir a coleta de frutos na floresta e facilitar a adoção da tecnologia. Segundo Cherobim, a obtenção de algumas gotas de óleo essencial pode exigir cerca de 500 gramas de frutos.
A estratégia utiliza semioquímicos, substâncias capazes de interferir no comportamento dos organismos por meio de sinais químicos. No campo, os pesquisadores aplicam o composto em septos de borracha de látex, semelhantes às tampas usadas em frascos de medicamentos. O material absorve o produto e libera o aroma gradualmente. Em testes realizados em cativeiro, a emissão permaneceu por 20 a 25 dias.
Os dispositivos são instalados em árvores nas áreas em recuperação. Ao detectar o cheiro enquanto sobrevoam espaços abertos, os morcegos circulam pelo local à procura dos frutos associados ao aroma. Esse comportamento aumenta a possibilidade de deposição de sementes no solo, inclusive de espécies pioneiras e secundárias provenientes de fragmentos florestais próximos.
A proposta é complementar métodos como o plantio de mudas, que exige coleta e germinação de sementes, produção em viveiro, manutenção das plantas e implantação no campo. A atração de dispersores procura aproveitar um processo já realizado pela fauna para aumentar a entrada de sementes nas áreas degradadas.
A pesquisa considera aplicações em regiões tropicais e subtropicais onde existam morcegos frugívoros, mas a equipe ainda trabalha na definição de protocolos de uso. Entre os próximos passos estão a avaliação de novos compostos, a medição da resposta dos animais a diferentes substâncias e o emprego de câmeras infravermelhas para acompanhar a atividade noturna.
Os resultados estão reunidos na publicação Tecnologia de restauração florestal baseada na atração de morcegos dispersores de sementes, destinada a pesquisadores, técnicos, gestores públicos, produtores rurais e organizações que atuam em restauração ecológica.
Editado por Forbes Agro, com texto original da Embrapa