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Conheça a Maior Fazenda Equatoriana Que Vende 350 Milhões de Flores para o Mundo

A Utopía Farms, de 420 hectares, produz 34 espécies, entre rosas, lírios, ásteres, gipsófilas e girassóis; em 2025 faturou US$ 129,5 milhões

9 min

O escritório de Rubén Orozco, CEO da floricultura Utopía Farms, com sede em Quito, no Equador, tem um aroma especial. Seu espaço é decorado com oito vasos, e cada um contém diferentes flores produzidas em suas 12 propriedades. O perfume doce que envolve o ambiente é uma combinação de rosas e espécies de verão. É ele que estampa a capa de agosto da edição Forbes Equador.

A empresa produz 350 milhões de hastes em uma área de 420 hectares, que depois são exportadas principalmente para os Estados Unidos e para outros 34 destinos na Europa, Ásia e América Latina. Em 2025, a fazenda registrou uma receita de US$ 129,5 milhões (R$ 670,81 milhões na cotação atual), segundo a Superintendência de Companhias, Valores e Seguros, e ocupou o primeiro lugar entre os maiores exportadores do Equador.

Os destinos no mercado europeu podem ser ainda mais numerosos, já que a carga equatoriana entra pelo aeroporto de Amsterdã, nos Países Baixos, e é distribuída para outros países. Por isso, Orozco, de 44 anos, afirma que o produto da Utopía decora ambientes em toda a Europa Ocidental.

Uma vez por mês, ele visita as 12 propriedades produtoras localizadas em Cayambe, Perucho e El Quinche, em Pichincha, para garantir o cumprimento de todos os processos e o respeito aos protocolos de qualidade.

Com um chapéu de feltro de lã marrom, com faixa, camisa com as mangas dobradas até os cotovelos e botas de cano curto, Orozco caminha entre as plantações, conversa com os funcionários e conhece cada etapa do cultivo. Ele conta que iniciou esse hábito há 10 anos, quando assumiu a liderança da organização.

O executivo chegou à empresa há 20 anos como técnico agrícola, quando ela operava sob outra razão social. Em 2016, assumiu a gerência. Desde então, tomou decisões que transformaram a história da floricultura. “Entrei quando a companhia se chamava Hilsea e seu proprietário e fundador era o alemão Peter Ullrich. Em 2016, já na gerência geral, tive que enfrentar a incerteza gerada após a morte do nosso fundador”, recorda Orozco.

Em seu primeiro ano como CEO, Orozco entendeu que o compromisso e a qualidade eram o caminho para o sucesso. Após a morte de Ullrich, foi ele que recebeu Clarice, americana, sua viúva e herdeira, no país para cuidar do negócio e fazê-lo seguir em frente.

“Fiquei comovido ao ver como Clarice, sem entender nada de flores, acordava cedo, calçava as botas e percorria a propriedade para manter o negócio funcionando. Se ela conseguiu, por que nós não iríamos apoiá-la e alcançar bons resultados?”

Até 2019, a Hilsea tinha 180 hectares, empregava 1.000 pessoas e gerava receita de US$ 39,3 milhões (R$ 203,57 milhões), segundo a Superintendência de Companhias, Valores e Seguros. Tudo mudou com a pandemia.

Foi um momento de ruptura. Orozco tomou decisões complexas. Sua equipe foi reduzida em 50% e 80 hectares deixaram de ser semeados e cultivados. Naquela época, o mercado se fechou completamente diante das ameaças da Covid-19.

“Chegávamos a distribuidores diretos nos Estados Unidos e na Europa e aos grandes organizadores de eventos. De uma hora para outra, nosso mercado fechou completamente.” A crise sanitária coincidiu com a temporada do Dia dos Namorados. Não por acaso, em meados de 2020, a floricultura entrou em processo de venda. Em maio, a Sunshine Bouquet, de capital americano, adquiriu as propriedades e implementou uma estratégia agressiva de crescimento.

O americano John Simko, seu novo proprietário, encontrou no Equador a oportunidade de crescer na região. Como parte da Hilsea, também adquiriu a Operflor, empresa de transporte e logística, e a Genviv, responsável pela genética e pela ciência por trás de cada semente. Entre 2020 e 2022, foram investidos US$ 60 milhões (R$ 310,8 milhões) na aquisição de novas fazendas e em infraestrutura para as operações.

Isso permitiu que as pessoas demitidas fossem contratadas novamente. Atualmente, a empresa conta com 5.000 funcionários em toda a operação. “Nos primeiros meses da pandemia, a companhia perdeu US$ 15 milhões (R$ 77,7 milhões). Se a Sunshine Bouquet não tivesse chegado, teríamos quebrado, porque, em plena crise sanitária, comprar comida era prioridade em relação a ter flores de exportação dentro de casa.”

Armando Prado ViteriPlantações de gipsófilas na Utopía Farms, em El Quinche

A empresa se transformou na Utopía Farms. O nome surgiu dessa ideia de recuperar postos de trabalho e terras que ficaram desprotegidas em plena pandemia. “A sugestão era que se chamasse Sunshine Ecuador, mas John nos disse que queria algo novo e diferente do que já existia na região. Colocamos o nome Utopía em homenagem ao que fizemos. Era uma utopia voltar a operar em plena emergência sanitária.”

A Sunshine Bouquet tem seu centro de distribuição na Flórida, nos Estados Unidos, e operações na Colômbia, com 1.400 hectares. As flores produzidas no Equador são exportadas com a marca Esmeralda.

A estrela é a gipsófila ou véu-de-noiva

Segundo um estudo publicado em 2025 pela Universidade Técnica do Norte, o Equador é o principal produtor de gipsófilas do mundo. Estima-se que o país tenha 400 hectares dedicados a esse tipo de flor, também conhecida como véu-de-noiva. Para a Utopía Farms, essa variedade é sua principal fonte de receita e representa 20% de sua produção. Por ano, colhe 75 milhões de hastes.

A Associação Nacional de Produtores e Exportadores de Flores do Equador (Expoflores) informa em seu relatório anual que foram exportadas 9.907 toneladas de gipsófilas para 80 destinos em todo o mundo, em 2025. Estados Unidos e Europa são seus principais mercados. Isso gerou receita de US$ 81 milhões (R$ 419,58 milhões) para o país, correspondente a 8% do total das vendas nacionais.

Armando Prado ViteriFuncionários selecionam as flores colhidas na área de embalagem

A floricultura envia véu-de-noiva duas vezes por semana para a Colômbia. Daí, a empresa vende esse produto às outras unidades de negócios do grupo, responsáveis por montar buquês com outras flores e exportá-los.

A Utopía criou sua própria variedade, chamada Overtime, produzida em seus laboratórios há mais de uma década. Sua genética exclusiva está registrada na Europa, nos Estados Unidos e na região. Depois do corte, tem vida útil de até 40 dias, característica que a torna única e atraente no mercado mundial.

“É a nossa estrela. É uma variedade exclusiva de produção. Ninguém mais no mundo produz Overtime. Sua principal característica é o branco puro e a duração extremamente longa.”

Segundo a Fedexpor, a gipsófila é a segunda flor de corte mais exportada pelo Equador, atrás das rosas, que, por suas cores e variedade, são as mais procuradas pelos consumidores.

Em suas propriedades são produzidas 34 espécies de flores. Entre elas, as mais solicitadas são as gipsófilas, as rosas standard e spray, que podem ter até três botões por haste, os girassóis e os lírios.

Por isso, caminhar pelas plantações de gipsófilas na propriedade La Mora, em El Quinche, é como estar nas nuvens. São centenas de metros pintados de branco, onde mal é possível distinguir onde começa e onde termina a estufa.

A qualidade não é negociável

Rubén Orozco reconhece que um de seus objetivos é nunca sacrificar a qualidade dos produtos. “É possível colher menos hastes, desde que as flores atendam a todas as características necessárias para surpreender o consumidor final do outro lado do mundo.”

Cem por cento da produção é exportada. Quando as flores não atendem aos padrões, são utilizadas como composto orgânico para o solo. “Não vendemos nossos produtos no mercado local. Há empresas que adquirem esses descartes e os exportam como se fossem seus e por um custo menor. Assim evitamos prejudicar o mercado.”

Na propriedade La Mora existe uma área dedicada a um controle de qualidade minucioso. Cada tipo de flor passa por uma simulação completa. Nesse local, verifica-se se resistem à movimentação da carga, se a temperatura está adequada e o que acontece quando chegam ao destino final.

“Nós as submetemos a tudo o que acontece durante a exportação. Analisamos e verificamos quais resistem mais. Assim podemos melhorar os prazos e a qualidade.”

Orozco formou-se engenheiro agropecuário pela Escola Politécnica do Exército, ESPE, em Quito. Por isso, fala com conhecimento. É preciso ter os dados para controlar os processos de produção, desde a forma como a semente é colocada até a hidratação e a colheita.

“A floricultura é agronomia. É preciso entender que, neste negócio, existem fatores que fogem do nosso controle, como as condições climáticas. A gente precisa deixar que Deus faça a parte dele. Que saia o sol, que chova, que faça vento. Mas você não pode deixar tudo nas mãos dele. É preciso fazer a sua parte, e isso significa preparar bem o solo e o plantio, fertilizar e irrigar adequadamente e cuidar todos os dias para que as plantas não adoeçam.”

Em uma de suas propriedades, há uma área de propagação onde é plantada cada semente desenvolvida no laboratório. Esse é o primeiro passo para definir as novas espécies e variedades que serão enviadas ao exterior em 2027. Por isso, seu CEO e parte de sua equipe afirmam que, na Utopía Farms, a temporada do Dia dos Namorados começou em agosto.

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