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Agro na Urna: As Propostas de Bolsonaro e Lula para o Campo

Confira o que está no programa de governo de cada um deles para um setor que pesa na economia do país

7 min

Com um Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) projetado na casa de R$ 1,4 trilhão e recorde de exportações que atingiu US$ 87 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026, o agronegócio chega às urnas do segundo turno, que define quem vai ocupar a cadeira de presidente nos próximos quatro anos, reafirmado como a engrenagem mais dinâmica da economia brasileira.

O volume de riqueza gerado dentro das fazendas e o peso do setor na balança comercial transformam o campo em um dos tabuleiros mais disputados da eleição presidencial. As diretrizes registradas pelas candidaturas de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desenham duas visões antagônicas para gerir essa potência: enquanto a oposição aposta na desburocratização rápida, na defesa do direito de propriedade privada e na segurança jurídica para alavancar a grande produção, o plano governista canaliza o apoio estatal para a agricultura familiar, a ampliação do crédito subsidiado e a transição para uma economia de baixo carbono.

A visão de Flávio Bolsonaro: produção, títulos e defesa da propriedade

O plano assinado pelo candidato do PL concebe o agronegócio como motor de divisas e defesa da segurança alimentar. Seu programa de governo reside em retirar amarras estatais sobre o produtor rural e garantir um ambiente de estabilidade jurídica.

Direito de propriedade e regularização fundiária: Promete uma política de combate ostensivo a invasões de terra e a aceleração na entrega de títulos definitivos para pequenos produtores. A meta é permitir que quem trabalha na terra tenha a posse registrada no próprio nome, usando o documento como garantia patrimonial e acesso ao mercado financeiro. Dados compilados pelas bases de governança do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e do Incra apontam que cerca de 67 milhões a 69 milhões de hectares de terras públicas federais e estaduais no Brasil permanecem sem destinação oficial. Esse vácuo documental e de titularidade abrange uma área territorial superior à da França

Destravamento burocrático: Propõe prazos limite para a emissão de licenças ambientais e outorgas de água para irrigação. Caso o órgão público perca a data limite de análise, a licença será concedida tacitamente, impedindo que a inércia do Estado paralise projetos. Atualmente, embora a legislação fixe o limite de análise dos órgãos entre 6 meses e 1 ano, a soma das exigências técnicas, estudos complementares e o acúmulo de pedidos nos órgãos estaduais faz com que o ciclo completo de resposta e liberação final do projeto frequentemente atinja ou ultrapasse o prazo de 3 anos na prática.

Infraestrutura e armazenagem: O texto dá prioridade ao escoamento da safra por meio do destravamento de grandes obras privadas e concessões, como a Ferrogrão e hidrovias no Centro-Oeste. Também indica incentivos ao aumento da capacidade nacional de armazenagem em silos, reduzindo as perdas e a oscilação de preços nas entressafras. A capacidade estática total de armazenagem de grãos no Brasil alcançou 233,8 milhões de toneladas, segundo o IBGE.

No entanto, diante de safras que ultrapassam a marca de 340 milhões a 356 milhões de toneladas, o país enfrenta um déficit histórico de armazenagem estimado entre 110 milhões e 130 milhões de toneladas. O gargalo é amplificado pelo fato de que apenas cerca de 15% a 16% dessa infraestrutura está localizada dentro das propriedades rurais (armazenagem on-farm), forçando a venda rápida da produção no pico da colheita e sobrecarregando a logística de transporte.

Segurança no campo e fertilizantes: Alinha as ações de combate ao crime organizado e ao roubo de safras e maquinários com políticas de segurança pública reforçada. Na frente de insumos, o projeto estimula a exploração de reservas de potássio e fosfato em solo nacional para cortar a dependência do mercado externo.

A visão de Lula: agricultura familiar, transição verde e bioinsumos

O programa de governo apresentado pela chapa do PT coloca a produção agrícola como uma ferramenta na estratégia de combate à fome, industrialização verde e sustentabilidade. As metas pendem para a pequena e média propriedade, aliando transferência de recursos a compromissos ambientais.

Fortalecimento da Agricultura Familiar: O programa renova o compromisso com o Plano Safra voltado ao pequeno produtor, garantindo juros menores para o cultivo de alimentos da cesta básica, agroecologia e produtos orgânicos. Incentiva a sucessão familiar com linhas direcionadas a jovens e mulheres rurais.

Nos últimos quatro ciclos agrícolas, o orçamento federal destinado ao Plano Safra da Agricultura Familiar registrou uma expansão acumulada de 35,9%, saltando de R$ 71,6 bilhões na safra 2023/2024 para R$ 97,3 bilhões no anúncio referente ao ciclo 2026/2027. Dentro desse volume global, o aporte direto para o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) cresceu 21,7% na ponta do financiamento de custeio e investimento, avançando de R$ 70,0 bilhões para R$ 85,2 bilhões.

Compras públicas e mecanização: O texto assegura a ampliação de programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (alimentação escolar), garantindo mercado certo ao produtor local. Neste governo, a garantia de mercado para o pequeno produtor ganhou fôlego com a elevação de 30% para 45% na cota obrigatória do PNAE para a compra direta da agricultura familiar, canalizando cerca de R$ 3 bilhões anuais da merenda escolar. A medida junta-se ao aporte de R$ 1 bilhão no PAA para o abastecimento da rede assistencial e à exigência de que 80% do cardápio público priorize alimentos in natura de origem local. O programa também reativa linhas do programa Mais Alimentos para levar tratores e máquinas adaptadas a pequenas propriedades.

Sustentabilidade e rastreabilidade: Propõe o fomento à Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e à recuperação de pastagens degradadas sem avanço sobre vegetação nativa. Com 19,5 milhões de hectares sob sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e cerca de 43 milhões de hectares de pastagens de alta aptidão agrícola com algum grau de degradação, o Brasil mantém a meta do Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas (PNCPD) de incorporar até 40 milhões de hectares à produção sustentável entre 2023 e 2033 sem desmatar área nativa. Para viabilizar essa transição, estimativas do Ministério da Agricultura e do BNDES projetam investimentos entre US$ 80 bilhões e US$ 120 bilhões (de R$ 400 bilhões a R$ 600 bilhões) em correção de solo, adubação e infraestrutura ao longo dos dez anos de execução do plano.

A proposta impulsiona a consolidação dos bioinsumos — mercado nacional que movimenta cerca de R$ 5 bilhões ao ano e cresce a taxas superiores a 20% ao ano — como alternativa sustentável para reduzir a dependência externa de fertilizantes e defensivos químicos. Paralelamente, o texto alinha a pecuária nacional às exigências socioambientais de mercados compradores no exterior, como a União Europeia, ao acelerar a implementação do Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Bubalinos.

Biocombustíveis e Embrapa: Reafirma o papel da Embrapa como centro de desenvolvimento biotecnológico para safras tropicais. Na matriz energética, consolida a rota do biodiesel, do etanol de milho e cana, além do combustível sustentável de aviação (SAF)

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