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Como o Barter Cresce e Financia em US$ 1 Bilhão os Adubos para o Agro Equatoriano

Assim como em outros países, os produtores rurais desse mercado convivem com margens apertadas por conta do custo de produção. Conheça esse cenário latino-americano

8 min

Cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,21 bilhões na cotação atual) circula todos os anos no mercado equatoriano de insumos agropecuários, considerando a compra de sementes, fertilizantes e agroquímicos, segundo a Associação da Indústria de Proteção de Cultivos e Saúde Animal (Apcsa). De acordo com Serapio Arana, presidente da Apcsa, isso significa que o campo equatoriano gasta e movimenta “uma quantidade gigantesca de dinheiro todos os anos somente nos materiais necessários para plantar e proteger as lavouras”. Assim como ocorre com países que dependem de compras externas, como ocorre com o Brasil, entre outros mercados.

O agro do Equador é especialmente forte em culturas tropicais de exportação e produtos de alto valor por hectare. Os principais destaques são banana, cacau, flores, camarão de cultivo e, em menor escala, café, frutas tropicais e óleo de palma. A organização calcula que, nesse negócio, entre 85% e 90% das vendas são realizadas por meio de crédito, com prazos que variam de 90 a 360 dias. A particularidade, explica Arana, é que boa parte desse financiamento não vem dos bancos, mas das próprias empresas fornecedoras e do canal de distribuição. “Com o passar dos anos, as empresas se transformaram nas financiadoras da agricultura.”

O mecanismo pode funcionar diretamente com o produtor: a empresa entrega os insumos para uma safra e recebe o pagamento depois da colheita. Também pode funcionar por meio das lojas de produtos agrícolas, que recebem crédito do fornecedor e depois vendem ao agricultor. O alcance chega a culturas relevantes para as exportações do país, como banana, cacau, frutas e flores.

Em 2026, essa dependência ficou mais visível em função do encarecimento desses insumos. Três deles são a ureia, o fertilizante nitrogenado mais concentrado do mundo; o Muriato de Potássio (MOP), a fonte de potássio mais utilizada e econômica da agricultura mundial; e o Fosfato Diamônico (DAP), que fornece nitrogênio e fósforo às lavouras. Todos registraram aumentos neste ano.

Entre janeiro e agosto, o preço internacional da ureia passou de US$ 619,20 (R$ 3.230) para US$ 794 (R$ 4.140) por tonelada, alta de 28,1%. O maior valor do período foi registrado em abril, quando chegou a US$ 857 (R$ 4.470) por tonelada, segundo informações do Serviço Nacional de Alfândega do Equador (Senae) e do Ministério do Desenvolvimento Econômico e Produtivo.

O Muriato de Potássio apresentou uma trajetória mais estável, passando de US$ 366 (R$ 1.900) para US$ 387 (R$ 2.020) por tonelada, aumento de 5,7%. Em contraste, o Fosfato Diamônico, que chegou a US$ 770 (R$ 4.020) por tonelada em maio, caiu para US$ 390 (R$ 2.040) em agosto, recuo de 6,1% em relação a janeiro.

Robinson Chiquito/Forbes EquadorSerapio Arana, presidente da Associação da Indústria de Proteção de Cultivos e Saúde Animal

Nesse cenário, as empresas do setor produtivo reforçaram o planejamento e fazem, com vários meses de antecedência, os pedidos destinados à temporada agrícola de inverno. Assim, a conjuntura internacional mostra a capacidade de adaptação da agricultura equatoriana e de sua cadeia de fornecedores. Antecipar compras, diversificar as fontes de abastecimento, incorporar tecnologia e melhorar a produtividade tornam-se ferramentas cada vez mais importantes para sustentar o crescimento do setor.

A crise em Ormuz e seu impacto sobre o agro

O ano de 2026 avança de maneira atípica para o fornecimento de insumos agropecuários, em uma combinação de fatores geopolíticos, energéticos e logísticos. O bloqueio do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas estratégicas para o comércio mundial de petróleo e gás, é um dos fatores por trás dos preços elevados. Localizada entre Irã, Omã e Emirados Árabes Unidos, essa rota recebe importantes volumes de petróleo, gás e matérias primas utilizadas na fabricação de fertilizantes. Um terço do comércio mundial desses insumos passa por essa rota marítima.

Para o Equador, Serapio Arana destaca que o impacto não depende necessariamente da passagem direta pelo estreito dos fertilizantes destinados ao país. O efeito chega principalmente por meio dos mercados internacionais e das cadeias de abastecimento.

“Por essa rota circulam gás e petróleo, que são insumos fundamentais para fabricar fertilizantes nitrogenados, como ureia e sulfato de amônio. Por isso, uma alteração no fornecimento de energia encarece primeiro a produção nos países que processam essas matérias primas e fabricam os fertilizantes, e esse custo maior é posteriormente repassado ao comércio internacional.”

O Equador, que não produz localmente fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos em volumes relevantes, precisa comprá-los nos mercados internacionais e, portanto, acaba recebendo o impacto no preço do produto já elaborado. “Nós não somos produtores de nenhum desses fertilizantes, então ficamos sujeitos ao que acontece no mundo inteiro. Compramos pelos preços que o mercado nos oferece.”

Os dados do comércio mostram essa interdependência. Em 2025, por exemplo, o Equador supriu boa parte de suas importações de ureia com produtos vindos da Rússia e da China, além de outros fornecedores, como Omã, Trinidad e Tobago e Itália. Dessa forma, uma alteração nos custos de energia, transporte ou disponibilidade de matérias primas pode atingir diferentes elos da cadeia antes de chegar ao preço final do insumo no Equador.

Um exemplo é o comportamento dos fertilizantes durante 2026. Segundo a referência da entidade, a ureia, que antes da escalada dos preços custava cerca de US$ 28 (R$ 145) a US$ 30 (R$ 156) por saco de 50 quilos, chegou a US$ 45 (R$ 235) e até US$ 50 (R$ 260).

O nitrogênio, vinculado ao mercado de gás, assim como o fósforo e o potássio, também está exposto às mudanças na oferta mundial. Somam-se a isso os custos logísticos.

O transporte marítimo é outro componente de pressão. Segundo o executivo, o custo de um contêiner, que estava em torno de US$ 4.000 (R$ 20.851), chegou perto de US$ 10.000 (R$ 52.127) em determinados momentos. Sua análise parte do fim de 2021 e do início de 2022, com os efeitos da COVID-19, a falta de navios e o congestionamento nos portos da China, além da seca no Canal do Panamá e das tensões geopolíticas no Canal de Suez desde 2024.

O mercado interno

A pressão externa encontra, pelo menos parcialmente, um contrapeso dentro do mercado equatoriano por meio da concorrência entre as empresas que comercializam insumos agroquímicos. A Associação da Indústria de Proteção de Cultivos e Saúde Animal (Apcsa) reúne 38 empresas que concentram entre 85% e 90% dos insumos agrícolas do país. Juntas, faturaram mais de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,82 bilhões) em 2025, segundo registros da Superintendência de Companhias, Valores e Seguros. O restante corresponde a aproximadamente 150 ou 170 empresas com menor participação.

Nos agroquímicos, essa concorrência se traduz em várias alternativas para uma mesma molécula. Um agricultor pode encontrar quatro, cinco ou seis marcas para o mesmo produto, segundo Serapio Arana. Isso limita a capacidade individual de uma empresa de repassar livremente seus custos ao consumidor.

“Aqui no Equador, as empresas competem duramente entre si. Existe uma forte concorrência de preços. Pergunte a qualquer agricultor se ele pode comprar uma molécula e, quando vai a uma loja, quantas marcas encontra dessa mesma molécula. Garanto que até mesmo aqueles que estão vendo esta entrevista vão dizer: ‘eu quero um produto e tenho quatro, cinco, seis marcas entre as quais posso escolher’”, argumenta.

O negócio, no entanto, precisa estar preparado antes do início da temporada agrícola. As empresas já fizeram seus pedidos para a temporada de inverno, que se estende aproximadamente de novembro a abril. Arana estima que entre 70% e 80% dos insumos que serão utilizados durante essa temporada precisam estar no Equador até novembro.

A razão está na logística, já que muitos produtos chegam em embalagens industriais e precisam ser fracionados antes de chegar ao agricultor. Os pedidos começam a ser negociados em maio e junho. Depois, as fábricas programam produção, embarque e transporte.

Paralelamente, o crescimento de culturas de maior valor está modificando o mercado. O cacau é um exemplo. O aumento da área cultivada veio acompanhado de uma melhora significativa da produtividade, que subiu para uma tonelada por hectare. Enquanto isso, cinco ou seis anos atrás, o país obtinha, em média, entre nove e 11 quintais de cacau fermentado e seco por hectare.

O caso do cacau mostra a dimensão econômica do mercado de insumos agropecuários dentro da agricultura equatoriana. “Quando há capital investido no mesmo hectare de cultivo, seja qual for a cultura, investe-se dinheiro e a produção aumenta, a produtividade por hectare aumenta. Isso é como um sinal forte para o Equador: é preciso investir nas lavouras para conseguir uma produtividade maior”, conclui Serapio Arana.

Publicado originalmente na Forbes Equador

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