O triticale, cereal desenvolvido a partir do cruzamento entre trigo e centeio, começa a ganhar espaço nas pesquisas agrícolas do Cerrado e nas formulações da indústria brasileira de alimentos. Em 2026, testes realizados pela Vilma Alimentos, empresa mineira parceira da Embrapa Trigo, mostraram que a farinha do cereal pode substituir integralmente a de trigo na fabricação de dois tipos de biscoitos, sem comprometer os padrões de qualidade. Os resultados fazem parte de um projeto que também avalia a adaptação de cultivares às condições de cultivo de Minas Gerais, onde lavouras experimentais registraram produtividade superior a cinco toneladas de grãos por hectare.
“Avaliamos a aplicação da farinha de triticale em 11 produtos. Os testes mostraram que é possível utilizá-la em seis deles, sendo que em dois foi possível substituir totalmente a farinha de trigo pela farinha de triticale sem perder qualidade”, afirma Sérgio Gonçalves, diretor técnico da Vilma Alimentos. Os resultados apresentados pela empresa, em agosto deste ano, indicam que a substituição parcial também é possível em wafers, bolos, pizzas e biscoitos de maisena, ampliando as alternativas de matérias-primas para fabricantes de alimentos à base de farinha.
O interesse industrial pelo triticale está relacionado às características de sua composição, especialmente à menor força do glúten em comparação com o trigo, uma limitação para determinados produtos de panificação, mas que pode favorecer aplicações na indústria de biscoitos. Segundo a pesquisadora Jane Machado, da Embrapa Trigo, o cereal apresenta características tecnológicas que permitem manter a textura dos produtos sem a necessidade de determinados aditivos. “O triticale garante a crocância e a firmeza dos biscoitos, permitindo eliminar o uso de aditivos químicos para atingir esses atributos”, afirma.
Nos testes realizados pela Vilma Alimentos, os biscoitos moldados conservaram características de expansão e textura semelhantes às das formulações produzidas exclusivamente com trigo, mesmo com a substituição integral da farinha. Nos biscoitos laminados doces, conhecidos comercialmente como biscoitos de maisena, o limite recomendado ficou em 30%, percentual que preservou os padrões de cor, sabor e textura. Já na fabricação de pães, a proporção considerada viável foi de 50% de farinha de trigo e 50% de triticale, restrita a produtos que exigem menor crescimento da massa.
O comportamento das farinhas ajuda a explicar por que a indústria de biscoitos aparece entre os primeiros mercados potenciais para o cereal. Enquanto a fabricação de pães depende de uma rede de glúten capaz de reter os gases produzidos durante a fermentação, determinados biscoitos exigem massas com menor elasticidade. A farinha de triticale também apresenta coloração mais escura, característica que precisa ser considerada no desenvolvimento das receitas. Para Jane Machado, os grãos inteiros ou moídos ainda podem ser destinados à fabricação de cereais matinais e produtos dietéticos, embora essas aplicações não façam parte dos seis produtos aprovados nos testes industriais apresentados.
Das lavouras do Sul ao Cerrado mineiro
A entrada do triticale nos projetos de pesquisa do Cerrado representa uma mudança de geografia para uma cultura introduzida no Brasil na década de 1980. Naquela época, a Embrapa Trigo, sediada em Passo Fundo (RS), começou a adaptar materiais genéticos provenientes do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (Cimmyt), com sede no México. Desde então, o cereal se concentrou principalmente nos estados do Sul, onde é utilizado na alimentação de suínos e aves e na produção de forragem para a pecuária.
O trabalho de melhoramento genético resultou, em 2005, no lançamento da BRS Minotauro, primeira cultivar brasileira de triticale desenvolvida pela Embrapa. Atualmente, o Registro Nacional de Cultivares do Ministério da Agricultura e Pecuária reúne 24 cultivares da espécie, destinadas a diferentes finalidades. Apesar desse histórico, a produção no Cerrado ainda não consta das estatísticas agrícolas oficiais, o que impede dimensionar a área plantada e o volume colhido na região.
A aproximação entre a pesquisa agrícola e a indústria de alimentos ganhou escala em 2024, quando uma carga de 20 toneladas da cultivar BRS Saturno foi transportada do Rio Grande do Sul para Minas Gerais, com o objetivo de avaliar seu desempenho industrial. Os primeiros testes identificaram limitações para a panificação convencional, principalmente pela menor força do glúten e pela coloração da farinha, mas indicaram possibilidades de utilização em biscoitos, massas para pizzas e misturas para bolos. As análises realizadas em 2026 permitiram estabelecer proporções de substituição para diferentes categorias de produtos.
Enquanto a indústria avança na definição das formulações, os pesquisadores trabalham para identificar quais materiais genéticos apresentam melhor desempenho agrícola fora das regiões tradicionais de cultivo. Na Fazenda Lagoa, em Carandaí, Minas Gerais, foram instalados experimentos em oito hectares, com oito cultivares de triticale: BRS Piapara, BRS Saturno, BRS Surubim, BRS Tambaqui, BRS TL 51 e BRS Zênite, desenvolvidas pela Embrapa e pela Fundação Meridional, além da IPR Aimoré e da IPR Goitacá, do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná).
As lavouras foram semeadas em maio de 2026, com colheita programada para setembro, em sistema irrigado. A produtividade de referência informada para o triticale cultivado sob irrigação no Cerrado varia de três a quatro toneladas por hectare, mas algumas parcelas experimentais em Carandaí ultrapassaram cinco toneladas, segundo o engenheiro agrônomo Luiz Tarcísio Behm. “As parcelas de triticale chamaram a atenção dos produtores da região, mostrando excelente sanidade e com espigas bem formadas. O rendimento de grãos passou das cinco toneladas por hectare em algumas parcelas”, afirma.
Os resultados de campo também colocam em avaliação o desempenho do triticale em condições de menor disponibilidade hídrica, uma característica relevante para a expansão de cereais de inverno em regiões de clima tropical. Segundo Osmar Conte, pesquisador da Embrapa Trigo, o sistema radicular profundo e a adaptação a solos ácidos e arenosos contribuem para a tolerância da cultura a períodos de estiagem. “O triticale tem boa tolerância à seca, com plantas de raízes profundas, bem adaptadas a solos ácidos e arenosos”, diz Conte.
A adaptação, no entanto, varia conforme a genética utilizada. Nem todas as oito cultivares incluídas nos experimentos são indicadas para a produção de grãos no Cerrado, e a definição dos materiais mais adequados depende da avaliação dos resultados de colheita, sanidade e produtividade. A comparação entre cultivares também será necessária para determinar a regularidade do fornecimento de grãos com características compatíveis com as exigências da indústria.
Para o triticale avançar além das áreas experimentais, ainda será necessário estabelecer uma cadeia de produção e abastecimento que conecte agricultores, fornecedores de sementes, moinhos e fabricantes de alimentos. Os dados divulgados pela Embrapa e pela Vilma Alimentos não apresentam estimativas de custo de produção, preços dos grãos, remuneração ao agricultor ou investimentos industriais necessários para incorporar a nova matéria-prima. Também não há informações sobre contratos comerciais de fornecimento.
Na Fazenda Lagoa, os resultados das oito cultivares plantadas em 2026 deverão subsidiar as próximas recomendações técnicas para o cultivo em Minas Gerais. Para a Vilma Alimentos, a continuidade das avaliações permitirá aprofundar o desenvolvimento das formulações que já apresentaram desempenho satisfatório, especialmente na fabricação de biscoitos, segmento em que a substituição integral da farinha de trigo passou nos testes de qualidade industrial. (Com Embrapa)