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Como os Produtores Buscam Proteger Seus Mais de US$ 15 Bilhões do Super El Niño na Argentina

Com previsão de chuvas intensas na América do Sul, agricultores antecipam plantio e adotam estratégias agronômicas para preservar investimentos bilionários na safra 2026/27

6 min

Começou a fase de semeadura de milho e soja, dois dos principais cultivos do país medidos em volume. Neste ano, a chave é reduzir o risco da produção diante das fortes precipitações previstas. Como poucas vezes nos últimos anos, a chegada do fenômeno El Niño (ENOS) leva os produtores agrícolas a avaliar com extremo cuidado formas de proteção contra os impactos adversos. No Cone Sul (sul do Brasil, Uruguai e centro e leste da Argentina), o evento terá maior incidência de precipitações e, por consequência, de umidade no solo.

No início da safra de verão 2026/27, especialmente com a semeadura de milho e soja, fica claro que a intensidade prevista pelos meteorologistas exige atenção redobrada à gestão de cronogramas e informações. O objetivo consiste em evitar que o momento de maior impacto climático atinja as lavouras ou em minimizar perdas.

Afinal, os agricultores investem literalmente cerca de US$ 15 bilhões (R$ 81 bilhões, na cotação atual) em cada ciclo, valor direcionado para sementes híbridas, fertilizantes, defensivos agrícolas, insumos e custos operacionais voltados ao ganho de produtividade.

Projeções de safra e divisas

REUTERS/Matias BagliettoPlantação de milho afetada pelo calor e pela falta de chuva em uma fazenda em Chivilcoy, nos arredores de Buenos Aires, Argentina, em 5 de fevereiro de 2026

Conforme cálculos da Bolsa de Cereais de Buenos Aires (BdeC) divulgados no lançamento da safra principal, o país semeará pouco mais de 37 milhões de hectares neste ciclo. Na dependência do rendimento das seis culturas extensivas predominantes (soja, milho, trigo, cevada, girassol e sorgo), a colheita total estimada alcança 157,9 milhões de toneladas.

Desse modo, o produto interno bruto agroindustrial chegaria a US$ 54,3 bilhões (R$ 293,2 bilhões), com a geração de exportações e divisas de US$ 41,5 bilhões (R$ 224,08 bilhões), montante equivalente a quase 83% das reservas brutas do Banco Central.

O volume financeiro compreende apenas um ano de atividade. Pela magnitude do agronegócio nacional, todos os elos da cadeia adotam cautela contra as oscilações do clima.

Quando semear

A medida prioritária na agenda envolve a antecipação em relação ao período mais crítico do El Niño, de modo a desviar da janela principal de semeadura. Relatório da Guia Estratégica para o Agro da Bolsa de Comércio de Rosario (GEA-BCR) destaca que a semeadura da soja começou mais cedo, cobrindo uma área superior à de ciclos anteriores.

“Com um 2% mais de área, começa uma semeadura estratégica para vencer o ‘Niño'”, relata a GEA-BCR, em manobra classificada como “soja tática”. O informe aponta que o calendário habitual tem início após 20 de outubro, no entanto, neste ano, os trabalhos a campo começaram no dia 15.

“Este adiantamento seria de 4 a 7 dias e responde a maximizar rendimentos, otimizar a logística e também minimizar problemas de implantação”, pontuam os técnicos da instituição de Rosário.

Ao analisar as medidas adotadas por produtores da região núcleo (que engloba o leste de Córdoba, centro e sul de Santa Fé e norte de Buenos Aires), nota-se o aumento no volume de sementes por metro quadrado “para maximizar rendimentos com um estreitamento das linhas”.

Simultaneamente, o setor intensifica o controle de plantas daninhas, busca ciclos mais precoces e recorre à tecnologia, ampliando o uso de sementes certificadas em substituição às sementes salvas, com a finalidade de alcançar melhor rendimento nos talhões de maior aptidão.

“Uma maneira de desviar do Niño é com semeaduras precoces; no caso do milho, a previsão é de que neste ano o plantio ocorra antes”, afirma Eugenio Irazuegui, analista de mercados agrícolas da corretora de grãos Zeni.

O especialista acrescenta que, com base em dados de 22 de outubro, a tendência entre os agricultores de milho é “priorizar lavouras de primeira época e semeaduras precoces em detrimento dos cultivos tardios ou de safrinha”. Da área total destinada ao cereal, entre 55% e 60% deve receber o plantio precoce, segundo as projeções.

Números reunidos pela Bolsa de Cereais de Buenos Aires indicam que, até 22 de outubro, o plantio de milho com destinação comercial atingiu 39,8% dos 8,4 milhões de hectares previstos, avanço semanal de 5 pontos percentuais.

Efeitos colaterais

REUTERS/Agustin MarcarianO agricultor Alejandro Vallan, 43 anos, caminha numa estrada rural parcialmente coberta pelas águas das cheias

Nas regiões núcleo e centro-leste de Entre Ríos, os trabalhos de primeira época caminham para a conclusão, alinhando-se à meta de escapar das chuvas mais pesadas.

Irazuegui recorda que a semeadura da soja arranca nesta segunda metade de outubro, em razão de previsões indicando novembro e dezembro mais chuvosos.

“Antes existia a percepção de que o período de maior precipitação ficaria entre janeiro e março, contudo agora a expectativa é de que ocorra antes. Assim, precipitações expressivas em janeiro seriam favoráveis para a soja em processo de semeadura”, observou o analista.

O El Niño traz essa dualidade: prejudica o trabalho no momento do plantio, porém favorece o desenvolvimento vegetativo depois do estabelecimento da lavoura, garantindo umidade para elevar os índices de produtividade da oleaginosa.

Analistas ressaltam a relevância da distribuição geográfica das precipitações. No caso da Mesopotâmia argentina (sul de Misiones, Corrientes e Entre Ríos), a área deve ser a mais impactada pelo fenômeno, visto que a saturação hídrica do solo já provoca cheias em rios e alagamentos.

No centro do país, regiões como Córdoba e San Luis registram déficit hídrico e surgem em mapas climatológicos na cor amarela, indicando que “há uma margem a curto prazo para absorver chuvas” sem prejuízos imediatos, pontua Irazuegui.

Ainda assim, inundações provocam atoleiros em lavouras, deterioração de estradas rurais, custos extras no transporte e alojamento do gado, além da perda de pastagens após o recuo das águas, gerando reflexos diretos na produção.

A respeito do trigo, em fase final de enchimento de grãos e colheita inicial prevista para novembro nos primeiros talhões, Irazuegui avalia que “o cultivo exibe excelente padrão agronômico, com estimativa de safra em cerca de 23 milhões de toneladas, o segundo maior volume histórico após os 27,8 milhões de toneladas obtidos no ciclo anterior”.

O especialista adverte, entretanto, para os perigos do clima: “Precipitações em excesso podem dificultar a entrada de colheitadeiras por falta de sustentação do solo e provocar perda de qualidade por lavagem dos grãos”, conclui.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes Argentina

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