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Soja Deve Interromper Ciclo de Expansão de Área no Brasil em 2027, Projeta Rabobank

Relatório prevê estabilidade no plantio da oleaginosa, avanço do etanol de milho, menor oferta de carne bovina e recuperação da moagem de cana

8 min

A soja brasileira deverá passar por uma mudança importante em 2027: pela primeira vez em aproximadamente 20 anos, o país não deve ampliar a área plantada com a oleaginosa. Mesmo com uma produção estimada em 178 milhões de toneladas, a segunda maior da história, o cenário de endividamento, juros elevados e margens apertadas deve limitar novos investimentos. A avaliação está no relatório Perspectivas para o Agronegócio Brasileiro 2027, elaborado pelo RaboResearch, área de pesquisa do Rabobank, e apresentado nesta quarta-feira (4).

“Para 2027, a gente está vendo que vai ser aí o primeiro ano, depois de 20 anos, que não esperamos uma expansão da área plantada de soja”, afirmou Marcela Fernandez Marini, analista sênior de grãos e oleaginosas do Rabobank. Segundo ela, a estabilidade da área reflete um momento de maior cautela do produtor, depois de uma sequência de investimentos realizados entre 2020 e 2023/24 e da compressão das margens observada em 2026.

A estimativa do banco é que a área brasileira fique em 49 milhões de hectares na safra 2026/27. Com o retorno da produtividade à média histórica, após o ciclo recorde anterior, a produção deve alcançar 178 milhões de toneladas, abaixo das cerca de 182 milhões de toneladas da temporada passada. Ainda assim, o volume representaria a segunda maior safra já registrada no país.

Câmbio e exportações entram no radar da soja

Divulgação/RabobankMarcela Fernandez Marini, analista sênior de grãos e oleaginosas do Rabobank

As exportações brasileiras devem recuar levemente, de 114 milhões para 113 milhões de toneladas. Um dos fatores é a retomada dos embarques norte-americanos para a China, após o acordo comercial entre os dois países. O esmagamento doméstico, por outro lado, deve permanecer em torno de 64 milhões de toneladas, sustentado pela demanda por óleo vegetal e biocombustíveis.

Para o produtor, o câmbio continuará sendo uma variável decisiva na formação dos preços. Marcela lembrou que, entre janeiro e outubro de 2026, a valorização da soja na Bolsa de Chicago não se traduziu na mesma proporção em reais, devido ao fortalecimento da moeda brasileira. “Chicago alcançou um patamar acima de 13 dólares por bushel, mas o câmbio não permitiu que os preços em reais se fortalecessem na mesma proporção, fazendo com que a margem do produtor não apresentasse uma melhora expressiva”, explicou Marcela.

A leitura do Rabobank é de que 2027 será um ano de transição, com possibilidade de alívio gradual, mas sem garantia de recuperação rápida da rentabilidade. Além do câmbio, a capacidade de controlar custos, o endividamento e a disciplina de oferta devem pesar nas decisões de investimento.

Milho ganha força com o etanol e a demanda interna

No milho, a expansão da indústria de etanol segue como um dos principais motores do mercado brasileiro. A produção da safra 2026/27 está estimada em 141 milhões de toneladas, sendo 32 milhões na primeira safra e 109 milhões na safrinha. Do lado da demanda, as usinas devem consumir 32 milhões de toneladas do cereal, crescimento de 18% em relação a 2026.

As exportações também devem avançar, chegando a 38 milhões de toneladas, enquanto o consumo destinado à alimentação animal tem previsão de crescimento de 2%. A combinação desses fatores tende a deixar o balanço interno mais ajustado, reduzir estoques e limitar quedas mais expressivas nas cotações. O avanço do etanol também reforça a importância do mercado doméstico na formação dos preços do grão.

No algodão, o Rabobank projeta aumento de 3,5% na área cultivada, para 2,1 milhões de hectares, e produção de 4,1 milhões de toneladas de pluma. As exportações brasileiras devem alcançar 3,5 milhões de toneladas. Apesar da perspectiva de demanda externa, o setor terá de lidar com juros elevados e endividamento, que restringem investimentos. No mercado internacional, a produção global deve cair cerca de 3%, com redução da relação entre estoques e consumo, de 63% para 57%.

Menor oferta de boi pode sustentar preços

Getty ImagesBovinos de corte em área de confinamento

Na proteína animal, a expectativa é de crescimento em alguns segmentos, mas com atenção redobrada às margens e ao equilíbrio entre produção e demanda. Na bovinocultura, a retenção de fêmeas e a recomposição do rebanho devem reduzir a oferta de animais para abate. O Rabobank estima queda de aproximadamente 3% na produção brasileira de carne bovina em 2027, para 10,96 milhões de toneladas em equivalente carcaça (TEC).

A disponibilidade de carne para o mercado interno deve recuar 6%, para cerca de 6,5 milhões de toneladas, enquanto as exportações podem alcançar 4,49 milhões de toneladas. A menor oferta tende a dar sustentação às cotações, mas o comportamento do consumo doméstico será determinante. “O consumo doméstico representa cerca de 61% de toda a produção de carne bovina; se ele responder abaixo do esperado, teremos pressão nas cotações, pois a demanda local tem um peso muito maior do que a externa”, avaliou Wagner Yanaguizawa, analista de proteína animal do Rabobank.

O cenário exige atenção também de quem trabalha com terminação, já que a valorização do bezerro pressiona a relação de troca e eleva o custo de reposição. Na suinocultura, a produção deve crescer 3%, para uma faixa entre 6,02 milhões e 6,05 milhões de toneladas, com exportações estimadas em 1,65 milhão de toneladas em equivalente carcaça. O frango também deve avançar: a produção pode chegar a 16,7 milhões de toneladas, alta de 2,5%, e os embarques, a 5,93 milhões de toneladas.

Cana e etanol entram em novo ciclo de expansão

Divulgação/RabobankAndy Duff, estrategista global do setor de açúcar e álcool do Rabobank e gerente do time de Pesquisa e Análise Setorial do Rabobank para a América do Sul

No setor sucroenergético, as chuvas fora do padrão no Centro-Sul durante a safra 2026/27 afetaram o ritmo da colheita e a produção de açúcar. Para a temporada 2027/28, porém, o Rabobank trabalha com potencial de moagem de até 655 milhões de toneladas de cana, incluindo o aproveitamento de matéria-prima que ficou no campo na safra anterior. Com um mix de 49,5% destinado ao açúcar, a produção poderia alcançar 42,5 milhões de toneladas.

No mercado internacional, a projeção é de déficit global de 2,2 milhões de toneladas de açúcar na safra 2026/27, com expectativa de colheitas menores na Índia e na Tailândia. Esse cenário pode contribuir para sustentar os preços em Nova York na faixa de 17 a 19 centavos de dólar por libra-peso. “A nossa premissa é de que o preço mundial fique na faixa de 17 a 19 centavos de dólar por libra-peso, um patamar que ninguém imaginava há três ou quatro meses”, afirmou Andy Duff, estrategista global do setor de açúcar e álcool do Rabobank e gerente do time de Pesquisa e Análise Setorial do Rabobank para a América do Sul.

O etanol de milho, por sua vez, seguirá ampliando sua participação na matriz brasileira. A entrada de novas plantas deve adicionar cerca de 2,2 bilhões de litros à capacidade de produção, levando o volume do biocombustível de milho a aproximadamente 14 bilhões de litros em 2027/28. Já o etanol de cana deve somar 26,8 bilhões de litros. A oferta maior de combustível, especialmente do hidratado, pode manter pressão sobre os preços, mesmo com a expansão da demanda.

Clima, câmbio e cenário fiscal exigem cautela

Na avaliação do Rabobank, o agronegócio brasileiro chega a 2027 em um período de estabilização depois da compressão de margens registrada em 2026. A recuperação, no entanto, tende a ser gradual e desigual entre as cadeias. A situação financeira dos produtores, o custo do crédito e a capacidade de ajustar a oferta serão fatores importantes para determinar o ritmo dos investimentos.

No cenário macroeconômico, a política fiscal após as eleições aparece como uma das principais fontes de incerteza, com possíveis reflexos sobre câmbio, inflação e juros. No ambiente externo, tensões geopolíticas também podem influenciar os preços e os custos de produção. O clima completa a lista de pontos de atenção, especialmente diante dos riscos associados ao El Niño.

A soja, por exemplo, está prevista com boas produtividades, no entanto, as perspectivas devem mudar caso o El Niño comece a mostrar seus reais impactos, segundo Marcela. “Este relatório inicial não considera corte de potencial produtivo para a soja. A partir de quando começo a considerar isso nas minhas contas? A partir de dezembro”, diz a analista de grãos do Rabobank. “Se observarmos um veranico em dezembro no Mato Grosso e vermos que a soja realmente está perdendo potencial de produtividade, aí sim passamos a revisar.”

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