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A Era do Globalismo Acabou: O Que Vem Agora?

Instituições globais perdem força diante do avanço do nacionalismo e da fragmentação de poder em um mundo multipolar

4 min

Terminada a Segunda Guerra Mundial, o mundo estava em agonia, marcado pelo medo, pela escassez e pela desconfiança entre nações. Nesse cenário, nasceram instituições supranacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e, mais tarde, a Organização Mundial do Comércio (OMC), criadas como símbolos de esperança, cooperação e ordem. Sua missão era ambiciosa: garantir paz, promover a liberdade, incentivar o comércio e zelar pela saúde mental e física. Quase oito décadas depois, esse ideal de governança global parece cada vez mais distante. Conflitos persistentes, pandemias mal administradas e o retorno do protecionismo colocam em xeque a relevância dessas organizações. Torna-se inevitável a reflexão sobre o fim da era do globalismo.

O mapa geopolítico está repleto de crises, com a guerra entre Rússia e Ucrânia desde 2022; os ataques e contra-ataques entre Israel e Irã e Israel e Palestina; além de conflitos históricos crônicos no Sudão, em Mianmar, no Iêmen, na Síria e entre Paquistão e Índia. O temor de um novo salto nuclear por parte de Irã, Rússia e Coreia do Norte intensifica o debate sobre segurança global. Diante desse quadro, pergunta-se: teria o Conselho de Segurança da ONU capacidade real de articular soluções? Ou a necessidade de ação unilateral, como a intervenção militar americana no Irã, expõe a irrelevância da diplomacia supranacional? A narrativa pode variar conforme o orador, mas é inegável que muitas dessas ações ocorreram sem a coordenação e sem consentimento da ONU, o que denota a perda de sua relevância no cenário global.

A OMS, criada em 1948 com o objetivo, entre outros, de “centralizar informações epidemiológicas e coordenar respostas globais”, também enfrenta crise de legitimidade. Em junho de 2025, seu Grupo Consultivo para Origens de Novos Patógenos (SAGO) publicou um relatório inconclusivo sobre a origem da covid-19, citando falta de acesso a dados cruciais. Divergências internas devido à falta de consenso entre os pesquisadores resultaram na renúncia de um membro e na retirada do nome de três participantes do documento final. O episódio reforça a percepção de que, em momentos críticos, a OMS não conseguiu cumprir sua função essencial.

No campo do comércio, a OMC, herdeira do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT, na sigla em inglês), de 1947, e formalizada em 1995, viu-se desmoralizada diante da guinada protecionista global. Os Estados Unidos, tradicionalmente defensores do livre comércio, passaram a adotar tarifas unilaterais. Donald Trump e o liberation day ferem os princípios de não discriminação e previsibilidade do GATT, artigos I e II, respectivamente. A justificativa da “segurança nacional”, prevista no artigo XXI do GATT, foi utilizada de maneira ampla e, para muitos, abusiva, fragilizando a autoridade da OMC.

Esse enfraquecimento não ocorre em um vácuo. Ele reflete transformações mais profundas, por exemplo, a ascensão de novas potências, como China e Índia, que passaram a disputar protagonismo com o Ocidente. Em resposta, ressurgem ideias e políticas nacionalistas que, do ponto de vista econômico, priorizam cadeias produtivas domésticas ou de aliados estratégicos (“reshoring” e “friendshoring”). O resultado é um ambiente econômico mais fragmentado e com custos mais elevados. O “mundo plano”, de eficiência e integração, descrito por Thomas Friedman, cede espaço a um planeta fragmentado, em que a globalização significa, também, vulnerabilidade.

Se antes a cooperação internacional parecia um caminho natural ao progresso, hoje se percebe que essas instituições carregam motivações políticas próprias, frequentemente distantes de seus princípios fundadores. O questionamento não é apenas a respeito de eficácia, mas sobre legitimidade.

Francis Fukuyama, nos anos 1990, cunhou a tese do “fim da história”, quando o liberalismo e o globalismo pareciam vitoriosos. A realidade atual mostra outra direção: não há fim, mas ciclos. O momento indica que o globalismo, tal como o conhecemos, está em declínio. Isso não implica no colapso das trocas internacionais, mas sugere que novos arranjos serão necessários, mais regionais, flexíveis e adaptados à lógica de um mundo multipolar, menos integrado, porém igualmente dinâmico.

*Por Matheus Gonzalez, sócio da Liberta Wealth e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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