O mundo em que vivemos muda continuamente. Grandes revoluções – da industrial à tecnológica e agora à inteligência artificial – transformaram nosso cotidiano de forma visível. Porém, muitas mudanças relevantes acontecem de maneira silenciosa, acumulando efeitos que só percebemos anos depois. A crise do subprime e as ações impostas para saná-la são alguns desses casos. Na segunda metade dos anos 2000, a bolha imobiliária americana expôs fragilidades escondidas: incentivos distorcidos, crédito imobiliário de baixa qualidade e estruturas financeiras que mascaravam riscos sistêmicos.
Para conter o colapso, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) adotou uma intervenção sem precedentes e propôs uma injeção financeira que resgatou bancos e premiou a irresponsabilidade. Pré-subprime, a base monetária americana orbitava em US$ 800 bilhões. Em 2008, ultrapassava US$ 1,4 trilhão; em 2010, chegava a US$ 2 trilhões; e em 2014 alcançaria US$ 4 trilhões. Em apenas três anos, a injeção de dólares superou o crescimento acumulado em mais de um século de existência do Fed. A prioridade era evitar o contágio global, mesmo ao custo de inflar o balanço da autoridade monetária a níveis inéditos.
Por anos, muitos defenderam que essa expansão não havia gerado inflação relevante. De fato, os preços de bens permaneceram relativamente estáveis. Mas outra inflação crescia de forma discreta: a inflação de ativos. O mercado imobiliário, que avançara moderadamente nas décadas de 1980 e 1990, explodiu entre 2000 e 2006 devido a crédito abundante. Após a crise, os preços se acentuaram, mas, no pós-2020, atingiram patamares que desafiam a relação histórica entre preços, renda e juros. Não era apenas um ciclo; era um desequilíbrio estrutural alimentado por anos de liquidez abundante.
Enquanto uma parcela da população usufruiu de consumo e teóricos argumentaram que tal crescimento da base monetária não traria prejuízos ao nosso sistema, na prática o que percebemos é que essa injeção monetária estava sendo redirecionada para a aquisição de ativos. A consequência? Uma crise global. Precisamos ter ciência de que muitas ações presentes têm o seu preço cobrado no futuro, e respostas simples raramente são a solução para problemas complexos.
Dados recentes mostram o desafio da atual geração para adquirir imóvel próprio. A idade mediana de quem compra o primeiro imóvel nos EUA está em 40 anos, o maior número já registrado. Como comparação, em 1980, a idade média era de 29 anos, e, em 2010, estava em 30 anos. Por três décadas, não tivemos alterações relevantes, e, subitamente, houve esse grande salto recente.
Essa tendência é observada também nas principais economias europeias, com países como Espanha e Reino Unido debatendo restrições e políticas públicas acerca do tema. Não é em vão que a principal cidade americana, Nova York, presenciou, na última eleição à prefeitura, um candidato apresentar duras propostas que vão na direção de congelamento dos preços dos aluguéis – uma solução rasa e economicamente ineficaz.
A distorção não se limita aos imóveis. Até o dinheiro físico perde sentido prático. A decisão dos Estados Unidos de extinguir o penny, moeda produzida desde 1792, ilustra isso. Custa mais fabricar a moeda do que o valor que ela representa. O nickel, de cinco centavos, deve seguir o mesmo caminho, pois hoje custa quase três vezes seu valor nominal para ser produzido. Cédulas e moedas de baixo valor desaparecem, enquanto o poder de compra continua erodido de forma silenciosa.
A inflação é invisível, o imposto mais cruel que os governos impõem sobre os indivíduos, e ela impacta com mais intensidade justamente a parcela menos favorecida da população. Devemos pautar com mais frequência o assunto para que, por meio da educação financeira das pessoas, possamos cobrar mais responsabilidade fiscal dos governos e com as nossas moedas.
A crise de acesso a imóveis e carros e a extinção de moedas e das cédulas de menor valor são sintomas da mesma causa. Para suprimir e superar os sintomas, temos que enfrentar a doença.

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