O oceano, tema central da COP30 e peça-chave da descarbonização global, acaba de ganhar novo protagonismo no país. O Inpo (Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas) foi selecionado em edital da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), com aproximadamente R$ 15 milhões, para criar o Centro Temático de Energia Renovável no Oceano, batizado de Energia Azul. A iniciativa tem como foco o desenvolvimento de tecnologias capazes de transformar o ambiente marinho em uma fonte relevante de energia limpa em larga escala, segundo o Inpo.
O projeto concentra esforços em quatro frentes:
- Conversão da energia das ondas;
- Aproveitamento das correntes de maré;
- Utilização do gradiente térmico do oceano por meio de sistemas OTEC (Ocean Thermal Energy Conversion ou Conversão de Energia Térmica Oceânica);
- Produção de hidrogênio verde com recursos renováveis offshore.
Essas soluções podem reduzir emissões em setores de difícil abatimento, como óleo e gás, siderurgia, fertilizantes e cimento, áreas em que a descarbonização costuma ser complexa e custosa.
Em nota, o diretor-geral do Inpo, Segen Estefen, diz que a combinação entre recursos naturais e conhecimento técnico coloca o Brasil em posição estratégica na economia azul. Em suas palavras, a ampla disponibilidade de energia renovável no oceano e a experiência acumulada em operações offshore permitem transformar o ambiente marinho em aliado direto da transição energética, com potencial para gerar eletricidade, hidrogênio e até água dessalinizada de forma sustentável.
Uma parte do orçamento, cerca de R$ 4,3 milhões, será destinada à formação de especialistas por meio de bolsas de pesquisa vinculadas a instituições tais como as universidades federais do Rio (UFRJ), Pará (UFPA) e Pernambuco (UFPE), além da FGV. A iniciativa busca fortalecer a produção científica nacional e ampliar a capacidade brasileira de desenvolver soluções tecnológicas próprias para o setor.
Projeto pode viabilizar eólica offshore
Segundo o comunicado da Inpo, en1tre as etapas mais estratégicas do projeto está a criação de um módulo capaz de simular a produção de hidrogênio verde a partir da energia eólica offshore. A tecnologia responde ao desafio da intermitência dos ventos, que afeta o planejamento e reduz o aproveitamento da geração. Ao permitir o armazenamento da energia em forma de hidrogênio, o sistema melhora a estabilidade e amplia a competitividade das eólicas instaladas no mar.
O potencial brasileiro nessa área é expressivo. Hoje existem cerca de 250 gigawatts em projetos de eólica offshore em análise no Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente). Mesmo que apenas 20% sejam implantados, o país adicionaria aproximadamente 50 gigawatts à matriz elétrica atual, o equivalente a quase um quarto da capacidade instalada do Brasil. Esse cenário reforça a importância de desenvolver tecnologias que permitam aproveitar a vocação nacional para energias renováveis em alto-mar.
O projeto também prevê o desenvolvimento de uma turbina voltada ao aproveitamento das correntes de maré. Por operar submersa, a tecnologia pode levar energia contínua a regiões remotas, especialmente comunidades da costa amazônica que ainda dependem de geradores a diesel. Mesmo turbinas de pequeno porte permitem alcançar alta capacidade instalada e podem ampliar significativamente o acesso à energia limpa em áreas isoladas.
No decorrer do programa serão construídos quatro equipamentos correspondentes às tecnologias estudadas. Todos passarão por fases de modelagem, testes laboratoriais e validação operacional. A proposta é reduzir a distância entre a pesquisa e a aplicação prática, etapa considerada crítica para tecnologias que ainda se encontram em nível pré-comercial. No encerramento do projeto, cada uma das soluções deverá resultar em um projeto piloto apto para instalação no mar, o que abre caminho para futuros empreendimentos comerciais.
O Centro de Energia Azul surge em um momento em que o mundo busca ampliar rapidamente a oferta de energia limpa. Com a iniciativa, o Brasil se move para ocupar posições de liderança na economia azul e cria novas oportunidades de industrialização, inovação e exportação de tecnologia voltada à transição energética.