Todos os anos são marcados por mudanças relevantes no cenário global de energia, e 2025 não foi exceção. Na verdade, com o início do segundo mandato de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos e uma série de desdobramentos geopolíticos e do comércio internacional, 2025 pode muito bem ser lembrado como um dos anos mais impactantes já registrados.
Após revisar os principais acontecimentos ligados à energia nos últimos 12 meses, a seguir estão sete eventos que tiveram o maior impacto em escala global neste ano. Pode até haver discordância da composição desta lista, mas é difícil negar que todos provocaram mudanças profundas no setor energético em 2025.
A corrida dos data centers de IA
Trata-se da corrida do ouro do século 21. Essa disparada frenética de empresas de tecnologia e fornecedores de energia para capitalizar a competição global pela liderança em inteligência artificial tornou-se o principal motor do aumento da demanda por eletricidade nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos.
A construção simultânea de centenas desses grandes consumidores de energia gerou impactos visíveis e relevantes, como aumento nas contas de luz, pressão sobre a capacidade das redes regionais, mercados mais restritos de matérias-primas e uma explosão da demanda por gás natural, que se consolidou como o combustível dominante para geração de energia.
Os principais impactos observados em 2025 despertaram preocupações entre formuladores de políticas públicas em todos os níveis, o que significa que 2026 pode trazer um efeito bumerangue regulatório para um setor que, até agora, vinha operando em um cenário próximo ao de “terra sem lei”.
Mais do que qualquer outro fator isolado, 2025 tende a ser lembrado como o ano em que a ascensão da IA forçou novos investimentos de grande escala e uma rápida reorganização das prioridades energéticas nos Estados Unidos e em outros países da OCDE.
A repressão da China às exportações de terras raras
De forma intencional ou não, o governo chinês acionou alertas de pânico nos Estados Unidos e em outros governos ocidentais ao impor uma série de restrições às exportações de minerais de terras raras ao longo dos últimos 14 meses.
Com medidas graduais iniciadas em outubro de 2024 e culminando em 9 de outubro deste ano, o governo de Xi Jinping desencadeou esforços coordenados de Washington, Londres, Bruxelas, Tóquio e Sydney para garantir o abastecimento desses e de outros minerais críticos, sem os quais a segurança energética real é inviável.
Um desdobramento positivo dessa nova crise energética foi o lembrete enviado aos líderes políticos do Ocidente de que os minerais de terras raras não são, de fato, raros. Eles existem em grandes volumes e em regiões amplamente distribuídas pelo mundo.
A manutenção de uma indústria doméstica de mineração saudável é um dos pilares da segurança energética nacional. O governo chinês, ao que tudo indica, acionou as restrições para proteger sua posição dominante no mercado. Em vez disso, colocou em marcha uma série de movimentos globais que podem produzir o efeito oposto.
A OPEP+ provoca mais um colapso nos preços do petróleo
Falando em proteção de posição de mercado, a OPEP e sua sucessora, a OPEP+, adotaram ao longo do último meio século a prática de inundar intencionalmente o mercado de petróleo como estratégia para preservar participação. A OPEP fez isso em 2014, em uma tentativa fracassada de destruir ou enfraquecer severamente a indústria de shale dos Estados Unidos.
A queda de preços resultante foi tão profunda e persistente que levou a OPEP a atuar em conjunto com Rússia, México e outros grandes produtores fora do cartel, criando a OPEP+ no fim de 2016 para exercer um controle mais amplo sobre o mercado de petróleo bruto.
Com exceção do colapso provocado pela Covid-19, em 2020, a OPEP+ teve sucesso relevante ao sustentar os preços globais do petróleo em patamares mais elevados. Ainda assim, nos últimos anos, os países-membros foram forçados a reduzir seus próprios volumes de exportação à medida que o crescimento contínuo do shale norte-americano avançava sobre sua fatia de mercado.
Para reverter essa tendência, a OPEP+ iniciou no começo do ano um programa para recolocar volumes significativos no mercado, o que levou a uma queda de quase 30% nos preços do petróleo. A indústria de shale dos Estados Unidos, no entanto, respondeu com indiferença, continuando a registrar novos recordes de produção ao longo de vários meses de 2025.
Estados Unidos se tornam o maior fornecedor mundial de GNL
Os Estados Unidos já haviam alcançado, em 2024, a posição de maior exportador mundial de gás natural liquefeito (GNL), impulsionados principalmente pela explosão da demanda europeia decorrente da guerra da Rússia contra a Ucrânia.
O fato de a indústria doméstica ter atingido esse patamar mesmo diante de uma pausa de um ano em autorizações federais e de outras tentativas de restringir seu crescimento durante o governo Biden é uma prova de sua resiliência e capacidade de inovação.
No primeiro dia de seu segundo mandato, o presidente Trump encerrou o bloqueio regulatório imposto por Biden e passou o restante do ano implementando uma série de mudanças de política voltadas a estimular a expansão do setor.
Até setembro de 2025, o resultado foi um aumento de 25% nas exportações em relação ao ano anterior, consolidando a posição do GNL dos Estados Unidos à frente de grandes exportadores como Austrália e Catar.
Os subsídios verdes da IRA desaparecem
Nos EUA, o que a Lei de Redução da Inflação concedeu à energia verde em 2022, a chamada One Big Beautiful Bill Act retirou em 2025. O fim, em 30 de setembro, do subsídio de US$ 7.500 para veículos elétricos (R$ 37.500 na cotação atual), provocou uma queda imediata nas vendas de novos veículos elétricos em outubro e novembro.
No início de dezembro, a Ford anunciou uma baixa contábil de US$ 19,5 bilhões (R$ 97,5 bilhões) em investimentos em veículos elétricos, além de uma ampla reorganização de seus modelos.
Os subsídios para projetos de energia eólica e solar estão sendo gradualmente eliminados, mas os empreendimentos precisam estar em construção até julho de 2026 para se beneficiar dos incentivos federais até o fim de 2027. Isso reforça, mais uma vez, que os mercados de energia são um indutor muito mais confiável de decisões racionais de investimento corporativo do que a dependência contínua de subsídios federais.
Demanda por energia fóssil desafia novamente as previsões de pico
A demanda por combustíveis fósseis, petróleo, gás natural e carvão, mostrou-se mais resistente em 2025 do que muitos especialistas haviam previsto, mantendo uma tendência anual que persiste apesar dos esforços globais de governos para forçar uma transição energética por meio de políticas públicas e subsídios.
Em seu relatório anual World Energy Outlook, divulgado em novembro, a Agência Internacional de Energia não teve alternativa senão admitir que o consumo global dos três principais combustíveis fósseis atingirá novos recordes neste ano.
De forma ainda mais desconfortável para a atual liderança da agência, foi necessário abandonar a previsão recente de que a demanda por petróleo atingiria o pico antes de 2030, substituindo-a por um cenário-base revisado que aponta crescimento da demanda por vários anos.
Um secretário de Energia disposto a usar o cargo como tribuna
Homens e mulheres de diferentes origens já ocuparam o cargo de secretário de Energia dos Estados Unidos, um dos postos mais visíveis deste setor em nível global. Alguns, como Jennifer Granholm, indicada por Biden, Spencer Abraham, indicado por George W. Bush, e Rick Perry, primeira escolha de Trump, tinham trajetória política e pouca experiência no setor energético. Outros, como Stephen Chu e Ernesto Muniz, escolhidos por Barack Obama, vinham do meio acadêmico, com forte base científica. Houve ainda nomeações cujas motivações só são conhecidas pelos presidentes que as fizeram.
O atual secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, reúne uma combinação singular de experiências. Ele tem sólida formação acadêmica, com diplomas em engenharia pelo MIT e pela Universidade da Califórnia em Berkeley, e experiência na criação e gestão de empresas relevantes tanto no setor nuclear quanto em serviços para a indústria de petróleo.
Mais do que qualquer antecessor, Wright tem utilizado sua posição à frente do Departamento de Energia como uma tribuna para se tornar um dos principais articuladores da revolução na política energética promovida por Trump.
Com possível exceção do secretário de Estado Marco Rubio, nenhum outro integrante do gabinete teve presença tão constante na mídia defendendo as iniciativas do governo. Wright tem usado seu cargo para promover reformas como a instalação de novas usinas nucleares em áreas federais, o adiamento do fechamento de 15 gigawatts de usinas a carvão, a realocação de recursos de subsídios verdes para pesquisa e desenvolvimento e a pressão sobre a Comissão Europeia para reformar regras planejadas sobre metano e relatórios corporativos, entre outras ações.
Poucos setores são tão profundamente afetados por decisões de política pública quanto o de energia. Essa realidade está presente em cada um dos sete eventos descritos aqui. Wright parece compreender essa dinâmica com mais clareza e agir de forma mais decisiva do que qualquer um de seus antecessores no Departamento de Energia. Concorde-se ou não com ele, é impossível negar o impacto que exerceu no cenário nacional e internacional.