É especialista em glaciares, trabalha nos EUA há 40 anos e afirma que a nova lei não deixará de proteger a água
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Em entrevista à Forbes, o sanjuanino Andrés Meglioli analisa os limites da legislação vigente, questiona a falta de critérios para medir a contribuição hídrica real dos glaciares e sustenta que uma maior participação das províncias poderia destravar projetos sem colocar o meio ambiente em risco.
28 de dezembro de 2025, 07h30
Na Argentina, em meio ao debate sobre a reforma da Lei de Glaciares, que já obteve parecer no Senado e continuará sua tramitação no mês de fevereiro, a Forbes recorreu a um dos especialistas com maior experiência no tema para esclarecer todas as dúvidas sobre um potencial risco ambiental.
Com 40 anos de trajetória nos Estados Unidos, o geólogo especialista em glaciares Andrés Meglioli explica como se avalia a contribuição hídrica dos glaciares em outros países, por que o Inventário Nacional ficou inconcluso e de que forma se compatibiliza o desenvolvimento da mineração com o cuidado das reservas hídricas.
Em que consiste o seu trabalho?
O gelo é um material muito interessante porque é plástico e se deforma, por isso seu estudo faz parte da nossa disciplina. Eu me dedico ao mapeamento de glaciares, à sua distribuição, características e comportamento.
Há quantos anos o sr. trabalha com esse tema?
Formei-me na Universidade Nacional de San Juan. Fiz minha tese no glaciar Tronador, em Bariloche, em 1982, estudando glaciares ativos. Desde então trabalho com temas glaciares. Depois estudei glaciações antigas na Patagônia e no hemisfério norte. Fui para os Estados Unidos em 1986 e sigo trabalhando lá há quase 40 anos.
O seu trabalho está relacionado à indústria de mineração?
Sim. O tema glaciar é fundamental para a indústria de mineração, não apenas na Argentina, mas também em países como Estados Unidos e Canadá. Nesses países, o enfoque é estritamente hídrico: se um projeto não impacta o sistema hídrico nem a sustentabilidade da água, ele não é restringido. Na Argentina, em contrapartida, o foco se deslocou para a proteção do glaciar como forma física, sem quantificar necessariamente sua contribuição real para o sistema hídrico.
O sr. vê aí uma falha na lei atual?
Sim. A intenção original da lei era proteger a origem da água, mas com o tempo o foco passou a ser a proteção de qualquer glaciar, sem avaliar quanto ele contribui para o regime hídrico. Essa falta de quantificação é o que hoje atrasa muitos projetos de mineração.
Como esse tema é tratado em outros países?
No Canadá e nos Estados Unidos, baseia-se na Lei de Proteção Ambiental. Todo projeto deve apresentar uma Declaração de Impacto Ambiental, que já inclui o componente glaciar. Na Argentina existe a Lei Geral do Meio Ambiente, por isso a Lei de Glaciares acaba sendo, em muitos casos, redundante e sobreposta.
Como se determina se um glaciar cumpre uma função hídrica relevante?
Essa é uma excelente pergunta e justamente a lei não define isso. Nosso trabalho consiste em estudar a distribuição dos glaciares, sua morfologia, volume de gelo e também o permafrost. A lei exige proteger todas as possíveis fontes de contribuição hídrica, mas não foi quantificado quanto elas realmente contribuem, nem na Argentina nem em muitos lugares do mundo.
Em que estágio está hoje o Inventário Nacional de Glaciares?
Apenas a primeira fase foi concluída, que basicamente é um inventário de gabinete usando imagens de satélite. Falta a verificação em campo e, sobretudo, a fase mais crítica: determinar quanto cada glaciar contribui para o sistema hídrico. Isso ainda não foi feito.
O novo projeto de lei propõe que essa tarefa passe às províncias. O sr. acha correto?
Sim, acho muito correto. A Nação avançou pouco após a primeira etapa e deixar tudo centralizado travou muitos projetos. No mundo, os estudos são pagos pelas empresas privadas e o Estado controla, supervisiona e audita. Isso agiliza os processos e é o mais razoável.
Deveria existir um limite numérico?
Deveria haver valores de referência, mas o mais importante é a sustentabilidade hídrica: que um projeto não retire água dos usuários a jusante. Não se trata apenas de um número, mas de quem usa a água, quanto usa e qual é o valor ecológico e social desse uso.
Muita gente pensa que, quando se fala de glaciares em projetos de mineração, trata-se de algo semelhante ao Perito Moreno, quando na verdade é algo completamente diferente. O sr. pode explicar o que é um glaciar de detritos?
Existem glaciares brancos, como o Perito Moreno, e glaciares de detritos ou de rocha. Estes últimos são massas de rocha com gelo entre os blocos. Eles fluem muito lentamente e seu conteúdo de gelo pode variar entre 5% e 40%. Alguns contribuem com água, outros muito pouco. Sua importância hídrica é muito variável.
Costuma-se apontar a mineração como responsável pela falta de água. Qual é a sua impressão?
Isso não é correto. Em San Juan, por exemplo, mais de 70% da água é usada na agricultura, muitas vezes com sistemas de irrigação muito ineficientes. Com uma melhor gestão da água, haveria volume suficiente tanto para a produção agrícola quanto para a mineração. As grandes secas históricas da região de Cuyo ocorreram sem mineração. Sem neve, não há água, com ou sem mineração. Há lugares onde não há água independentemente da mineração. Não é justo culpar automaticamente a mineração. O importante é realizar estudos sérios, gerir bem o recurso e proteger as populações.
Como o uso da água na mineração é tratado em outros países?
No Chile e no Peru utilizam-se plantas dessalinizadoras. Nos Estados Unidos, muitos projetos simplesmente não avançam se não houver água. O acesso à água é um fator crítico. Ninguém desenvolve um projeto se não puder garanti-lo sem afetar a população.
Considerando que compartilhamos a cordilheira e temos um ecossistema semelhante em zonas de mineração, o Chile conseguiu equilibrar mineração e proteção de glaciares?
A mineração no Chile começou antes que se compreendesse o impacto das mudanças climáticas. Hoje existe um forte enfoque na proteção dos glaciares e do recurso hídrico, embora o país enfrente secas muito severas. Ainda assim, não são aprovados projetos que prejudiquem a água.
O que o sr. diria à população preocupada com esse tema?
Que hoje os projetos estão sendo desenvolvidos com muita responsabilidade. Evita-se cuidadosamente impactar glaciares, mesmo quando sua contribuição hídrica não está clara. As declarações de impacto ambiental são muito profundas e envolvem muitos anos de estudo. Os glaciares e o permafrost estão mapeados, protegidos e considerados nas declarações de impacto ambiental. As instalações são localizadas longe dessas áreas. A proteção da água não deixará de existir.