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O Boom dos Vinhos Brancos Impulsiona as Exportações Argentinas no Mercado Global

Setor vitivinícola argentino encontra alívio no comércio exterior com o avanço do vinho a granel e novas preferências dos consumidores por castas claras

6 min

Há apenas seis meses, a indústria vitivinícola argentina enfrentava um de seus períodos mais complexos. As exportações do setor haviam encerrado 2025 no patamar mais baixo desde 2004 em termos de volume, e desde 2009 em faturamento. O desempenho foi prejudicado pela perda de competitividade cambial, pela redução no consumo global da bebida e por transformações nos hábitos dos consumidores.

Os indicadores do primeiro semestre de 2026, contudo, apontam para uma realidade diferente. Os dados do INV apontam que as exportações avançaram 15% na comparação anual entre os meses de janeiro e maio. Apesar disso, os executivos das vinícolas locais mantêm uma postura cautelosa e afirmam ser prematuro decretar uma mudança definitiva de tendência.

O ponto de maior destaque no relatório setorial não corresponde ao crescimento geral das vendas externas, mas sim ao desempenho da categoria de vinhos brancos.

O faturamento e o volume das vendas dessa variedade para o exterior subiram 57% nos primeiros cinco meses do ano em relação ao mesmo intervalo de 2025, consolidando um movimento mercadológico que já se manifesta nos principais centros consumidores do planeta. Ao mesmo tempo, a demanda doméstica segue fragilizada.

As vendas locais de vinho acumularam uma retração de 0,4% entre janeiro e maio, com recuo mais acentuado, de 5%, durante o último mês analisado.

Transformações nos hábitos de consumo

Para os representantes do setor, a expansão expressiva dos vinhos brancos decorre de uma transformação estrutural no consumo global, descartando a hipótese de um evento isolado.

A diretora da Wines of Argentina (WofA) (entidade responsável pela promoção do produto no mercado internacional), Magdalena Pesce, explica a conjuntura: “O crescimento nos brancos responde à consolidação de uma mudança no consumo e uma guinada em direção aos vinhos brancos.”

Estatísticas internacionais dão suporte a esse diagnóstico. Um levantamento realizado pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) (organismo intergovernamental de caráter científico e técnico) aponta que, entre os anos de 2000 e 2021, a participação do vinho tinto na produção global recuou de 48% para 43%.

A França, um dos maiores produtores globais, elabora atualmente cerca de 50% menos vinho tinto do que produzia no início do milênio.

Em direção oposta, a elaboração de vinho branco mantém trajetória de alta em polos produtores como os Estados Unidos, a África do Sul, o Chile e a Nova Zelândia. Em termos globais, o segmento expandiu 13% desde o seu patamar mínimo registrado em 2002 e, desde o ano de 2013, supera o volume total de vinho tinto. Atualmente, a modalidade responde por cerca de 49% de toda a produção mundial.

Essa tendência manifesta-se igualmente nos índices de consumo de mercados maduros. Nos Estados Unidos, a demanda por vinho branco subiu 57,5%; na Austrália, o avanço foi de 29,3%; e no Reino Unido, de 20,3%. A China também demonstra um interesse ascendente pela categoria.

A transição mercadológica foi evidenciada inclusive no relatório setorial mais recente do California Crush Report (documento oficial que consolida os dados de safra e moagem de uvas na Califórnia).

Embora o esmagamento total de uvas tenha recuado 8,4% no decorrer de 2025 (atingindo o menor nível desde 1999), as castas brancas registraram desempenho muito superior às tintas. A produção da variedade Sauvignon Blanc aumentou 16,1% e a da Pinot Gris avançou 4,2%, enquanto tipos tradicionais como Syrah, Zinfandel e Petite Sirah sofreram retrações expressivas.

Mesmo diante de tais indicadores, Magdalena Pesce evita diagnosticar uma recuperação consolidada para a Argentina. “Há uma melhora, impulsionada pelos vinhos brancos, porém é muito cedo para saber se a tendência se consolida”, pondera a executiva.

Exportações com desempenho heterogêneo

Apesar do incremento nos embarques para o exterior, os empresários do setor convergem na avaliação de que a retomada dos negócios ocorre de forma parcial.

O presidente da Bodega Zuccardi (uma das vinícolas mais prestigiadas da Argentina), José Zuccardi, avalia o cenário: “As exportações melhoram com base no vinho a granel. A realidade é que o mercado dos engarrafados está similar ao ano passado e o mercado internacional está difícil para todo o mundo pelas novas tendências de consumo.”

Em relação ao desempenho do mercado interno argentino, o executivo relativiza a retração apontada pelo relatório do INV. “O acumulado dá 0,4%; são dados similares ao ano passado. Não são números ruins”, pondera.

Uma leitura equivalente é compartilhada por Marcos Jofré, CEO da Bodega Trivento (marca líder em vendas de vinho argentino no exterior, que destina 90% de sua produção ao mercado externo).

“A queda no mercado local se manifesta principalmente nos vinhos mais econômicos. Em exportações estamos no mesmo patamar do ano passado, com alguns mercados um pouco mais atrasados e outros com um desempenho acima, como é o caso do Brasil, que ganha terreno”, pontua o executivo.

Alívio setorial sem mudança de ciclo

Após registrar o pior desempenho em exportações em mais de duas décadas, a cadeia produtiva vitivinícola encontra um primeiro sinal de alívio nos negócios externos. Contudo, a reação nos indicadores econômicos ainda se mostra distante de representar um reaquecimento generalizado da atividade.

A alta das exportações é sustentada predominantemente pelas vendas de vinho a granel e pela forte demanda internacional por vinhos brancos. O segmento de maior valor agregado (composto pelos vinhos engarrafados) segue em situação de virtual estagnação. Paralelamente, o mercado doméstico permanece pressionado por um consumo que ainda não recuperou o dinamismo financeiro.

Para os estabelecimentos produtores, o desafio atual ultrapassa o objetivo de ampliar o volume de vendas, concentrando esforços na adaptação às novas preferências do consumidor global.

Nesse contexto, o bom momento dos vinhos brancos surge como uma oportunidade para que a Argentina recupere espaço no comércio internacional, embora permaneça precoce qualquer afirmação sobre uma virada definitiva de ciclo econômico.

*Reportagem publicada originalmente em ForbesArgentina.com

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