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Vitórias Climáticas Que Perdemos: Como 2025 Transformou Mercados, Tecnologia e Políticas

Ano marcou uma inflexão silenciosa, com capital migrando para energia limpa, redução de emissões associadas ao uso da terra, avanços tecnológicos e políticas públicas redesenhando o rumo da economia global

10 min

Por muitos indicadores, 2025 foi mais um ano difícil para o clima. As emissões de CO₂ provenientes de combustíveis fósseis no setor de energia provavelmente atingiram um novo recorde, mesmo com cientistas alertando que o orçamento global de carbono restante está encolhendo rapidamente.

Ao mesmo tempo, as emissões associadas ao uso da terra caíram de forma significativa, o que significa que o total de CO₂ pode ter se estabilizado em relação a 2024. Analistas descrevem esse momento como um possível “topo da montanha”, mas apenas se a expansão da energia limpa continuar acelerando.

Em meio a esses sinais mistos, uma história mais silenciosa se desenrolou. Mercados, tecnologias e políticas públicas mudaram de forma que não apagam as más notícias, mas alteram a trajetória. Vários desdobramentos indicam que a economia global começa a se reorganizar em torno de energia limpa, modelos de negócios circulares e proteção da natureza.

O capital migrou para a energia limpa

O sinal mais claro veio dos fluxos de capital. Em 2025, o investimento global em tecnologias de energia limpa alcançou uma estimativa de US$ 2,2 trilhões (R$ 11 trilhões na cotação atual), superando, pela primeira vez, os gastos com combustíveis fósseis e marcando o que a Agência Internacional de Energia descreve como um ponto de inflexão estrutural no financiamento energético. Esse valor inclui energias renováveis, redes elétricas, armazenamento, veículos elétricos, bombas de calor e tecnologias de eficiência.

Para investidores e líderes corporativos, isso vai além de um marco simbólico. Quando tecnologias limpas passam a atrair consistentemente mais capital do que projetos fósseis, cadeias de suprimento, pipelines de inovação e mercados de trabalho começam a se reorganizar.

Desenvolvedores constroem expertise em solar, eólica e armazenamento, em vez de novas usinas a carvão. Fabricantes de equipamentos ampliam linhas de produtos de baixo carbono. Instituições financeiras refinam modelos de risco que consideram um futuro de alta participação de renováveis como cenário-base, não como nicho.

As renováveis atenderam à demanda incremental de eletricidade

No terreno, esse capital se traduziu em geração real. Análises do think tank Ember mostraram que, juntas, solar e eólica superaram o crescimento da demanda global por eletricidade no primeiro semestre de 2025. Na prática, as renováveis atenderam quase toda a necessidade incremental de energia nesse período. Isso não significa que a geração fóssil tenha desaparecido, mas indica que o aumento da demanda deixou de se converter automaticamente em maior queima de carvão e gás.

A China, maior emissora do mundo, ofereceu outro sinal relevante. A rápida implantação de energia eólica, solar e nuclear fez com que a geração limpa em seu setor elétrico finalmente superasse o crescimento da demanda por eletricidade, provocando uma queda nas emissões de CO₂ do setor elétrico no início de 2025. Isso é consistente com análises que sugerem que as emissões do setor elétrico chinês estão próximas do pico ou já o ultrapassaram, caso o ritmo atual de expansão da energia limpa seja mantido.

Para operadores de rede e reguladores, a lição é que altas participações de renováveis variáveis são tecnicamente e economicamente viáveis quando armazenamento, flexibilidade do lado da demanda e expansão da transmissão avançam no mesmo ritmo.

Novas tecnologias passaram do piloto à planta industrial

Enquanto solar, eólica e baterias continuaram a escalar, 2025 também marcou passos iniciais importantes em setores mais difíceis de descarbonizar. Entraram em operação plantas comerciais de “eletrocombustíveis”, incluindo instalações que utilizam CO₂ capturado e hidrogênio verde para produzir combustíveis de baixo carbono destinados a caminhões, navios e aviões. Esses projetos ainda são pequenos em relação à demanda global por combustíveis, mas demonstram modelos de negócio viáveis para combustíveis sintéticos.

No campo da remoção de carbono, empresas avançaram de projetos-piloto para as primeiras plantas comerciais. Um processo conhecido como “carbon casting” busca armazenar carbono derivado de biomassa em blocos engenheirados, enquanto a Equatic utiliza a química oceânica para remover CO₂ da água do mar e produzir hidrogênio. O setor ainda enfrenta questões abertas sobre verificação, custos e impactos ambientais, mas 2025 mostrou que um portfólio mais amplo de abordagens é, ao menos, tecnicamente possível.

Paralelamente, tecnologias habilitadoras avançaram. Células solares de perovskita, baterias de estado sólido e soluções de armazenamento de longa duração saíram do laboratório para implantações iniciais. Esses avanços prometem maior eficiência, vida útil mais longa e melhor desempenho para redes elétricas que dependem de fontes renováveis variáveis.

A economia circular tornou-se estratégia de custos

A ação climática não se resume à energia. Em 2025, startups e iniciativas corporativas de economia circular escalaram novas formas de reduzir resíduos e emissões associadas a materiais. Reciclagem têxtil de tecido para tecido, plataformas de triagem de resíduos baseadas em inteligência artificial e sistemas aprimorados de recuperação de embalagens reinseriram fluxos antes considerados “não recicláveis” na produção.

Michel Porro/Getty ImagesGranulado de tênis da Fast Feet Grinded, primeira fábrica de reciclagem de calçados do mundo

Análises de mercado indicaram que empresas que adotam estratégias circulares podem reduzir custos em até dois terços, ao mesmo tempo em que diminuem impactos ambientais em mais de 70%. Esses dados reposicionam a circularidade. Em vez de um projeto periférico de sustentabilidade, ela passa a ser uma estratégia operacional central em setores como moda e bens de consumo, onde os custos de materiais e as pressões regulatórias estão em alta.

Para executivos, o argumento é direto. Modelos circulares reduzem custos de insumos, protegem contra interrupções de fornecimento e antecipam futuras regulamentações sobre resíduos e responsabilidade estendida do produtor.

Políticas públicas e marcos legais avançaram lentamente

O progresso político em 2025 não se materializou em um grande acordo único. Ele surgiu por meio de avanços incrementais, porém relevantes, em várias jurisdições.

Nos Estados Unidos, estados aprovaram legislações ambiciosas de energia limpa e clima. A Califórnia autorizou grandes projetos de solar com armazenamento e ampliou iniciativas de painéis solares sobre canais. O Maine fortaleceu seu caminho para eletricidade 100% limpa até 2040, enquanto Connecticut aprovou leis voltadas ao net zero até 2050, com incentivos para empresas comprometidas com o clima. Essas medidas enviam sinais de longo prazo a concessionárias, desenvolvedores e fabricantes sobre onde investir.

No cenário internacional, países avançaram em um tratado para o alto-mar e em compromissos de proteção da natureza. Uma revisão da BBC sobre 2025 descreveu “sete vitórias silenciosas” para o clima e a natureza, incluindo a expansão de áreas marinhas protegidas e novas políticas de biodiversidade que começaram a produzir efeitos. Esses avanços importam porque criam estruturas legais e institucionais que tornam retrocessos futuros mais difíceis.

Natureza, restauração e resiliência geraram benefícios locais

No nível local, projetos de restauração mostraram como ação climática e resiliência podem caminhar juntas. A recuperação de áreas costeiras e de zonas úmidas em regiões como a Louisiana costeira melhorou a proteção contra tempestades, armazenou carbono e apoiou a pesca. Projetos de arborização urbana, energia solar em escala comunitária e a eletrificação de frotas de ônibus escolares trouxeram benefícios imediatos à saúde, com ar mais limpo e menos ruído.

Esses investimentos são pequenos em comparação às necessidades globais de mitigação, mas ilustram o valor de projetos de “arrependimento zero”, que melhoram a qualidade de vida agora e reduzem riscos no futuro.

A governança corporativa passou a tratar o clima como risco central

No mundo corporativo, rankings como o Sustainability Leaders 2025 da própria Forbes e relatórios de tendências ESG de instituições financeiras confirmaram que risco climático, finanças verdes e metas baseadas na ciência se tornaram métricas centrais na avaliação das principais empresas.

Conselhos de administração e investidores estão tratando descarbonização, circularidade e resiliência climática como questões estratégicas, não como branding opcional. Essa mudança é visível em estruturas de remuneração executiva, exigências nas cadeias de suprimento e na expansão de regimes obrigatórios de divulgação em várias regiões.

Boas notícias cotidianas criaram impulso pela base

Por fim, 2025 foi marcado por uma sequência constante de histórias menores que raramente chegaram às manchetes, mas que, em conjunto, fizeram diferença. Compilações de organizações como a League of Conservation Voters e o Environmental Defense Fund destacaram financiamentos para ônibus escolares elétricos, energia solar comunitária e projetos de arborização urbana em todo os Estados Unidos. Veículos europeus reuniram “histórias ambientais positivas”, que vão da agricultura regenerativa a destilarias de uísque investindo na restauração da natureza.

Plataformas de jornalismo de soluções e até fóruns no Reddit dedicados a “boas notícias climáticas” acompanharam esses avanços, oferecendo uma narrativa alternativa ao pessimismo, sem ignorar a gravidade do problema. Para governos locais, empreendedores e comunidades, essas histórias funcionam como um manual prático de iniciativas já testadas, reduzidas em risco e implementadas.

Um ponto de inflexão frágil, mas significativo

Nenhuma dessas vitórias apaga o fato de que as temperaturas globais continuam subindo e os impactos climáticos estão se acelerando. O recorde de emissões fósseis no setor de energia em 2025 é um alerta contundente. Se o crescimento da energia limpa desacelerar ou se reações políticas atrasarem a implementação de políticas públicas, a aparente estabilização do CO₂ total pode se mostrar temporária.

Ao mesmo tempo, seria um erro ignorar as mudanças estruturais ocorridas neste ano. O capital está migrando para tecnologias limpas em escala sem precedentes. Renováveis e armazenamento estão provando que conseguem atender à maior parte da nova demanda elétrica. Novas opções surgem para combustíveis industriais, remoção de carbono e manufatura circular. Marcos regulatórios e a governança corporativa avançam, ainda que lentamente.

A tarefa de 2026 é transformar essas vitórias silenciosas em impulso duradouro. Isso significa proteger investimentos em energia limpa contra choques macroeconômicos, alinhar estratégias industriais a metas climáticas e garantir que comunidades na linha de frente compartilhem os benefícios. A crise climática segue grave. A diferença agora é que as ferramentas para enfrentá-la não são hipotéticas. Elas já estão sendo construídas, financiadas e implantadas, muitas vezes fora dos holofotes.

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