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China ou EUA: Afinal, Quem É o Maior Emissor de Gás Carbônico do Planeta?

Saiba por que e como a resposta depende do critério adotado: emissões atuais, históricas ou per capita

9 min

Uma recente publicação de um meteorologista bastante conhecido nas redes sociais, principalmente nos EUA, apresentou uma afirmação que merece uma análise mais cuidadosa. A publicação sustentava que é um mito dizer que a China é responsável pelo rápido aumento das emissões de dióxido de carbono, e foi compartilhada centenas de vezes.

O gráfico anexado à publicação, produzido pela Our World in Data, mostrava as emissões anuais de dióxido de carbono por região do mundo. O gráfico também mostrava algo que enfraquecia a própria afirmação: as emissões da China dispararam neste século e hoje representam a maior contribuição individual para as emissões globais anuais.

O problema não é que a publicação estivesse totalmente errada. A maior parte dos argumentos apresentados estava correta. As emissões per capita da China continuam inferiores às dos Estados Unidos. Estados Unidos e Europa lançaram uma quantidade acumulada maior de dióxido de carbono na atmosfera desde a Revolução Industrial. A China instalou mais capacidade de geração eólica e solar do que qualquer outro país.

Todas essas afirmações são verdadeiras. Mas elas não sustentam a alegação de que a China não é um dos principais fatores por trás do rápido aumento das emissões globais. Na realidade, os dados mostram exatamente o contrário.

Várias coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo

Os debates frequentemente saem dos trilhos porque as pessoas se prendem a um fato verdadeiro para desconsiderar outros fatos igualmente verdadeiros. Esses são os fatos que favorecem o argumento da China.

O americano médio emite mais dióxido de carbono do que o cidadão chinês médio. Segundo a Our World in Data, as emissões per capita de dióxido de carbono provenientes de combustíveis fósseis nos Estados Unidos foram de cerca de 14 toneladas métricas em 2024, contra cerca de 8,7 toneladas métricas na China. Essa é uma diferença importante. Individualmente, o americano médio continua tendo uma pegada de carbono maior.

Também é verdade que Estados Unidos e Europa respondem por uma parcela maior das emissões históricas acumuladas. O dióxido de carbono permanece acumulado na atmosfera, de modo que as emissões das décadas passadas continuam contribuindo para as concentrações elevadas atuais. Qualquer discussão séria sobre responsabilidade climática precisa reconhecer esse legado.

Também é verdade que a China se tornou líder mundial na implantação de energias renováveis. O país instalou quantidades extraordinárias de capacidade solar e eólica. Em 2024, a capacidade instalada de energia solar na China aumentou 45,2%, enquanto a capacidade eólica cresceu 18%. No final daquele ano, a China possuía 890 gigawatts de capacidade solar instalada e 520 gigawatts de capacidade eólica.

São números impressionantes. Nenhum outro país se aproxima deles. Mas nenhum desses fatos altera o ponto central: as emissões totais de carbono da China cresceram dramaticamente, e esse aumento foi a maior contribuição individual para o crescimento das emissões globais neste século.

O panorama nacional

As comparações per capita são úteis, mas o sistema climático responde às emissões totais, não às emissões por habitante. A China possui mais de quatro vezes a população dos Estados Unidos. Assim, embora o americano médio emita mais dióxido de carbono do que o chinês médio, as emissões nacionais da China são muito superiores.

As emissões anuais da China hoje são aproximadamente duas vezes e meia maiores que as dos Estados Unidos. Essa não é uma diferença pequena. Ela faz da China, com ampla vantagem, o maior emissor anual do mundo.

A tendência é ainda mais importante. Segundo o Statistical Review of World Energy, as emissões anuais globais de dióxido de carbono aumentaram cerca de 14 bilhões de toneladas métricas neste século. No mesmo período, as emissões anuais da China cresceram aproximadamente 8,8 bilhões de toneladas métricas. Isso significa que a China responde por cerca de 62% do aumento global.

No mesmo intervalo, as emissões anuais dos Estados Unidos diminuíram quase 1 bilhão de toneladas métricas. Isso não significa que os Estados Unidos tenham resolvido seu problema de emissões. Não resolveram. O país continua emitindo grandes volumes de dióxido de carbono, e suas emissões per capita permanecem elevadas. Mas, se a pergunta específica é por que as emissões globais cresceram tanto neste século, a China ocupa posição central na resposta.

A estratégia de fazer um pouco de tudo

O argumento sobre energia renovável também precisa de contexto. A China está instalando enormes volumes de energia eólica e solar. Também está ampliando a produção de veículos elétricos, baterias, linhas de transmissão e capacidade industrial voltada à energia limpa em uma escala sem equivalente no restante do mundo.

Entretanto, a China ainda não substitui os combustíveis fósseis com rapidez suficiente para impedir o crescimento das emissões. O país faz um pouco de tudo. Constrói fontes renováveis, mas também responde por mais de 50% do consumo mundial de carvão. Eletrifica o transporte, mas também amplia sua produção industrial. Acrescenta energia limpa, porém a demanda total por energia cresce tão rapidamente que as fontes renováveis ainda não conseguem compensar integralmente o crescimento do consumo de combustíveis fósseis.

Esse é o ponto principal. O resultado em termos de emissões depende não apenas da quantidade de energia renovável instalada por um país, mas também da velocidade de crescimento da demanda total por energia. Um país pode instalar quantidades recordes de energia solar e eólica e, ainda assim, aumentar suas emissões caso o consumo de carvão, petróleo e gás também cresça. Esse tem sido o desafio da China. Sua expansão da energia limpa é real, mas sua dependência do carvão também é.

A Agência Internacional de Energia observou que o consumo de carvão da China para geração de eletricidade permanece próximo de 3 bilhões de toneladas métricas, sustentado pelo forte crescimento da demanda por eletricidade, mesmo com a rápida expansão das energias renováveis. Reportagem recente da Reuters também informou que a China superou, em 2024, sua meta para 2030 de 1.200 gigawatts de capacidade instalada de energia eólica e solar, embora as usinas movidas a carvão continuem profundamente integradas ao sistema energético.

Isso não representa uma contradição. É o resultado de um crescimento acelerado encontrando um sistema energético ainda fortemente dependente do carvão.

A interpretação equivocada do gráfico

O gráfico utilizado na publicação das redes sociais, na verdade, ilustra o problema. A curva das emissões dos Estados Unidos apresenta queda em relação ao seu pico histórico. As emissões da Europa também diminuíram. Já as emissões da China cresceram acentuadamente após o ano 2000 e permanecem muito acima do nível registrado no início do século.

Se a afirmação for que Estados Unidos e Europa carregam grande parte da responsabilidade histórica pelo dióxido de carbono presente na atmosfera, o gráfico reforça esse argumento quando analisado juntamente com os dados de emissões acumuladas.

Mas, se a afirmação for que a China não é responsável pelo rápido crescimento das emissões, o gráfico não sustenta essa conclusão. Pelo contrário, ele a desmente. Novamente, essa distinção é importante. A pergunta “Quem lançou mais dióxido de carbono na atmosfera ao longo da história?” é diferente da pergunta “Quem está atualmente impulsionando o aumento das emissões anuais?”.

A resposta para a primeira aponta principalmente para Estados Unidos e Europa. A resposta para a segunda aponta principalmente para a China.

Implicações para a política climática

Atribuir culpa costuma ser menos útil do que compreender os números. As emissões de carbono são um problema global e nenhum grande emissor pode ser tratado como exceção.

Os Estados Unidos continuam apresentando elevadas emissões per capita e grande responsabilidade histórica. A Europa também possui grande responsabilidade histórica. As emissões da Índia estão aumentando. Os países em desenvolvimento, compreensivelmente, desejam crescimento econômico. Os países ricos precisam descarbonizar mais rapidamente. A China precisa reduzir sua dependência do carvão.

Todos esses pontos podem coexistir. Mas a política climática perde honestidade quando as emissões de um país são minimizadas porque outro país também possui responsabilidade. A atmosfera não responde a narrativas políticas. Ela responde às emissões totais.

A China merece reconhecimento por construir mais capacidade de energia renovável do que qualquer outro país. Também merece atenção por ser o maior emissor anual do mundo e a principal origem do crescimento das emissões globais neste século.

Os Estados Unidos merecem críticas por suas emissões históricas e por sua elevada pegada de carbono per capita. Também merecem reconhecimento por terem reduzido suas emissões anuais em relação ao pico histórico. Essas afirmações não são incompatíveis entre si. Elas representam justamente a complexidade que esse debate exige.

O panorama geral

A história das emissões globais de carbono não é uma disputa simples entre vilões e heróis. A China é, ao mesmo tempo, a maior construtora de infraestrutura de energia renovável do mundo e o maior emissor de dióxido de carbono. Os Estados Unidos são, ao mesmo tempo, o maior emissor histórico e um país cujas emissões anuais diminuíram substancialmente em relação ao pico.

Qualquer discussão séria sobre clima precisa considerar esses fatos simultaneamente. Se a questão for responsabilidade acumulada, Estados Unidos e Europa carregam grande parte do peso. Se a questão for emissões per capita, os Estados Unidos continuam apresentando um desempenho desfavorável. Se a questão for implantação de energias renováveis, a China apresenta resultados impressionantes.

Mas, se a pergunta for por que as emissões anuais globais de dióxido de carbono aumentaram tão rapidamente neste século, a China representa a maior parte da resposta. Isso não é um mito. É o que os dados mostram.

Publicado originalmente em forbes.com

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