Pesquisa revela os setores que estão se dando bem na crise causada pela pandemia

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Só no dia 1º de abril, mais de 25 milhões de reuniões foram realizadas de maneira online no Zoom

Desde que surgiram os primeiros indícios da gravidade da pandemia de Covid-19, institutos de pesquisas e organizações internacionais estão tentando calcular os prejuízos econômicos e no mercado de trabalho. No último dia 22, a Fitch Ratings, uma das principais agências de classificação de risco de crédito, divulgou um levantamento onde aponta uma queda de 3,9% no PIB global. No fim de março, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) previu que a paralisação da economia pode exterminar 25 milhões de empregos em todo o mundo.

O isolamento social imposto para tentar conter a disseminação do novo coronavírus provocou mudanças na nossa rotina, com efeito cascata. Muitos setores estão sendo altamente impactados – turismo, eventos e o comércio físico são apenas alguns deles. Mas, como em qualquer crise, enquanto alguns perdem, outros ganham.

Uma pesquisa realizada pela SEMrush, companhia norte-americana especializada em marketing digital, analisou o impacto da pandemia no comportamento online das populações para entender quais setores e empresas foram mais e menos afetados. “Muitas empresas foram impactadas negativamente, como o setor aéreo, que é o que mais sofre neste cenário. Mas o resultado das pesquisas mundiais na internet deixa claro que os serviços que ajudam no trabalho em casa e no entretenimento estão se destacando positivamente neste cenário”, afirma Maria Chizhikova Marques, coordenadora de mercado da SEMrush.

Entre os segmentos com maior impacto positivo nos últimos meses está o de plataformas de trabalho remoto. O Zoom, ferramenta de videoconferências e webinars cuja popularidade disparou com o home office e a transferência das aulas para o ambiente virtual, saiu de 10 milhões de usuários em dezembro para 200 milhões em março. Só no dia 1º de abril, mais de 25 milhões de reuniões foram realizadas de maneira online em todo o mundo pela plataforma. Mesmo com as suspeitas levantadas sobre privacidade, as ações da empresa, que valiam US$ 68 em janeiro, fecharam no dia 22 de abril em US$ 150,25. O aumento é surpreendente, principalmente se levarmos em consideração que as bolsas estão caindo mais de 30%.

Já o Skype registrou aumento de 70% em março, segundo a Microsoft, e os minutos de chamadas entre contas da plataforma mostraram incremento de 220% em relação a fevereiro. O Hangouts Meet, do Google, aumentou 25 vezes na comparação entre os dois primeiros meses do ano, e constatou crescimento diário de 60% nas últimas semanas.

E, ao que tudo indica, essa é uma tendência que deve se manter em alta mesmo após a pandemia. Prova disso é que o Facebook anunciou, na sexta-feira (24), uma ferramenta de videoconferência e expandiu recursos de transmissão de vídeos ao vivo. A companhia afirmou que o Messenger Rooms permitirá reuniões com até 50 pessoas, sem limite de tempo, e terá um layout semelhante ao oferecido pela rival Zoom, com a exibição das imagens de 16 participantes na tela do computador e de até oito nos dispositivos móveis. O lançamento estava programado para o terceiro e quarto trimestres, em fases, mas foi antecipado depois que a rede social constatou o salto nas chamadas em grupo durante a pandemia.

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FITNESS DIGITAL

Com um terço da população mundial em casa – e as academias fechadas – outro setor que ganhou impulso foi o de ferramentas online para a prática de exercícios físicos e as compras de equipamentos pela internet. Segundo a SEMrush, os volumes de busca por cordas de pular e halteres aumentaram 70%, enquanto no caso da yoga online o incremento foi de 66%.

A brasileira Centauro, rede varejista de equipamentos, roupas e calçados esportivos que anunciou descontos expressivos em itens para a prática de exercícios em casa, viu a venda de apoios para flexão de braços crescer 12.423% em seu ecommerce entre 20 de março e 13 de abril deste ano na comparação com o mesmo período do ano passado. No caso das anilhas, o incremento foi de 2.688% e, dos halteres, 2.392%. As faixas elásticas e caneleiras também registraram aumento nas vendas de 16 e 14 vezes, respectivamente. Já a comercialização de bicicletas para spinning aumentou mais de 3.000%.

No fitness digital – setor que movimentou US$ 3,6 bilhões no ano passado só nos Estados Unidos – também já é possível observar crescimento. A Peloton – onde um dos principais negócios são aulas remotas de spinning pagas por meio de assinatura mensal – viu suas ações valorizarem 9,2% no início de março depois que o número de downloads de seu aplicativo quintuplicou em relação a fevereiro. Até agora, a valorização já é de 60%. Na semana passada, a empresa registrou sua maior aula virtual: 23 mil participantes.

Outra plataforma do tipo, o Aaptiv, também constatou aumento na demanda. Em declarações à imprensa norte-americana, o CEO e fundador da empresa, Ethan Agarwal, disse que “o engajamento em programas que não exigem equipamentos cresceu 50% [na semana de 16 de março], enquanto, normalmente, o engajamento é o mesmo para modalidades com e sem aparelhos”.

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PLATAFORMAS DE STREAMING

Outra forte tendência detectada pelo levantamento foi o aumento no interesse, traduzido nas pesquisas, dos principais serviços de streaming durante o mês de março. As buscas pelo Disney+ em fevereiro cresceram 43,5% à medida que as discussões sobre restrições e quarentena começaram a surgir, movimento que refletiu no valor da empresa: US$ 46,7 bilhões antes de 7 de abril contra US$ 54 bilhões depois dessa data, de acordo com um grupo de analistas do Well Fargo.

O Hulu, outro serviço de streaming da Disney com uma participação minoritária da Comcast, também vale mais no mundo pós-pandemia: passou de US$ 22,2 bilhões para US$ 27,1 bilhões, uma valorização de 22%.

A Netflix, que divulgou resultados na semana passada, surpreendeu ao revelar que adicionou mais assinantes pagos do que o esperado no primeiro trimestre. O resultado – 15,77 milhões de novas assinaturas – foi contra as expectativas dos analistas, que apostavam que esses serviços estariam entre os primeiros itens a serem cortados pelas pessoas em meio à crise econômica que assola o mundo. Para efeito de comparação, os novos assinantes somaram 8,76 milhões no trimestre passado (de outubro a dezembro de 2019). O movimento levou a receita da companhia para US$ 5,77 bilhões no trimestre. No dia da divulgação do balanço (21), as ações da gigante do streaming, que já subiram 35% este ano, avançaram 4% no after-market.

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DELIVERY DE COMIDA E SUPERMERCADO

Como na maioria dos países onde as pessoas estão em quarentena os restaurantes ainda podem enviar pedidos por meio de aplicativos, essas plataformas têm corrido para atender à demanda, principalmente com a contratação de novos entregadores.

Segundo levantamento da AppsFlyer – plataforma de monitoramento e mensuração de downloads e uso de aplicativos presente em 98% dos smartphones de todo o mundo – as ferramentas de delivery de comida cresceram 78% em instalações entre os dias 17 de março e 13 de abril no Brasil, mantendo-se estáveis até dia 20 de abril.

O Delivery Direto, que pertence à Locaweb e atua como uma plataforma alternativa às mais tradicionais com cerca de 350 mil entregas por mês, registrou um aumento de 10% nos últimos dias. Dentre as cidades em que a plataforma opera, o Rio de Janeiro presenciou o maior volume de entregas, com 22,6%. O município é seguido por São Paulo (15,5%), Belo Horizonte (4%), Curitiba (3,9%), Porto Alegre (2,8%) e Recife (2,6%).

“O delivery tem se consolidado como uma tendência para o consumidor que busca comodidade e praticidade, no entanto, no atual cenário, vemos o serviço também como uma opção tanto para o restaurante que precisa manter sua operação saudável e pode contar com uma plataforma para ter maior organização e autonomia de operação, quanto para o cliente que quer receber suas refeições em casa”, diz Allan Panossian, cofundador e CEO do Delivery Direto.

A colombiana Rappi relatou que a operação brasileira registrou uma demanda três vezes maior a partir de março na comparação com os meses anteriores. As categorias com maior aumento foram farmácias, restaurantes e supermercados.

Já o Uber Eats constatou um aumento significativo nos pedidos para restaurantes independentes desde as últimas semanas de março, com mais usuários procurando apoiar as empresas locais. Além disso, em toda a região, observou que o interesse dos restaurantes em incorporar a opção de entrega em domicílio através do Uber Eats cresceu 10 vezes.

Quem também registrou um crescimento repentino foi a Shopper, startup que ajuda os consumidores a planejarem suas compras de supermercado que atende a 750 bairros da cidade de São Paulo e municípios próximos. Em março, o faturamento da empresa mais do que dobrou e sua base de usuários foi de 130 mil para 240 mil pessoas.

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COMÉRCIO ELETRÔNICO

Na sexta-feira também foram divulgados os resultados do varejo digital no Brasil durante o primeiro trimestre do ano pela Compre&Confie, empresa de inteligência de mercado com foco em e-commerce. Segundo o levantamento, o comércio eletrônico cresceu de forma significativa no trimestre. O faturamento atingiu R$ 20,4 bilhões, alta de 26,7% em relação ao mesmo período do ano passado, um reflexo do aumento expressivo do volume de compras realizadas pela internet: 49,8 milhões, número 32,6% maior do que o do primeiro trimestre de 2019.

Apesar do incremento no número de pedidos, o estudo também concluiu que os consumidores estão gastando bem menos em suas compras online. O tíquete médio dos pedidos realizados no primeiro trimestre foi de R$ 409,50 – valor 4,5% menor do que o registrado em 2019 –, um fator já relacionado à chegada do coronavírus ao Brasil.

“A Covid-19 já provoca mudanças estruturais no hábito dos consumidores de varejo digital. Com as medidas de isolamento implantadas no fim de março, cada vez mais pessoas optam por adquirir pela internet itens de necessidade básica, como produtos de supermercado ou de farmácia. Enquanto isso, itens de maior valor agregado, como eletrônicos, ficam em segundo plano. Essa conjuntura ajuda a explicar a queda do tíquete médio no período”, explica André Dias, diretor executivo do Compre&Confie.

Segundo o levantamento da SEMrush, o Submarino e a Lojas Americanas experimentaram um aumento de tráfego de 16,2% e 20,8%, respectivamente, de janeiro para março de 2020.

Nos Estados Unidos, a Amazon anunciou, no dia 13 de abril, que contrataria 75 mil novos funcionários para dar conta do aumento da demanda só no mercado norte-americano. No dia 16 de abril, a gigante do comércio eletrônico online atingiu valor de mercado recorde: US$ 1,2 trilhão, uma valorização de 28,6% no ano.

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Endeavor propõe medidas para salvar a inovação no Brasil

Organização mundial de apoio a empreendedores com presença no Brasil, a Endeavor divulga hoje (27) um posicionamento oficial que reúne medidas para salvar as scale-ups do país, concentradas em três frentes: flexibilização do acesso a crédito, diferimento de tributos e clareza e segurança jurídica para implementação das medidas trabalhistas.

O documento, enviado a órgãos do governo e bancos públicos, apoia-se em pesquisas, benchmarks de medidas adotadas em outros países e recomendações de especialistas. Ele também leva em consideração os principais desafios das empresas inovadoras nesse momento de crise. O objetivo é minimizar a ameaça que a pandemia de coronavírus representa às empresas de alto crescimento (EACs) que, segundo o Banco Mundial, são motores poderosos de crescimento de empregos, inovação e produção. Hoje, no Brasil, elas representam 0,5% das empresas em atividade, mas são responsáveis por gerar 70% dos novos empregos no país, segundo levantamento feito pelo IBGE em 2018.

“Nesse momento de crise, os meses viraram semanas e os dias viraram horas. Quando pensamos nas empresas mais inovadoras do país, podemos vê-las morrer nos próximos quatro meses se nada for feito. É urgente que decisões sejam tomadas pelo poder público para salvar a inovação e empregos do país”, diz Camilla Junqueira, diretora geral da Endeavor. O detalhamento das medidas está disponível no site da entidade.

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Plug and Play anuncia primeiro grupo de startups para programa de aceleração

A Plug and Play anunciou as 21 startups escolhidas para sua primeira turma de aceleração no Brasil. O grupo inicial é composto de startups de serviços financeiros e de agronegócio, que participarão do processo virtualmente nos próximos três meses, por conta da pandemia.

O batch de fintech inclui a Nextcode, que desenvolve um produto que combina visão computacional e aprendizado de máquina para analisar documentos de identificação, como CPF, RG e CNH, além de comprovante de residência, além da Spin Pay, cujo produto conecta pagadores e beneficiários. O grupo de agtech inclui a plataforma de blockchain para comercialização de commodities Gavea Marketplace, o serviço de detecção de queimadas OroraTech, e a plataforma de venture building Brainn.

A Plug and Play, empresa do Vale do Silício que atuava no Brasil por meio da Oxigênio, aceleradora da Porto Seguro, começou a atuar no Brasil em agosto de 2019, com membros fundadores como o Cartão Elo e a Klabin.

LEIA MAIS: Plug and Play quer agronegócio e criar plataforma para startups no Brasil

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A inGaia, empresa de tecnologia para o mercado imobiliário, promoverá, a partir de amanhã (28), a 2ª edição do Masters inGaia Live, com debates sobre os impactos e as possíveis oportunidades para o setor neste momento. O evento tem presença confirmada do CEO da Banib, Renato Rodrigues, do consultor e especialista Rosalvo Barreto e da consultora da Agência Cupola, Denise Vieira. Os debates, que poderão ser acompanhados gratuitamente pelo canal da propetch no YouTube, têm como temas a utilização de ferramentas virtuais para visitas em imóveis, locação em tempos de coronavírus e a comunicação adequada em casos de negociação entre proprietário e clientes, entre outros temas relevantes para o setor;

O Pulse, hub de inovação da Raízen, e o Agrihub Space organizam, no dia 29 de abril, às 14h, um debate da série “Hora da Prosa”, sobre o tema de maquinário e a digitalização da agricultura, com Gregory Riordan, diretor de tecnologias digitais para a América do Sul na CNH Industrial, e Rodrigo Iafelice, CEO da Solinftec. É preciso fazer a inscrição.

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O Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) estão organizando o Hackcovid19, evento no qual desenvolvedores de softwares, designers e outros profissionais relacionados à área de programação poderão apresentar soluções inovadoras que auxiliem no combate ao novo coronavírus. São três categorias de participantes: ativadores, que propõem os desafios, mentores, que fornecem orientação, e harckers, programadores e designers, entre outros profissionais, que apresentam a melhor forma de concretizar a ideia proposta. Com viés científico, o Hackcovid19 começa à 0h15 do dia 15 de maio e vai até 23h40 de 17 de maio. As inscrições vão até às 11h59 de 4 de maio.

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MAIS:

– A Data Hackers, comunidade de data science de Belo Horizonte, está administrando um banco de dados de profissionais de data science, machine learning e Big Data que foram demitidos de seus empregos por conta da crise do coronavírus. A lista de talentos DataHacks Assemble contém dezenas de cientistas de dados, engenheiros e analistas que deixaram empresas como a InLoco, MaxMilhas, Duratex e outras, baseados em cidades em todo o Brasil. Profissionais que queiram ser incluídos devem entrar em contato com a Data Hackers através do email [email protected];

– A Furnas está com um edital aberto para que startups enviem propostas de novas tecnologias voltadas para o setor elétrico no combate ao coronavírus. A parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) vai investir R$ 3 milhões nos projetos selecionados. Exemplos de projetos a serem desenvolvidos nos próximos dois meses tem o objetivo de suprir as necessidades dos profissionais da empresa, em particular operadores, com a criação de equipamentos de proteção individual utilizados por operadores no setor elétrico ou dispositivos para detecção de infecção, monitoramento e sanitização das unidades operacionais. Inscrições podem ser feitas até 30 de abril e a divulgação dos projetos será feita no dia 8 de maio.

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