Inovadora negra quer conectar a favela para enfrentar a pandemia

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O Conexões contra o Covid, liderado por Maria Nilda Mota, a Dinha, é um dos projetos que busca arrecadar recursos através da plataforma de matchfunding Enfrente

A conectividade na favela é um dos temas que buscam apoio financeiro em um programa de financiamento colaborativo que vai apoiar projetos liderados por inovadores da periferia com foco no enfrentamento ao novo coronavírus.

O Conexões Contra o Covid foi um dos projetos selecionados para o matchfunding Enfrente, que reinventou seu modelo de captação de recursos em parceria com a plataforma de financiamento coletivo Benfeitoria. A iniciativa é a maior mobilização com match do país, que já levantou cerca de R$ 6,4 milhões por mais de 10 mil apoiadores.

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O matchfunding mistura o financiamento coletivo (crowdfunding) com aporte de parceiros, que fazem o “match”, ou seja, multiplicam a arrecadação. O grupo de entidades conta com a Fundação Tide Setúbal, Fundação Itaú Social, Instituto Galo da Manhã, fundações FEAC e Arymax e os institutos GPA, Humanize e Arapyaú. Mais de 700 propostas de ações periféricas foram recebidas pela plataforma Enfrente e 290 foram selecionadas.

A pesquisadora, ex-professora de informática educativa e ativista Maria Nilda Mota, a Dinha, é moradora do Parque Bristol, na região chamada Fundão do Ipiranga, na zona sul da cidade de São Paulo. Seu projeto, que busca instalar pontos de internet livre em habitações precárias, precisa atrair R$ 30 mil e já atingiu 61% da meta. Na prática, a iniciativa precisa de um pouco mais de R$ 3 mil, que serão complementados pelo fundo colaborativo.

A captação deste projeto termina amanhã (17) e outras iniciativas seguem arrecadando até 13 de julho. Campanhas do Enfrente focadas em temas relacionados à tecnologia, como a UX para Minas Pretas, que busca inserir mulheres negras no mercado de tecnologia com foco em experiência do usuário, e a plataforma online de capacitação 2Pcom – Educa, já foram financiadas.

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Em seu projeto Conexões Contra o Covid, Dinha quer atender 500 famílias em situação de vulnerabilidade econômica, residencial e de saúde, baseadas em um raio de dois quilômetros na região denominada Ocupação Memorial de Aires e na região ribeirinha ao córrego São Francisco. Cerca de 3 mil pessoas com severas limitações de meios de acesso à internet, ou totalmente excluídas digitalmente, devem ser atendidas.

“Pessoas que precisam escolher entre comprar comida e internet escolherão não ter acesso [à web], pois quando pensamos em sobrevivência, pensamos em alimentação”, ressalta Dinha. “Mas a alma também precisa ser alimentada, senão a gente sucumbe.”

Uma vez que os recursos forem recebidos, a ideia é contatar empresas locais de provedores de internet para negociar a provisão do serviço, que será pago através da campanha. O projeto também prevê a instalação de infraestrutura que será disponibilizada para moradores que se disponham a também compartilhar as suas redes. A contratação de artistas locais para a criação e disponibilização de conteúdos relevantes para o público-alvo também faz parte da iniciativa.

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Segundo a líder comunitária, que por anos compartilhou seu próprio sinal Wi-Fi de graça com moradores da favela até ficar sem condições de ter sua própria conexão, a ideia é proporcionar formas alternativas de existir tendo em vista os diversos desafios das famílias, que não raro consistem em grupos de 10 pessoas em média ocupando um ou dois cômodos.

“Quando falamos em ficar em casa na pandemia, simplesmente não há espaço para estas pessoas ficarem em suas residências e, muitas vezes, não há o que fazer: as pessoas não têm acesso a livros, não podem brincar pois não há espaço. O que resta é a TV”, ressalta.

Além disso, a pesquisadora, que também é uma das lideranças da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, relata um aumento na violência policial na periferia, principalmente contra pessoas negras, desde que a pandemia teve início. Ela conta que esses acontecimentos fizeram com que a rede buscasse formas de convencer as pessoas nessas regiões a ficarem em casa.

“Vínhamos observando este aumento da violência na periferia e buscamos oferecer ferramentas para que elas fizessem isso e ficassem em casa, para se protegerem não apenas do coronavírus. Com a internet, é possível oferecer espaços virtuais a estas pessoas, que têm tantas limitações impostas em seus espaços físicos”, aponta a ativista. “Com a possibilidade de acessar a internet, mesmo que seja só pelo celular, essas pessoas podem conversar com amigos, namorar, se divertir, trabalhar – e continuar a existir.”

[A plataforma Enfrente, de financiamento de iniciativas de enfrentamento dos efeitos do coronavírus nas periferias brasileiras está com inscrições encerradas. A captação de recursos para os projetos selecionados segue até 13 de julho]

Angelica Mari é jornalista especializada em inovação há 18 anos, com uma década de experiência em redações no Reino Unido e Estados Unidos. Colabora em inglês e português para publicações incluindo a FORBES (Estados Unidos e Brasil), BBC e outros.

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