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Por Que o Setor de Infraestrutura Pode Dar o Pontapé Inicial na Janela de IPOs?

Investidores desejam segmentos que combinem previsibilidade operacional, oportunidades atrativas de alocação e menor dependência do ciclo econômico de curto prazo

7 min

Se tem algo que o mercado tem deixado claro nos últimos meses é que o apetite por empresas brasileiras voltou a ganhar força. Não é por acaso que, no final de janeiro, o PicPay estreou suas ações em Nova York. A B3, no entanto, segue na seca desde 2021. 

O período foi marcado por juros elevados e maior aversão a risco, na ressaca da safra de IPOs de 2020-2021. Agora, com um momento mais favorável se desenhando, investidores começam a olhar para segmentos que combinem previsibilidade operacional, oportunidades atrativas de alocação e menor dependência do ciclo econômico de curto prazo — nesse caso, o setor de infraestrutura pode ser o primeiro a dar largada.

No mês passado, Gilson Finkelsztain, CEO da B3, afirmou em encontro com jornalistas que o segmento é uma das grandes apostas — e esperanças — para que a nova janela de IPOs se abra. 

Atualmente, o nicho vive um momento de grande volume de projetos ligados a concessões, privatizações e expansão que precisam de capital para sair do papel ou crescer. Ou seja, as empresas do setor dependem de funding recorrente — via mercado de capitais, dívida ou novos investidores.

Ao mesmo tempo, esses negócios têm características que agradam em momento de maior cautela e aversão ao risco. Afinal, é preciso lembrar que a Selic segue alta e que a guerra no Oriente Médio aumenta a aversão ao risco global.

Características e diferenciais

O setor de infraestrutura hoje reúne empresas de grande porte, com ativos físicos relevantes — rodovias, linhas de transmissão, portos e usinas — contratos de longo prazo e, em muitos casos, receitas corrigidas pela inflação. Isso significa maior previsibilidade de fluxo de caixa e menor sensibilidade às oscilações econômicas.

A combinação reduz a percepção de risco e facilita a definição de preço dos ativos, principalmente em um cenário em que o investidor ainda está seletivo e prioriza estabilidade e visibilidade de retorno.

Para aumentar a euforia do mercado, na semana passada, a companhia de saneamento Aegea avançou em direção a um potencial IPO. A empresa divulgou que Comissão de Valores Mobiliários (CVM) aprovou conversão do seu registro de emissor de valores mobiliários para a categoria “A” — que permite que a companhia negocie ações e outros valores mobiliários no mercado brasileiro, habilitando formalmente a empresa a realizar uma oferta pública de ações. 

Segundo João Auler, head de infraestrutura e recursos naturais do UBS BB, quando se fala em “grande esperança da bolsa”, não é apenas uma questão de tamanho do setor, mas de perfil de risco.

“A reabertura tende a começar onde o investidor consegue ancorar valuation em fluxo de caixa previsível, e hoje essa característica está mais presente em infraestrutura do que em setores mais sensíveis ao consumo ou ao ciclo”, destaca.

De acordo com Fernando Biral, sócio sênior e responsável pela área de infraestrutura da Mapa Capital, há o efeito do HALO (Heavy assest, low obsolescence ou Ativos intensivos em capital com baixa obsolescência), que está direcionando a demanda para empresas de infraestrutura e commodities que sustentarão a expansão da Inteligência Artificial (IA).

Novas oportunidades

Entre as principais vantagens do nicho de infraestrutura está a previsibilidade de receita. A maioria dos ativos opera sob regime regulatório ou contratos de longo prazo que permitem repasse inflacionário e maior estabilidade de caixa. Isso reduz a incerteza sobre geração futura e torna o modelo mais defensivo.

Outro fator é que são negócios de capital robusto e com barreiras de entrada relevantes. “A necessidade contínua de investimento cria uma dinâmica de captação e expansão, o que se traduz em crescimento mais baseado em execução do que em alavancagem de ciclo”, explica o especialista do UBS BB.

Dentro do segmento, água e saneamento aparecem como os que têm maior potencial. Para João Auler, o setor reúne características positivas, como uma agenda estrutural de investimentos ainda em estágio inicial, alta necessidade de capital para expansão (capex) e receitas, em sua maioria, indexadas à inflação.

O nicho de energia também pode se destacar, já que a previsibilidade regulatória, contratos de longo prazo e a expansão necessária em geração tornam o setor menos sensível ao ciclo macro de curto prazo.

“A reabertura não deve ser liderada por histórias de crescimento discricionário, mas por ativos onde o valuation pode ser ancorado em fluxo de caixa previsível e execução operacional”, afirma o head de infraestrutura e recursos naturais do UBS BB.

De acordo com Rafael Oliveira, gestor de ações da Kinea, além de infraestrutura, outros setores também estão de olho na “nova janela”, como empresas de nicho financeiro – algumas delas realizando fora do Brasil, outras em processo de ‘re-IPO’, como o Banco Pine.

Divisor de águas

Apesar do otimismo, o  cenário de IPO é muito sensível à forma como o preço das ações se movimentam. O gestor de ações da Kinea comenta que, se as primeiras ofertas não performarem bem após a estreia, o apetite pode diminuir.

Também, com juros ainda altos, qualquer deterioração do cenário – fiscal ou estrangeiro — pode postergar decisões, já que empresas preferem abrir capital em momentos de valuation mais favorável.

A Selic continua sendo um divisor de águas quando o assunto é IPOs. Mesmo com a perspectiva de redução nos juros, a taxa ainda está muito alta, em 15%. E isso importa, porque a sinalização de queda sustentável dos juros reduz o custo de capital e melhora a percepção de retorno dos projetos de longo prazo.

Entre 2019 a 2021, quando houve a última onda de IPOs, os juros estavam muito baixos — 2% ao ano na pandemia —, e Oliveira da Kinea destaca que existia a narrativa do “there is no alternative” (sem alternativa). Sem alternativa na renda fixa, os investidores migraram para a bolsa, que subiu consideravelmente, impulsionando muitos IPOs.

No caso das companhias de infraestrutura, João Auler, do UBS BB, aponta que o segmento tende a reagir cedo nesse processo, já que seus fluxos são de longa duração. “Quando o mercado começa a precificar redução de juros, a taxa de desconto implícita cai e o valuation desses ativos se ajusta de forma mais direta do que em setores mais cíclicos”, diz.

Além disso, a queda da Selic altera a competição com a renda fixa. À medida que o retorno dos títulos diminui, ativos com geração previsível de caixa passam a se tornar mais atraentes, favorecendo empresas de infraestrutura em um cenário de reabertura gradual da bolsa.

O sócio e responsável pela área de infraestrutura da Mapa Capital, Fernando Biral, também afirma que o setor de infraestrutura consegue driblar um pouco os efeitos dos juros com as debêntures incentivadas. “Elas tiveram um volume expressivo de emissões, pois o investidor consegue um retorno mais atrativo com risco relativamente controlado”, comenta ele.

Na nova janela, o investidor estrangeiro tende a liderar essa retomada, principalmente dado o fluxo para mercados emergentes e o fato de a Selic ainda alta reduzir o apetite do investidor local para o mercado de ações. 

“O aplicador doméstico permanece relevante, mas tende a aumentar participação à medida que a trajetória de juros se consolida e as primeiras ofertas apresentem desempenho consistente”, conclui o especialista do UBS BB.

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