ESPECIAL INOVADORES NEGROS: 9 brasileiros que estão apostando na educação financeira e no crédito como arma de ascensão social

Divulgação/Forbes
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Bia Santos, da Barkus Educacional: educação financeira como solução para o problema do consumismo e da falta de planejamento de uma geração

O Brasil tem, atualmente, 45 milhões de pessoas (acima dos 16 anos) que não possuem conta bancária – ou possuem, mas não a movimentam há mais de seis meses –, segundo dados de uma pesquisa divulgada em outubro do ano passado pelo Instituto Locomotiva. A cada três adultos, um não utiliza o sistema financeiro nacional. Esse grupo movimenta, aproximadamente, R$ 820 bilhões por ano, que correm às margens do sistema bancário.

Segundo o mesmo levantamento, a maioria dos desbancarizados é formada por mulheres (59%), negros (69%), pessoas pertencentes às classes C, D e E (86%) e que vivem no Nordeste (39%). Para o Banco Central, uma possível explicação para esse cenário são as experiências negativas vivenciadas nas instituições financeiras tradicionais, que incluem, entre outras coisas, os preços das tarifas.

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Esse cenário foi exposto com mais intensidade durante a pandemia de Covid-19, quando o governo lançou mão do auxílio emergencial para a população mais vulnerável e se deparou com o tamanho do problema. Pode ser que a crise que estamos vivendo nos últimos cinco meses sirva para diminuir esse abismo, mas é preciso muito mais.

A dificuldade de obter crédito é outro problema grave, que emperra o crescimento dos negócios. Foi por causa de um pedido negado que Sergio All, na época proprietário de uma agência de publicidade, decidiu criar a Conta Black, fintech que promete desburocratizar o acesso aos serviços bancários para as classes C, D e E. E o empreendedor está longe de ser um caso isolado. Segundo uma pesquisa da FIESP, 45% das empresas que tentam obter um financiamento no BNDES não conseguem. Isso acontece por variados motivos: excesso de exigências quanto a documentação (66% no caso das pequenas empresas), falta de garantias (47%), custos de garantia muito elevados (27%), entre outros. Mais uma vez, o abismo foi evidenciado pela crise recente.

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Mas, como nem tudo é notícia ruim, a tecnologia tem ajudado a mudar esse cenário. Prova disso é a proliferação das fintechs, startups do setor financeiro que facilitam todo tipo de operação e estão revolucionando o mercado, já que oferecem produtos e serviços cada vez mais personalizados e acessíveis. Segundo o estudo Distrito FinTech Report 2020, já são 742 startups desse tipo no Brasil, um aumento de 34% em relação ao mapeamento feito no ano passado. Dessas, 117 são de crédito, categoria que só perde para meios de pagamento (122).

A tecnologia também está sendo fundamental para suportar iniciativas inovadoras de educação financeira em larga escala. Uma habilidade que, se aprendida desde cedo, é capaz de mudar os rumos escolares e profissionais de boa parte dos brasileiros.

Veja, na galeria de fotos a seguir, 9 inovadores negros que estão mudando a maneira como as pessoas se relacionam com dinheiro e facilitando a inserção, principalmente da população da periferia, no sistema financeiro:

  • Bia Santos, Barkus Educacional

    O envolvimento de Bia Santos com as finanças começou cedo, ainda na escola. Durante o ensino médio, a jovem carioca desenvolveu um projeto de iniciação científica que exigiu uma pesquisa sobre o comportamento do consumidor jovem. “No meio desse processo, a educação financeira surgiu como uma solução para o problema do consumismo e da falta de planejamento da nossa geração. Na época, existiam pouquíssimos trabalhos voltados para o público jovem, com uma linguagem mais leve, divertida e prática, que não fosse resumida a matemática financeira”, lembra ela, que, aos 16 anos, passou a fazer a “tradução” do economês dos livros para os amigos da mesma idade.

    A experiência, diz Bia, foi extremamente importante para conquistar uma vida financeira equilibrada na fase adulta, mesmo vindo de uma família com poucos recursos financeiros. Após concluir a faculdade de Administração pela URFJ e estagiar na Escola de Educação Financeira do Rioprevidência, decidiu criar, em 2016, a Barkus. “O objetivo é ajudar outras pessoas como eu na organização e planejamento financeiro, utilização do crédito de forma saudável e, principalmente, a começar a investir.”

    Hoje, a Barkus promove diversas iniciativas voltadas para o público adulto, mas o foco sempre foi desenvolver metodologias de aprendizagem para escolas, com foco em crianças e adolescentes do ensino fundamental e médio. “Se todos nós tivéssemos acesso à educação financeira desde o ensino básico, muitos dos problemas que enfrentamos na vida adulta não existiriam.”

    Claro que nem tudo são flores. “Foi difícil empreender aos 20 anos em uma área de conhecimento bastante elitista e com pouca representatividade negra e feminina. Sempre levantei a bandeira da educação e, principalmente, de uma educação acessível, que abraça as particularidades das pessoas que não têm dinheiro sobrando e que não poderiam pagar um curso caro para aprender a investir. É necessário democratizar o mundo dos investimentos e é bastante incômodo ser, até hoje, uma das poucas pessoas negras à frente de empresas que trabalham com o tema. Como comecei muito nova, foi difícil entender o funcionamento do mercado, entrar em contato com as primeiras empresas e ser levada a sério”, lembra.

    Mesmo sem nunca ter recebido investimento de nenhum tipo, a Barkus é um negócio sustentável que já atendeu 8.000 pessoas. Aos 24 anos e cursando uma pós em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira, Bia diz que ela própria é um exemplo de como a educação financeira pode transformar a vida das pessoas.

    Durante a faculdade, seu sonho era fazer um intercâmbio e viajar por vários países. “Comecei a juntar dinheiro, com apoio da minha mãe, desde o primeiro período. Trabalhava e estudava. No terceiro ano, realizei meu sonho e fiz graduação sanduíche na Universidade do Porto, em Portugal, onde passei seis meses. Em 2017, conheci meu 20º país. A educação financeira, junto ao apoio familiar, me ajudou a planejar e concretizar esses sonhos.”

    Seu principal objetivo é que, um dia, as crianças comecem a ter contato com a educação financeira já na escola. “Esse conhecimento é imprescindível para a melhoria das próximas gerações e para a diminuição das desigualdades do nosso país. A chave está na educação”, diz ela, sem esquecer da inovação.

    “Inovar é buscar e concretizar diferentes soluções para os problemas que já existem – e para os que ainda vão surgir. Não existe inovação sem diversidade, seja de experiências, de pontos de vista, de tecnologias ou de áreas de conhecimento. Quanto mais diverso, mais inovador e mais revolucionário.”

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  • Fabiana Rodrigues, Creditas

    Fabiana Rodrigues, de 30 anos, trabalha com tecnologia desde 2007. Formada em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, a carioca já atuou em redes, infraestrutura, suporte e desenvolvimento de software. “Era me sonho de criança”, conta. Fez carreira no setor de telecom de grandes empresas e consultorias. “Estava na minha zona de conforto até que me mudei para São Paulo.”

    Na capital paulista, Fabiana começou a perceber outras possibilidades. “Havia mais chances para pessoas como eu, pobres e periféricas”, diz. Um dia, fuçando na internet, chegou à PerifaCode, uma comunidade de programação que reúne moradores de favelas, periferias e guetos.

    “Passei a frequentar os eventos e a integrar o time de organizadores. Lá, discutimos vivências e tecnologia. Falamos de vida na quebrada, estudos e mercado de trabalho e nos tornamos um grupo de apoio para pessoas periféricas que desejam ingressar na carreira de tecnologia”, conta. O envolvimento com a PerifaCode levou ao convite para o Women That React, iniciativa parecida, mas voltada às mulheres que utilizam a tecnologia React.

    A participação ativa nessas comunidades trouxe dois principais benefícios à vida de Fabiana. “Percebi o quão importante é a minha narrativa para mulheres – mães ou não – pretas e da periferia que sonham com sua independência financeira”, diz. Além disso, construiu uma rede importante de networking que acabou levando-a à Creditas, empresa na qual já estava de olho há algum tempo.

    Atualmente, Fabiana é software engineer de home equity no time de autonomous sales, responsável por criar e melhorar os sistemas que facilitam a vida dos consultores que trabalham com a modalidade de crédito com imóveis como garantia. “Antes dessa plataforma, os consultores tinham que acessar diversas planilhas e fazer cruzamento de dados para falar com cada um dos clientes que buscavam um empréstimo. Com essa aplicação, todas as informações de atendimento ficam mais visíveis e eles conseguem oferecer um retorno com mais qualidade e agilidade”, explica.

    Ao relembrar sua trajetória, a carioca diz que, fora o fato de ter nascido numa capital, onde as informações e recursos chegam com mais facilidade, quase tudo foi dificuldade. “Muitas coisas atrasaram o meu desenvolvimento pessoal, técnico e profissional em alguns anos. Desde saber o que deveria estudar e onde procurar emprego até racismo e machismo. Quando eu finalmente encontrei meu rumo, em 2011, eu tinha acabado de ter minha primeira filha. Não foi fácil driblar as perguntas clichê até quando quem estava recrutando era uma mulher”, conta.

    Fabiana diz que, muitas vezes, sentiu-se cansada e teve vontade de desistir. “Mas essa é uma jornada e vejo evoluções em vários aspectos da minha vida. Quero me tornar a referência que eu mesma não tive no início da minha carreira para que, dentro e fora da empresa, as pessoas repliquem esse compartilhamento de conhecimento, criando mentes que pensam em soluções melhores, mais simples e com um grande valor para quem as está utilizando.”

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  • Fernanda Ribeiro e Sergio All, Conta Black

    Aqueles que acham que coincidências não existem, vão achar na história de Fernanda Ribeiro e Sergio All mais um motivo para continuarem acreditando nisso. De áreas completamente diferentes, os dois se conheceram no AfroBusiness, uma rede formada majoritariamente por profissionais negros.

    Formada em Turismo, Fernanda abandonou o mundo corporativo depois de nove anos e uma Síndrome de Burnout. “Decidi fazer uma transição de carreira e empreender. Assim surgiu, em 2015, o AfroBusiness”, lembra ela, que ainda hoje, aos 34 anos, continua à frente da iniciativa que capacita empreendedores, intraempreendedores e profissionais liberais negros.

    Sergio All, por outro lado, cursou Comunicação e começou sua carreira na extinta loja de departamentos Mappin. Mas levou bem menos tempo para decidir tocar seu próprio negócio. Começou com o desenvolvimento de um buscador para o público gamer. Na sequência, criou uma agência de publicidade full service.

    O negócio ia bem e ele precisava trocar os equipamentos por outros mais modernos. “Fui, então, ao banco no qual tinha conta e solicitei uma linha de crédito. Mesmo com o nome limpo, o consumo de vários produtos financeiros e uma movimentação considerada satisfatória, tive o pedido negado sem nenhuma explicação plausível”, lembra o paulistano de 45 anos.

    A experiência, vivida há uma década, levou Sergio a pensar numa alternativa para ampliar o acesso a pessoas que, como ele, não conseguiam crescer por falta de recursos. Os caminhos dos dois empreendedores então se cruzaram no AfroBusiness e ambos se deram conta de que as demandas eram exatamente as mesmas. “Crédito, educação financeira e serviços bancários são coisas pouco democráticas”, diz Fernanda.

    Juntos, os dois criaram, há dois anos, a Conta Black, uma fintech que promete desburocratizar o acesso aos serviços bancários para as classes C, D e E, com abertura de conta pelo celular e taxas competitivas. Outro objetivo é alertar as pessoas para o uso consciente dos recursos financeiros. Para isso, a fintech usa recursos como o controle de despesas por app e promove workshops de educação financeira em parceria com a Skore, que tem uma plataforma de aprendizado digital. As próximas jornadas de aprendizado estão previstas para o mês de setembro e o conteúdo será aberto para correntistas da Conta Black – cerca de 10 mil atualmente – e não correntistas também.

    “Inovação é trazer diferentes vozes para modificar os processos. É permitir que diferentes perfis participem das mudanças. Inovação não está ligada somente ao uso da ‘computação’. É a descoberta do papel da tecnologia social para transformar as realidades”, diz o empreendedor.

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  • Gabriela Mendes, Nofront

    A economista nascida em Taboão da Serra, município da zona sudoeste da região metropolitana de São Paulo, percebeu muito cedo que havia um abismo imenso no nível de conhecimento sobre finanças entre o centro e as periferias da cidade.

    Na época trabalhando no mercado financeiro, Gabriela paralelamente se debruçou, então, na tentativa de desenvolver uma metodologia capaz de fazer as pessoas entenderem que, de alguma forma, todos nós somos obrigados a lidar com a economia todos os dias: donas de casa, trabalhadores informais, empreendedores.

    “Este não é um tema restrito aos milionários. A base da população precisa e deve compreender como a economia funciona. Precisamos dessa transformação social”, diz a jovem de 25 anos que, em 2018, criou a NoFront – Empoderamento Financeiro. A iniciativa usa o rap para ensinar questões relacionadas aos padrões de consumo, técnicas de negociação e quitação de dívidas, novas abordagens de relação com o dinheiro, mecanismos de investimento e perspectivas para o futuro.

    O método de ensino inédito, que funciona por meio de uma plataforma digital, usou em sua primeira temporada a discografia dos Racionais MC’s e já atendeu mais de 3.000 pessoas. “O objetivo é democratizar o acesso à educação financeira e, assim, promover o empoderamento econômico da população negra e periférica”, diz Gabriela.

    Com um mestrado em andamento em Economia Política Mundial, a empreendedora se divide entre a liderança do No Front e o trabalho como pesquisadora do NEPAFRO – Núcleo de Estudos Afro-Americanos enquanto sonha, um dia, construir uma universidade na periferia de São Paulo. “Inovar é a capacidade de construção de novas tecnologias para benefício social. Tecnologias essas que podem ser sociais, culturais ou ancestrais.”

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  • Gilvan Bueno Costa, Financier Educação S.A

    Aos 20 anos, o soteropolitano Gilvan Bueno começou a trabalhar como garçom, profissão que abraçou durante sete anos e que lhe rendeu amizades, conselhos, livros e oportunidades. Uma delas foi quando, em 2008, recebeu o convite, de um dos clientes do restaurante onde trabalhava na Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro – para onde se mudou aos 15 anos – para trabalhar num banco de investimento. “Eu tinha mostrado interesse pela área e, assim que teve a chance, ele me levou para lá. Daí em diante, minha vida mudou”, conta, lembrando que era chamado de Chris Garner Brasileiro – o investidor norte-americano retratado no filme “À Procura da Felicidade” e interpretado por Will Smith. “Ele era minha inspiração.”

    Da Geração Futuro, Gilvan seguiu para o Itaú, onde atuou como consultor de investimentos. De lá, foi para o BTG, e, na sequência, tornou-se sócio de um escritório associado à XP. Nessa jornada, acabou como CFO do Banco Maré, plataforma de operações financeiras voltadas à classe C, D e E que tem como missão diminuir o imenso contingente de desbancarizados no país, atualmente em 45 milhões de pessoas.

    No meio desse caminho, Gilvan se deu conta de como a atuação no mercado financeiro é capaz de promover ascensão social e econômica, independentemente da renda ou da formação, mas que muita gente não sabe disso. “Percebi que faltava esse conhecimento nos jovens, adultos, empresas, escolas e até nas universidades”, diz. “Comecei a rabiscar uma ideia num guardanapo, que acabou se transformando em uma página no Facebook com informações sobre o setor. O meu propósito é democratizar o acesso ao mercado de capitais.”

    Da rede social, Gilvan fundou, há um ano, a Financier Educação, da qual é CEO. “Comecei com turmas presenciais em locais com renda per capita e índice de desenvolvimento humano (IDH) baixo. Já são mais de 40 turmas e 1.000 alunos impactados. O objetivo principal é levar mais agentes econômicos para o mercado de capitais brasileiro, seja como educadores, investidores ou stakeholders”, diz.

    Hoje, aos 39 anos, Gilvan reconhece que não foi fácil. “Meu maior desafio foi conviver com profissionais altamente competitivos e com uma formação acadêmica muito acima da minha”, diz o empreendedor, que estudou em escolas públicas a vida toda e cursou a universidade graças aos empréstimos estudantis do governo. “Pode parecer uma competição desleal, mas eu sempre procurei reduzir essa diferença com muito esforço, determinação e persistência. Isso acabou atraindo a admiração de muitas pessoas, que foram determinantes para me permitir chegar até aqui”, diz.

    Gilvan, que também é membro do comitê de investimentos do Fundo Baobá e do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro, está agora em busca de investimentos que permitam à Financier ganhar escala e expandir sua atuação. Na empreitada, conta com o apoio do amigo e mentor Oscar Decotelli, CEO da DXA Investments. “Meu objetivo, no longo prazo, é construir uma educação empreendedora de qualidade e ver cada vez mais pessoas como eu no mercado de capitais. Assim, acredito que iremos deixar um legado para as novas gerações.”

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  • Leandro Dias, Akintec

    Assim como o economista e cientista austríaco Joseph Schumpeter, Leandro também acha que toda inovação nasce da destruição criativa. “A pandemia nos mostrou que a tecnologia é um meio vital para a nossa sustentabilidade”, diz o jovem paulista de 32 anos recém-completados que atualmente está à frente da Akintec, startup de tecnologia que oferece empréstimos às classes C, D e E graças a um sistema de modelagem de risco de crédito que oferece propostas personalizadas para cada cliente. A plataforma atua, ainda, como banco digital e varejo.

    A empresa foi criada em 2019, logo após a troca de governo. “Com o avanço das legislações no Banco Central para temas como microcrédito e open banking, percebi que nascia a oportunidade para resolver alguns problemas da periferia”, diz ele, referindo-se principalmente à informalidade provocada pelas altas tarifas das instituições financeiras e à falta de crédito e consequente limitação de crescimento dos negócios, resultado justamente dessa informalidade. Ou seja, uma bola de neve.

    “Foi aí que surgiu a Akintec. Resolvi criar uma plataforma para oferecer saques, depósitos e serviços financeiros de baixo custo com o nosso gerenciador de transações em blockchain”, explica ele. “Conosco, os pequenos comércios tornam-se agências e moradores das periferias economizam quilos de CO2 para chegar até um banco.”

    Antes de empreender, Leandro, que é formado em Administração, Economia e Engenharia da Computação trabalhou com análise de crédito em diversas comunidades da capital paulista, foi consultor de dezenas de projetos de desenvolvimento econômico e lecionou durante cinco anos no ensino superior. “Agora, o meu objetivo é ser, em cinco anos, o melhor gerenciador de informações financeiras do planeta”, diz.

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  • Tiago Santos, Husky

    A educação foi um forte propulsor na vida de Tiago, algo que veio de dentro de cada. A mãe defendeu uma tese de mestrado que comprovava que a educação é capaz de transformar a vida de professores universitários negros. “Isso me influenciou e acabei investindo pesado na minha formação, até hoje”, conta o empreendedor de 37 anos.

    Formado em Ciências da Computação, Tiago trabalhou como engenheiro de software por uma década, com passagens pelo Centro de Pesquisas Avançadas Wernher Von Braun, na IBM, e pela startup norte-americana MustHaveMenus.com. Também deu aulas de inteligência artificial e teoria da computação na PUC Campinas. “Sempre gostei de inovação, mas foi necessário testar vários formatos até encontrar um no qual me encaixaria. Fiz mestrado na Unicamp, escrevi artigos técnico-científicos, livros técnicos [Tiago é coautor de quatro livros sobre computação aplicada publicados nos Estados Unidos] e desenvolvi patentes [tem mais de 15 registradas nos EUA, China e França). Até que encontrei as startups”, diz.

    Fascinado pelo modelo de negócios, Tiago passou a trabalhar em uma atrás da outra. “Foram seis, e aprendi muito”, conta. Até que, em 2014, morando em São Paulo e prestando serviço remotamente para os Estados Unidos, começou a encontrar dificuldades para receber seus pagamentos, que eram feitos a cada 15 dias. “A burocracia era imensa. Demorava semanas para conseguir receber um pagamento, e muito tempo perdido indo em banco, ligando, mandando documentos.”

    Assim nasceu, em 2016, a Husky, uma parceria de Tiago, que passou a ocupar o cargo de CEO, com Maurício Carvalho, CTO. “A ideia era facilitar a nossa vida e a de outras pessoas que sofriam do mesmo problema”, conta o empreendedor que, para isso, criou um aplicativo que faz a transferência de dinheiro entre países do exterior e o Brasil de forma simples, no mesmo dia, com taxas menores. Desde a sua fundação, a startup já movimentou cerca de R$ 200 milhões para 6.000 clientes – 2.000 deles ativos. No ano passado, o faturamento foi de R$ 1,7 milhão. A expectativa para 2020 é fechar o ano com R$ 4 milhões.

    Questionado sobre as dificuldades enfrentadas ao longo do caminho, Tiago diz que tem sido treinado a conviver num segmento da sociedade em que sempre foi um dos poucos representantes negros. No ensino médio técnico cursado em escola pública, eram três ou quatro numa sala de 30. Na faculdade – também pública – era o único. “Trabalhei num departamento de elite tecnológica da IBM que, de 80 engenheiros, éramos três ou quatro – e menos de 10 mulheres”, lembra. “Mas a educação que os meus pais me deram fez com que eu me enxergasse como igual. E, nos episódios de racismo – velados ou não –, eu percebi que a pessoa que agia assim era quem realmente precisava de ajuda.”

    Claro que houve entraves de ordem técnica. “Quando eu comecei o mestrado na Unicamp, por exemplo, logo após a graduação, eu não falava inglês. E quase todos os meus colegas, egressos das melhores escolas do país, já eram fluentes em dois ou três idiomas. Além disso, a diferença de conhecimento entre estudantes que cursam uma faculdade de elite e pessoas como eu, de universidades periféricas, é gritante. Cada diferença dessas leva uma década para ser neutralizada”, acredita.

    Esse gap, no entanto, não foi suficiente para fazer Tiago desistir. Pelo contrário: a meta agora é expandir. E não só nos negócios. “Meu objetivo é me desenvolver como uma liderança que potencializa aqueles que me cercam.”

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  • Vitor Navarro, Olivia

    O paulista Vitor Navarro, de 32 anos, atribui sua trajetória profissional a duas características básicas: a curiosidade e o empenho, ambos estimulados pelos pais desde cedo. “Eles sempre consideraram o estudo parte integral do crescimento de seus três filhos e, por isso, incentivaram essas duas características como parte do nosso aprendizado, nas mais variadas formas e assuntos”, conta.

    Como a família era simples, esse incentivo acontecia mais com criatividade do que com recursos que, necessariamente, envolviam custos. “Somado a isso, fui inserido no contexto tecnológico desde cedo. Acabei decidindo pela Ciência da Computação como carreira, pois na época não existiam cursos para desenvolvimento de jogos e eu não tinha condições de estudar em outro país.”

    Vitor conta que dependeu muito do esforço dos pais até que pudesse começar a seguir sua própria trajetória. “Meu pai é projetista de peças automotivas e minha mãe é técnica em edificações. Ambos fizeram tudo que podiam tanto para se manter como nos dar uma vida digna e a possibilidade de estudar”, diz, creditando parte de seu sucesso também ao apoio de alguns professores que encontrou pelo caminho.

    Ainda no início da faculdade, cursada no Senac, começou a trabalhar no setor. Passou por empresas de tecnologia e startups, nas áreas de web, games e mobile, ao mesmo tempo em que investia no conhecimento em forma de T – com amplitude e profundidade, o que incluiu uma pós graduação em desenvolvimento de jogos – e nas soft skills. Nessa jornada de 13 anos, Vitor ainda deu aulas, fez palestrar e tentou até abrir uma empresa em 2018.

    No ano passado, foi convidado a trabalhar como desenvolvedor iOS na Olivia, fintech que criou uma assistente financeira pessoal que funciona com inteligência artificial. “Meu trabalho está relacionado a melhorar a vida das pessoas financeiramente, fazendo com que elas sejam capazes de economizar seu dinheiro. Para isso, aplicamos diversas camadas de inteligência nos dados financeiros dos usuários e fornecemos feedbacks por meio dos resultados que obtemos. Além da tecnologia, usamos especialistas de comunicação e finanças para conseguirmos o melhor resultado”, explica.

    Em retrospectiva, Vitor lembra das dificuldades encontradas pelo caminho. Apesar do apoio familiar – fundamental para o seu desenvolvimento –, não dá para fingir que elas não existiram. A começar pelo ensino público e sua abissal defasagem em relação à educação privada. “Outra dificuldade foi a pressão. Para acompanhar a evolução de outros profissionais, eu precisei consumir uma parte do meu dia para além do trabalho, sem contar as horas extras e os prazos por várias vezes apertados, com horas de estudos e projetos paralelos, razão pela qual minha vida social e saúde foram prejudicadas por anos”, revela

    Vitor reconhece que o fato de ser homem lhe deu algum privilégio com relação ao gênero. “No entanto, precisei ‘superar’ a questão da minha cor através da minha capacidade profissional, até chegar ao ponto em que ela fosse ignorada ou relevada.”

    Ele cita, ainda, as dificuldades encontradas em alguns lugares envolvendo a perspectiva do próprio trabalho em si. “Para mim, o profissional é o que há de mais importante dentro de uma instituição, uma vez que ele é quem produz o valor da empresa. Eu busco sempre melhorar a qualidade da vida do time, luto pela igualdade de gênero e de raça. Mas, em alguns lugares por onde passei, isso não era visto com bons olhos e houve algumas discordâncias. Felizmente, isso mudou. Aqui tenho abertura e apoio para agir dessa forma”, conta.
    Sobre o futuro, Vitor tem dificuldades de falar, já que tem muitos objetivos ainda a atingir. “Mas, para ficar em apenas um, eu gostaria de poder impactar e melhorar cada vez mais a vida das pessoas, principalmente dos mais periféricos, através da tecnologia.”

    Divulgação/Forbes

Bia Santos, Barkus Educacional

O envolvimento de Bia Santos com as finanças começou cedo, ainda na escola. Durante o ensino médio, a jovem carioca desenvolveu um projeto de iniciação científica que exigiu uma pesquisa sobre o comportamento do consumidor jovem. “No meio desse processo, a educação financeira surgiu como uma solução para o problema do consumismo e da falta de planejamento da nossa geração. Na época, existiam pouquíssimos trabalhos voltados para o público jovem, com uma linguagem mais leve, divertida e prática, que não fosse resumida a matemática financeira”, lembra ela, que, aos 16 anos, passou a fazer a “tradução” do economês dos livros para os amigos da mesma idade.

A experiência, diz Bia, foi extremamente importante para conquistar uma vida financeira equilibrada na fase adulta, mesmo vindo de uma família com poucos recursos financeiros. Após concluir a faculdade de Administração pela URFJ e estagiar na Escola de Educação Financeira do Rioprevidência, decidiu criar, em 2016, a Barkus. “O objetivo é ajudar outras pessoas como eu na organização e planejamento financeiro, utilização do crédito de forma saudável e, principalmente, a começar a investir.”

Hoje, a Barkus promove diversas iniciativas voltadas para o público adulto, mas o foco sempre foi desenvolver metodologias de aprendizagem para escolas, com foco em crianças e adolescentes do ensino fundamental e médio. “Se todos nós tivéssemos acesso à educação financeira desde o ensino básico, muitos dos problemas que enfrentamos na vida adulta não existiriam.”

Claro que nem tudo são flores. “Foi difícil empreender aos 20 anos em uma área de conhecimento bastante elitista e com pouca representatividade negra e feminina. Sempre levantei a bandeira da educação e, principalmente, de uma educação acessível, que abraça as particularidades das pessoas que não têm dinheiro sobrando e que não poderiam pagar um curso caro para aprender a investir. É necessário democratizar o mundo dos investimentos e é bastante incômodo ser, até hoje, uma das poucas pessoas negras à frente de empresas que trabalham com o tema. Como comecei muito nova, foi difícil entender o funcionamento do mercado, entrar em contato com as primeiras empresas e ser levada a sério”, lembra.

Mesmo sem nunca ter recebido investimento de nenhum tipo, a Barkus é um negócio sustentável que já atendeu 8.000 pessoas. Aos 24 anos e cursando uma pós em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira, Bia diz que ela própria é um exemplo de como a educação financeira pode transformar a vida das pessoas.

Durante a faculdade, seu sonho era fazer um intercâmbio e viajar por vários países. “Comecei a juntar dinheiro, com apoio da minha mãe, desde o primeiro período. Trabalhava e estudava. No terceiro ano, realizei meu sonho e fiz graduação sanduíche na Universidade do Porto, em Portugal, onde passei seis meses. Em 2017, conheci meu 20º país. A educação financeira, junto ao apoio familiar, me ajudou a planejar e concretizar esses sonhos.”

Seu principal objetivo é que, um dia, as crianças comecem a ter contato com a educação financeira já na escola. “Esse conhecimento é imprescindível para a melhoria das próximas gerações e para a diminuição das desigualdades do nosso país. A chave está na educação”, diz ela, sem esquecer da inovação.

“Inovar é buscar e concretizar diferentes soluções para os problemas que já existem – e para os que ainda vão surgir. Não existe inovação sem diversidade, seja de experiências, de pontos de vista, de tecnologias ou de áreas de conhecimento. Quanto mais diverso, mais inovador e mais revolucionário.”

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