A loja única com marca única que mais vende delivery no Brasil no iFood nasceu da trajetória de empreendedorismo um retirante nordestino.
Quase 50 anos depois da fundação, a Esfiha Imigrantes, operação familiar criada por Olívio Bezzerra de Mello, se transformou em uma potência logística que soma mais de 70 mil pedidos mensais e vende centenas de milhares esfihas de carne por mês.
Agora sob comando da terceira geração da família, a rede paulista prepara uma nova fase de expansão, com abertura da quinta unidade no bairro dos Jardins em São Paulo e plano de chegar a 10 lojas até 2031.
“Meu avô saiu de Pernambuco em um pau de arara”, conta o neto de Olívio, Filipe Mello, hoje CEO da empresa, referindo-se aos caminhões com bancos improvisados cobertos por lona e que transportaram milhares de migrantes do Nordeste para o Sudeste entre as décadas de 1930 a 1950.
Como a grande maioria dos retirantes, Olívio Bezzerra de Mello, falecido em 2025 aos 93 anos, veio a São Paulo em busca de uma vida melhor. Sem dinheiro, trabalhou como feirante, foi caseiro de sítio e passou anos tentando prosperar até entrar no ramo da alimentação em 1976, ao lado de sócios libaneses, em uma pequena operação na antiga Rodovia dos Imigrantes, atual Avenida Ricardo Jafet.
Na época, a culinária árabe ainda ocupava um espaço tímido em São Paulo. O cardápio era enxuto, a operação pequena e o público formado principalmente por pessoas que seguiam rumo ao litoral. O nome nasceu justamente dali: Esfiha Imigrantes.
Décadas depois, o pequeno negócio familiar virou uma potência de delivery. Hoje, a unidade da Ricardo Jafet é, segundo o iFood, “a loja única com marca única que mais vende delivery no Brasil”, com cerca de 38 mil pedidos mensais. Os números impressionam: são mais de 300 mil esfihas de carne vendidas mensalmente, além de cerca de 200 mil esfihas de mussarela e até 90 mil quibes fritos por mês.
As lições e o legado do fundador
Apesar do crescimento, a história de vida do avô sempre manteve os pés da família no chão. “Meu avô sempre fez questão de enfatizar que o mundo não era aquilo que a gente vivia”, conta Filipe Mello, representante da terceira geração da família. “A gente cresceu numa condição boa porque ele trabalhou demais para isso.”
Filipe cresceu praticamente dentro da loja. Segundo ele, existe foto sua com seis meses de idade na Esfiha Imigrantes. Na infância, o avô o levava para os treinos de futebol, acompanhava sua rotina e repetia constantemente lições sobre trabalho e humildade.
“Meu avô dizia que eu aprenderia muito mais dentro da Esfiha Imigrantes do que em quatro ou cinco anos de faculdade”, afirma.
A filosofia da família sempre girou em torno da sobrevivência financeira. Em um Brasil marcado por hiperinflação, planos econômicos e instabilidade, Olívio transmitiu ao filho e depois ao neto uma obsessão por caixa.
Segundo Filipe, o avô dizia que o período mais difícil da empresa foi a hiperinflação após a ditadura militar, quando os preços mudavam praticamente no mesmo dia e o restaurante precisava se adaptar constantemente para continuar funcionando. “Meu pai sempre fala sobre fazer caixa e pensar na riqueza da empresa, não na riqueza pessoal”, conta Filipe.
Hoje, o pai, Jorge Bezerra de Mello, ocupa a diretoria financeira da companhia. Filipe atua como CEO. Segundo ele, os dois representam perfis diferentes dentro da gestão da empresa. “Eles sempre foram muito conservadores. Eu já tenho um perfil mais expansionista, mais empreendedor”, afirma.
A sucessão na liderança
Antes de assumir o negócio da família, porém, Filipe tentou construir carreira no futebol profissional. Saiu de casa aos 16 anos, morou em alojamentos, passou por clubes no Guarujá, Espanha e Portugal e viveu quase dez anos tentando chegar à primeira divisão.
“Com 16 anos eu fui morar embaixo de arquibancada no Guarujá, dividindo um banheiro com outros 19 garotos”, relembra.
Segundo ele, o futebol mudou completamente sua visão de mundo. A experiência de morar longe da família e conviver com realidades diferentes ajudou a desenvolver empatia, algo que ele diz carregar até hoje na relação com os funcionários da empresa, muitos deles nordestinos, assim como o avô.
“Morar longe de casa me trouxe muita empatia”, afirma. O retorno ao Brasil aconteceu em 2019. Já casado, vivendo em Portugal e prestes a iniciar mais uma temporada no futebol europeu, Filipe decidiu abandonar a carreira. “Cheguei do treino e falei para a minha esposa: ‘quero parar de jogar’”, conta.
A volta para a empresa da família veio acompanhada de um choque de realidade. “Meu pai falou: ‘você vai começar ganhando R$ 2 mil para conhecer toda a operação’”, relembra.
Naquele momento, a Esfiha Imigrantes ainda tinha apenas uma unidade e o delivery era praticamente secundário. A operação fazia entre 4,5 mil e 5 mil pedidos por mês, sem grande preocupação com embalagem, tempo de entrega ou experiência logística. Poucos meses depois veio a pandemia e a maior virada da história da companhia.
A virada do delivery
“Até então, o delivery era meio deixado de lado”, diz Filipe. “Não existia foco em rapidez, embalagem ou experiência logística”, conta o CEO.
Foi nesse período que ele começou a estudar gestão de restaurantes, CMV (custo da mercadoria vendida), eficiência operacional e estrutura financeira para ajudar o pai, que enfrentava redução nas margens da empresa. “Eu via meu pai sofrendo muito com redução de margem”, afirma.
Ao mesmo tempo, Filipe identificou uma mudança tributária envolvendo o enquadramento fiscal de um produto, revisão que, segundo ele, reduziu em aproximadamente R$ 100 mil mensais o pagamento de impostos da empresa.
“Foi uma mini revolução dentro da empresa”, afirma. Com a pandemia, o delivery deixou de ser complementar e virou prioridade estratégica. Em 2020, em plena crise sanitária, a empresa abriu uma dark kitchen na Lapa, movimento que encontrou resistência dentro da própria família.
“Meu pai ficou relutante no começo”, conta Filipe. A aposta deu certo. A unidade começou fazendo entre 5 mil e 6 mil pedidos mensais logo após a inauguração.
“Sou grato pelas dificuldades. Em uma época de dispensas, a gente preservou funcionários, realocou pessoas e continuou contratando”, afirma.
Depois vieram as unidades do Tatuapé e de São Bernardo do Campo, enquanto a empresa investia pesado em logística, digitalização, cozinha industrial e redes sociais. “Foi aí que tivemos noção real da potência da marca”, diz.
Hoje, o delivery representa até 70% das vendas nas filiais da rede. Na unidade de São Bernardo, a divisão entre salão e entregas está próxima de 50% para cada canal.
Os pratos preferidos da família
Mesmo com a expansão acelerada, alguns rituais seguem praticamente intactos dentro da família. Filipe diz que alterna sabores preferidos, mas admite que a esfiha de carne ainda ocupa um lugar especial.
“Quando eu volto de férias, a primeira coisa que eu quero comer é a esfiha de carne. Eu mordo e entendo porque ela vende tanto”, afirma.
As lembranças da infância também aparecem nos sabores. “Frango com queijo e catupiry me lembra muito minha infância”, conta. Já o pai mantém um ritual diário pouco conhecido dos clientes.
“Todos os dias, às 15h, meu pai toma coalhada fresca batida com doce árabe”, diz Filipe. O prato preferido do avô era arroz com lentilha, coalhada seca e charuto de uva.
Novo ciclo de expansão
Agora, a empresa passa por um novo ciclo de expansão. A quinta unidade da rede será inaugurada nesta semana na Rua Pamplona, nos Jardins, com foco estratégico em delivery para regiões como Itaim Bibi e Pinheiros.
Segundo Filipe, a nova operação foi desenhada para aliviar o gargalo da matriz, que frequentemente precisa limitar pedidos em horários de pico para suportar a demanda. “Toda sexta-feira e sábado a gente chega a fechar alguns minutos nas plataformas para conseguir atender todo mundo”, afirma.
Ao mesmo tempo, a empresa passa por uma reestruturação da cozinha central para suportar a abertura de pelo menos mais seis unidades nos próximos anos. O plano é chegar a 10 lojas até 2031.
Em um setor conhecido pela alta mortalidade de restaurantes, a Esfiha Imigrantes tenta crescer apoiada em uma combinação rara: memória familiar, disciplina financeira e uma operação quase industrial de delivery construída em cima de uma esfiharia aberta há quase 50 anos na beira do caminho para a praia.