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Daniel Aratangy registra com suas lentes a beleza extraordinária do litoral do Sudeste brasileiro

Fotógrafo encontrou na marcha lenta das remadas do stand up paddle o ritmo ideal para se encantar com praias pouco conhecidas

7 min
Daniel Aratangy
Daniel AratangyFotografia tirada por Daniel Aratangy na Praia da Lagoa, em Ubatuba (SP)

Nascido em Boston (EUA), Daniel, de 42 anos, veio ao Brasil ainda bebê e passou quatro anos em São José dos Campos (SP), antes de se fixar na capital do estado. Nos Estados Unidos, seu pai Moysés Aron Pluciennik (1950-2020), capa da Forbes EUA em maio de 2000, de ascendência de judeus poloneses, estudou administração no MIT; a mãe, Ana Maria Aratangy Pluciennik, também de raízes europeias, fez saúde pública em Harvard. A relação da família com o litoral norte começou no início da década de 1970, quando a avó Anita comprou um terreno na Praia Vermelha do Sul, também conhecida como Praia dos Arquitetos, graças às residências ajardinadas e de belos traços, um dos brincos muito bem preservados em Ubatuba até hoje. Daniel cresceu desfrutando de fins de semana e férias no local – até que tirou carteira de motorista e passou a explorar os arredores.

Forbes: Quais são as principais memórias que tem da infância?

Daniel Aratangy: Uma das lembranças mais antigas é a de velejar com meu pai. Ele tinha um dingue, um barco à vela, pouco maior que minha prancha de stand up paddle. Apesar de ser projetado para levar duas pessoas, íamos em seis: eu, meus três irmãos, meu pai e minha mãe. Claro que o veleiro mal saía do lugar: ficávamos mais à deriva do que navegando. O lugar que mais visitávamos com o veleiro era uma praia que meu pai chamava de Praia do Tesouro. Dizia que um pirata havia escondido um tesouro ali. E eu acreditava. Quando nasceram meus sobrinhos, a brincadeira ficou ainda mais realista. Meu pai enterrou um baú cheio de bijuterias na areia, desenhou um mapa que colocou dentro de uma garrafa e fez meus sobrinhos o acharem. Foram navegando até a prainha e lá desenterraram o tesouro. Infelizmente, não deu tempo de ele fazer essa brincadeira com meus filhos [os gêmeos Raul e Teresa, de 5 anos]. Por isso, não importa que os mapas digam que essa praia se chama Prainha. Para mim, vai ser sempre a Praia do Tesouro.

F: Como surgiu o interesse por fotografia? Qual equipamento usa?

DA: Meu pai começou a me ensinar técnicas de laboratório preto e branco. Ele montava o ampliador, cronômetro, luz vermelha e bacias com os químicos no banheiro de casa. Eu ficava fascinado com a imagem aparecendo no papel dentro do líquido. Parecia mágica. Passei uma parte da adolescência fotografando à tarde as ruas de São Paulo e ampliando as fotos à noite, no banheiro de casa. Acabei virando fotógrafo profissional. Uso equipamento Nikon Z7 [lente zoom 28-70 mm], Gopro e drone DJI, que uso muito para as fotos de natureza.

F: Quando começou a remar de SUP?

DA: Em 2013. Eu achava que era coisa de tiozão [risos], mas minha ex-mulher tinha certeza de que eu ia amar. Falou para comprar a prancha antes mesmo de experimentar – e foi o que fiz. Na primeira vez que subi na prancha, foi como uma revelação, uma epifania, uma sensação difícil de descrever. Percebi que tinha achado o esporte da minha vida.

F: O que mais te encanta nessa prática?

DA: Gosto do ritmo lento. Por mais rápido que se reme, sempre vai ser mais devagar que um barco. É a velocidade perfeita para curtir o visual, vendo cada árvore, pedra, tartaruga e golfinho no caminho. É como fazer uma trilha, só que no mar. Então, comecei a procurar na internet relatos e mapas de travessias, com dicas que me ajudassem a saber como chegar a uma praia, ventos da região e assim por diante. Como não achei nada, comecei o blog. Nele, relato minhas travessias e muita gente procura informações lá.

F: Quais são suas três praias favoritas entre o litoral norte de São Paulo e o sul do Rio de Janeiro?

DA: Praia do Puruba [Ubatuba]: foi a primeira praia selvagem que conheci. A chegada é por uma estrada de terra e ali vive uma pequena comunidade caiçara. É um dos últimos lugares em que os moradores locais não foram jogados para o sertão. A praia faz parte do Parque Estadual da Serra do Mar. Nada pode ser derrubado sem autorização. Outra coisa linda é o desenho do Rio Puruba, que chega na ponta esquerda da praia, mas só deságua na ponta direita. Ele corre paralelo à faixa de areia. A segunda é Martim de Sá [Paraty], uma das praias mais isoladas do Brasil, na Reserva Ecológica Estadual da Juatinga. Ali, mora uma única família que toma conta de um pequeno camping e produz canoas caiçaras, como se fazia há 500 anos. Até hoje, a travessia que fiz para alcançá-la foi a mais difícil da minha vida. Enfrentei ventos fortíssimos contra e ondas grandes. A prancha virou algumas vezes, mesmo eu remando ajoelhado. A terceira é Praia da Parnaioca [Ilha Grande], também isolada e difícil de chegar: tive que remar 30 quilômetros, atravessando quase toda a parte aberta para o oceano. A única construção que dá para ver do alto é uma pequena igreja e seu cemitério anexo. A sensação é de estar no meio da natureza selvagem.

F: Já se viu em apuros no mar?

DA: Nada que sentisse a vida ameaçada, mas já perdi dois celulares e uma GoPro no fundo do oceano. Uma vez, em Fernando de Noronha [PE], estava voltando de uma travessia quando uma grande tempestade se formou. Fiquei com medo de ser atingido por um raio e resolvi pedir carona para os barcos que voltavam dos passeios com turistas. O primeiro me ignorou; o segundo fez uma volta e me resgatou. Os turistas bebiam champanhe, estavam bem animados e logo me apelidaram de Wilson, em homenagem ao filme “O Náufrago”.

F: Já remou no exterior?

DA: Sim, remei do Canadá aos Estados Unidos, atravessando o Rio St. Lawrence. Também atravessei de Nova York a Nova Jersey; remei com leões marinhos e tubarões em Galápagos [Equador] e pelos canais de Amsterdã [Holanda].

F: Como remar ajuda a sobreviver à pandemia?

DA: Remar desestressa demais. Às vezes, ajuda a concentrar em questões que estão na cabeça e, outras vezes, faz a cabeça viajar para longe. O movimento repetitivo do corpo na remada tem um efeito quase hipnótico, provocando um transe difícil de conseguir de outra maneira. Este mês [abril] entrei em uma sociedade e virei empresário da marca Gaya, roupas femininas para esportes no mar.

Veja algumas fotografias tiradas por Daniel Aratangy:

Reportagem publicada na edição 86, lançada em abril 2021

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