A Arábia Saudita pretende se tornar um destino turístico global. O objetivo declarado do país é ter “o setor de turismo líder mundial, promovendo o maior impacto sustentável”. A Visão 2030 prevê 150 milhões de visitas (a meta anterior era de 100 milhões – já alcançada) e mais de 1,6 milhão de oportunidades de emprego.
Em 2024, o Reino da Arábia Saudita (KSA, na sigla em inglês) recebeu 30 milhões de visitantes internacionais, que gastaram US$ 41 bilhões (R$ 246 bilhões). Mais de US$ 800 bilhões (R$ 4,8 trilhões) estão sendo investidos, em inúmeras iniciativas. Entre elas, todos os grandes grupos hoteleiros, de Marriott e Hilton a IHG, Accor, Hyatt, e marcas de luxo como Mandarin Oriental, Rosewood e Aman, têm diversos projetos cobrindo uma ampla variedade de experiências. Novos aeroportos, novas companhias aéreas e linhas ferroviárias de alta velocidade também estão estão sendo construídos.
A previsão é que o PIB proveniente do turismo cresça de 3% em 2019 para 10%. Cidadãos de mais de 60 países agora podem obter vistos online ou na chegada, o que facilita a entrada no país.
No primeiro semestre, a Arábia Saudita abriu voos domésticos de jatos particulares para operadores estrangeiros. A medida pode aumentar o número de visitantes de alta renda, que costumam influenciar outros indivíduos do mesmo perfil.
Segundo Edie Rodriguez, executiva veterana da indústria de turismo e ex-integrante do conselho da Autoridade de Turismo Saudita, “a evolução do setor de turismo e do desenvolvimento cultural feita pela Arábia Saudita nos últimos sete anos para viabilizar a Visão 2030 é surpreendente”. Ela afirma ainda que “os esforços devem se tornar um novo parâmetro global para o desenvolvimento do turismo e uma futura série de estudos de caso da Universidade Harvard”.
A região de Diriyah é um dos principais megaprojetos da Arábia Saudita, combinando história, cultura e entretenimento. A aposta de US$ 64 bilhões planeja montar uma espécie de “cidade estilo Florença” no meio da capital Riade, mas com a aparência de 300 anos atrás.
Quem conta esses detalhes é Jerry Inzerillo, CEO do grupo Diriyah Gate Company Limited, um dos principais desenvolvedores da região -. Ele falou recentemente com a Forbes sobre turismo e planos para o futuro. Confira:
Forbes: Em que Diriyah se diferencia de outros megaprojetos em andamento?
Inzerillo: Todos conhecem Beverly Hills, que faz parte da região metropolitana de Los Angeles, mas tem códigos urbanísticos próprios e uma identidade própria. Beverly Hills tem 14,7 milhões de metros quadrados (5,2 milhas quadradas). Diriyah está localizada no centro da região metropolitana de Riade, uma cidade do G20 que passará de 8 para 12 milhões de habitantes com um novo plano diretor.
Diriyah tem o mesmo tamanho de Beverly Hills, mas é ancorada por um Sítio do Patrimônio Mundial da Unesco (um dos oito no país), onde o Reino teve início há 300 anos e onde a Casa de Al Saud foi formada. Com o apoio do rei Salman e do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, foram destinados US$ 64 bilhões para a construção de um plano diretor turístico, habitável, ecológico, caminhável, no estilo de Florença, na Itália, no meio de Riad, mas com a aparência de 300 anos atrás, utilizando cores e materiais como barro, madeira e pedra.
Pode explicar melhor a dimensão de Diriyah?
A expectativa é atrair 27 milhões de turistas. Estão sendo construídos 42 novos hotéis; o primeiro, Bab Samhan Hotel, já está em funcionamento e com bom desempenho — todos de marcas de luxo. Mais de 200 restaurantes e mais de mil lojas de varejo serão construídas até 2030, além de nove museus, incluindo o da Casa de Al Saud. Estima-se um ecossistema com 100 mil pessoas, além dos turistas.
Haverá moradores? Espaços comerciais?
Sim. Serão 100 milhões de metros quadrados de escritórios e 30 mil moradores. Será possível viver, trabalhar e se divertir no mesmo local. A diferença é que a altura dos prédios será limitada a seis andares. A proposta é que tenha a aparência de Florença.
E quanto a outros projetos no país?
Atualmente, há cerca de 30 projetos principais. O Egito é conhecido pelo Mar Vermelho e Sharm El Sheikh, mas detém 21% do Mar Vermelho. Poucos sabem que a Arábia Saudita controla 45% do Mar Vermelho, que abriga o maior recife de coral vivo do mundo. Essa área nunca havia sido utilizada. Agora, está sendo desenvolvida como destino de praia. A cidade de Jeddah, na costa do Mar Vermelho, deve se tornar a “Miami” do país. Já Diriyah e Riad, no centro, seriam equivalentes a Nova York e Washington, DC.
O que o governo tem feito para atrair mais investidores estrangeiros?
Houve uma grande mudança na legislação, que entra em vigor neste ano. É uma transformação significativa. Uma das alterações mais importantes é que, a partir de 2025, estrangeiros poderão alugar, arrendar ou comprar qualquer residência. Atualmente, estrangeiros já podem ser donos de qualquer negócio no país sem precisar de um sócio saudita.
E quanto aos equívocos sobre o turismo na Arábia Saudita?
Se fosse possível criar uma equação sobre a imagem de um país em comparação com o funcionamento da sua sociedade, a Arábia Saudita teria uma das maiores discrepâncias do mundo. Ninguém afirma que é injusto. Isso é conhecido. Nos grupos focais pós-visita, pergunta-se aos visitantes: “O que acharam agora que estiveram aqui?” E respondem: “Não imaginávamos que a Arábia Saudita fosse tão acolhedora. Não sabíamos que o país era tão bonito.”
Essa percepção é positiva, mas é necessário divulgá-la. Por isso, o turismo é tão relevante. Está mudando a imagem do país de forma acelerada. Outro fator de mudança é o retorno dos jovens sauditas, que estão otimistas. Estão presentes nas redes sociais. Com Instagram e Snapchat, é possível ver as paisagens. Minha equipe tem 3.200 pessoas. São 82% sauditas, 39% mulheres, das quais 16% ocupam cargos de gestão. A idade média da equipe é de 31 anos.
Em muitos países ocidentais, lazer ou eventos de negócios costumam incluir bebidas alcoólicas. O fato de o país não permitir consumo de álcool interfere nas metas turísticas?
Descobrimos algo por acaso que nos surpreendeu. Além de ser CEO de Diriyah, também faço parte do conselho de turismo da Arábia Saudita. Quando entrevistamos pessoas que nunca visitaram o país sobre o que gostariam de encontrar, o álcool aparece entre os 10 itens principais. No entanto, nas entrevistas após a visita, não está entre os cinco primeiros — nem entre os dez.
Nos últimos cinco anos, sediamos mais de 100 eventos internacionais sem álcool, e ninguém sentiu falta. As pessoas têm aproveitado as experiências. A lei é essa no momento. Não é possível prever o futuro, mas, por ora, a ausência de bebidas alcoólicas não tem sido uma barreira. Isso tem surpreendido.