Há mais de 40 anos conhecido por suas contribuições ao carnaval de Salvador, sua terra natal, o artista plástico, carnavalesco, designer de tecidos e serígrafo, Alberto Pitta, vive tríplice momento de glória.
Aqui no sul poucos sabem mas há décadas ele é um dos pilares do carnaval negro baiano. Pitta imprime seu ativismo socio-político de empoderamento das pessoas negras através de seus tecidos, fantasias multicoloridas e instalações que perpetuam a simbologia ancestral da cultura iorubá afro-brasileira.
É em seu ateliê, dentro de um terreiro de candomblé no bairro de Pirajá, onde fica guardado o acervo de quatro décadas de sua obra, incluindo suas fantasias de carnaval para a maior festa do ano, algumas delas expostas na instalação da Bienal. “Sempre fui atraído pelos carnavais, principalmente porque os vejo como espaços onde se constroem laços de amizade e comunidade. Viver em um bairro com tradição de terreiros de candomblé me permitiu o ato de criação”, menciona o artista com exposições em países como Alemanha, Angola, Estados Unidos, França, Inglaterra e Portugal.
O ateliê, espaço colorido por tecidos “berrantes”, como diz o amigo Gilberto Gil, foi reproduzido em forma de uma grande instalação na 36ª Bienal de São Paulo. Ao entrar na instalação, “O ateliê do artista na Bahia”, é perceptível que aquele é um lugar movido à vida em comunidade. Um lugar onde arte, educação, espiritualidade, música e cultura se encontram como instrumentos de vivências humanas e de troca de saberes reproduzidos em suas exuberantes criações têxteis ou panos como ele os chama.

O artista, que vem a ser filho da finada ialorixá Mãe Santinha de Oyá de quem herdou o interesse pelos trabalhos manuais, também está com sua primeira individual em nosso endereço na avenida Europa, “Àkùko, Eiyéle e Ekodidé – uma revoada de Alberto Pitta” com curadoria Galciani Neves. “A revoada de trabalhos de Alberto Pitta se inspira e, ao mesmo tempo, se origina de um lugar caracterizado, como narra Gilberto Gil em ‘Realce’, pelo senso de coletividade, onde as pessoas convivem e se reiteram em suas diversidades, onde fortalecem conexões entre si e entre as coisas boas da vida”, explica a jovem curadora.
O título da exposição refere-se aos nomes de três pássaros que aparecem com protagonismo nas telas do artista: Àkùko, Eiyéle e Ekodidé. Esses pássaros carregam consigo simbologias significativas para os ritos espirituais do candomblé, fundamentais para a cultura iorubá. Para a mostra, o artista revisitou arquivos de seus desenhos mais antigos, alguns datados de mais de trinta anos. Pitta tem um arquivo portentoso, impressionante. Ele mesmo confessa não jogar nada fora. São trabalhos que integraram ensaios para livros e que habitaram padronagens gráficas de carnavais passados.

Fechando a homenagem tríplice, fizemos o lançamento do livro “Alberto Pitta”, publicado pela Nara Roesler Books. Leia o que nele escreveu o artista Vik Muniz sobre o amigo de longa data:
Projeto Axé
“Conheci Pitta em Salvador, no fim do século passado, na residência artística internacional, A quietude da Terra, concebida pela curadora France Morin com o envolvimento do Projeto Axé, criado em 1990 como um centro
de defesa e proteção à criança em Salvador, no qual Pitta atuou como assessor da Coordenação de Cultura, Estética e Arte. (…) O humor e a generosidade de Pitta fizeram com que nos tornássemos amigos imediatamente. Como um recém-chegado a Salvador, vi Pitta como a aranha no centro da teia, aparentemente infinita, da complexa cultura da cidade. Um personagem quase folclórico do Pelourinho, de uma inquietude brilhante e incansável”.
Tradição e Liberdade
“Nos panos dos abadás, uniformes dos blocos afro e blocos de índios, sua linguagem se moldou, impregnada de referências ancestrais e desafiada pela multitude de propostas temáticas resultante da autonomia criativa dos carnavalescos. Pitta é protagonista e produto desse encantamento pleno de tradição, mas não vazio de liberdade”.

O Popular e o Erudito
“Sua pintura se alimenta diretamente da pesquisa e do trabalho com seus tecidos e eventos. Muito da nossa amizade de quase três décadas decorre desse importante discurso entre o museu e a rua. E, nessa equação, Pitta aparece sempre como a pecinha que faltava no quebra-cabeças do popular e do erudito”.
“Akùko, Eiyéle e Ekodidé – uma revoada de Alberto Pitta”
Até 20 de dezembro, 2025
Curadoria de Galciane Neves
Galeria Nara Roesler, São Paulo
Com colaboração de Cynthia Garcia, historiadora de arte, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) [email protected]
Nara Roesler fundou a Galeria Nara Roesler em 1989. Com a sociedade de seus filhos Alexandre e Daniel, a galeria em São Paulo, uma das mais expressivas do mercado, ampliou a atuação inaugurando filial no Rio de Janeiro, em 2014, e no ano seguinte em Nova York.
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