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Arte de Jonathas de Andrade em São Paulo, Londres e Roma

O artista alagoano está com individual em São Paulo, depois participa de coletiva no museu Victoria & Albert em Londres e fecha o ano com dois eventos em Roma

6 min

Quando cumprimentei Jonathas de Andrade com um “como vai?” na abertura de “Permanência Relâmpago”, sua primeira individual em nossa galeria de São Paulo, a resposta foi: “Adrenalina da felicidade!” Que frase linda, não? Não é para menos, até dezembro a obra deste multimídia conceitual que joga com fotografia, filme e instalação, e representou a arte brasileira na Biennale de Veneza de 2022, estará em Londres, em novembro, no museu Victoria & Albert, e fecha o ano em Roma, no Vaticano e no museu MACRO.

Além da individual, outras obras de “Permanência Relâmpago” estarão em Londres, em novembro, em coletiva internacional que, coincidentemente, abre na data de encerramento do evento em nossa galeria. A oportunidade veio de Catherine Troiano, curadora de fotografia do Victoria & Albert Photography Centre, que inaugurará “Photography Now”, mostra de longa duração com comissionamentos de novos artistas, entre os quais obras de Jonathas, que passarão a integrar o acervo do famoso museu conhecido como V&A. O evento contará com a presença do artista no debate e na estreia londrina de seu filme “Jangadeiros e Canoeiros” (2025, 15′). Até lá, o filme está em exibição em sala especial na nossa galeria.

Ano marcante em sua carreira, 2025 ainda levou a obra de Jonathas de Andrade a exposições no Japão, na França, na Alemanha e nos Estados Unidos, sem contar os dois eventos em Roma em dezembro.

Inspirado em dois grupos de trabalhadores das águas de Alagoas, “Permanência Relâmpago” é um projeto composto por três séries centradas em seu filme “Jangadeiros e canoeiros”, com trilha sonora de Homero Basílio. A primeira parte do filme é uma ode aos jangadeiros, com seus corpos musculosos pela labuta, rasgando a imensidão azul do mar em rudimentares jangadas de troncos com velas alvas, triangulares, impressas com anúncios que complementam o “peixe” nosso de cada dia e as velejadas com os turistas. Na segunda parte, os canoeiros do caudaloso Rio São Francisco, o Velho Chico, mostram destreza náutica em regatas às margens da Ilha do Ferro, oportunidade para também exibirem as majestosas velas gráficas, quadradas, ultra coloridas dos times das embarcações.

Flavio Freire/Cortesia do artista e Galeria Nara RoeslerJonathas de Andrade, Metaesquemas Canoeiros 1 – Azul, navegando Hélio Oiticica, 2025, serigrafia sobre MDF naval ed única – azul, 65x95cm

Esses grandes panos lambidos pelo vento inspiraram o artista a resgatar referências nos Metaesquemas de Helio Oiticica e nas cores do neoconcreto Ivan Serpa, fazendo assim nosso abstracionismo geométrico “navegar” em paralelo à rica cultura popular nordestina. Para alguns quadros na exposição, Jonathas coletou velas, velhas, descartadas pelos dois grupos de pescadores e emoldurou-as à maneira de bastidores de bordados – aqui uma homenagen às prendas femininas – e nelas imprimiu os rostos desses herois anônimos, com seus nomes no título, por exemplo, “Roleiro Cidinho e a vela do conhaque (série Jangadeiros alagoanos)”, fundindo assim o que mais ama: arte e cultura nordestina.

Seguem depoimentos de Jonathas de Andrade sobre sua vida, seus sonhos e esta importante mostra:

Força da coletividade + coreografia

“Nasci em Maceió e, desde cedo, me fascinava ver os jangadeiros reunidos para tirar o barco do mar — vencendo o peso da areia, da maré e do casco molhado, usando troncos de coqueiro como trilho, numa coreografia passada de geração em geração. Para mim, é uma imagem da força da coletividade, abraçada pelo torpor da maresia”.

Cortesia do artista e da Galeria Nara RoeslerStill de Jangadeiros e Canoeiros (2025, 15′), filme de Jonathas de Abdrade em exibicão na Galeria Nara Roesler São Paulo

Manifestações populares + abstração brasileira

“As velas da regata da ilha do Ferro me levaram aos Metaesquemas de Hélio Oiticica, e suas paletas me lembraram os quadros de Ivan Serpa. Percebi que eu estava diante de manifestações populares que ecoam a história da abstração brasileira”.

Pedagogia + cultura popular

“Nesse trabalho, a pedagogia é o aprendizado da cultura popular. Está em ouvir, olhar e partilhar através da arte essa sabedoria encarnada.Os jangadeiros e canoeiros carregam uma sabedoria prática e saberes ancestrais. É uma lição sobre coletividade, resistência e invenção estética”.

Cortesia do artista e da Galeria Nara RoeslerStill de Jangadeiros e Canoeiros (2025, 15′), filme de Jonathas de Andrade em exibição na Galeria Nara Roesler São Paulo

Homoerotismo + corpo coletivo

“Não sinto o homoerotismo tão presente aqui como em outros trabalhos, ainda que sejam comunidades majoritariamente formadas por homens. A centralidade está no corpo coletivo — no peso e contrapeso, na força compartilhada para mover um barco e navegar juntos. Há sensualidade nesses gestos, sim, mas ela se mistura à dimensão do esforço, da cor e do ritmo. É uma política do corpo coletivo”.

Jangadeiros e canoeiros

“Na filmagem me aproximei de jangadeiros que vivem há mais de 50 anos à beira do mar, como Paulão, e de lideranças natas como o roleiro Maurício. Conheci o jovem Josiel, jangadeiro de uns 20 anos que representa a nova geração que assume a tradição. Meus projetos me colocam em contato com pessoas e modos de vida que eu via de longe e elaborava poeticamente. São heróis anônimos que fazem da água sua morada e do vento sua companhia. Como traduzir o vento, a maresia, o peso da madeira e o esforço humano em imagens, serigrafias e instalações? Fazer arte me lança nessa aventura de negociação e convivência direta”.

Flavio Freire/Cortesia do artista e da Galeria Nara RoeslerVista parcial da individual Permanencia Relâmpago de Jonathas de Andrade

Jonathas de Andrade: Permanência Relâmpago

Curadoria de José Esparza Chong Cuy

Galeria Nara Roesler, São Paulo Até 15 de novembro, 2025

Photography Now

Curadoria de Catherine Troiano

V&A Photography Center, Londres

De 15 de novembro a início de 2027 (mostra de longa duração)

Com colaboração de Cynthia Garcia, historiadora de arte, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) [email protected]

Nara Roesler fundou a Galeria Nara Roesler em 1989. Com a sociedade de seus filhos Alexandre e Daniel, a galeria em São Paulo, uma das mais expressivas do mercado, ampliou a atuação inaugurando filial no Rio de Janeiro, em 2014, e no ano seguinte em Nova York.

[email protected]
Instagram: @galerianararoesler
http://www.nararoesler.com.br/

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