O ano de 2025 marca um ponto de virada na carreira de Gaten Matarazzo. Uma das estrelas centrais (e mais carismáticas) da série “Stranger Things”, da Netflix, o ator se prepara para a chegada da última temporada ao streaming. Mas ele não se preocupa com a possibilidade de não retornar às telas – ou aos palcos. Afinal, não é a primeira vez que ele se destaca em uma produção de grande porte.
Aos 10 anos, Gaten estrelou o musical “Os Miseráveis”, na Broadway, como o jovem Gavroche. Pouco depois, aos 13, ele foi escalado para viver Dustin Henderson na série que, de acordo com ele, mudou para sempre sua carreira. “O crescimento do Dustin e o meu estão completamente entrelaçados. Sempre vou carregar uma parte daquela série e daquele personagem comigo — para o bem ou para o mal — pelo resto da minha vida. Amei demais fazer parte disso”, afirmou em conversa com a Forbes Brasil.
Mas ser um rosto mundialmente reconhecido ainda na infância não traz só boas lembranças. O ator considera que teve que renunciar à boa parte de sua infância normal para dar vida aos personagens, tanto do teatro quanto das telas. E não apenas sua carreira foi repleta de desafios: aos 10 anos, Gaten foi diagnosticado com displasia cleidocraniana, uma condição genética rara que afeta o desenvolvimento de ossos e dentes. Aos 17 anos, ele passou por uma grande intervenção cirúrgica para tratar a doença, que o acompanha até os dias de hoje.
Em conversa exclusiva com a Forbes, Gaten – sempre com bom humor – contou sobre o início de sua carreira, o final da série que o acompanha há dez anos, como convive com sua condição genética e quais serão seus próximos passos.

Forbes: Você começou no teatro musical ainda criança, interpretando papéis emocionalmente exigentes, como o jovem Gavroche em Os Miseráveis. O que aquele palco te ensinou?
Gaten Matarazzo: Consistência. Ele me ensinou a cuidar de mim mesmo. A cuidar da minha voz e da minha mente ao longo de um processo demorado, porque sempre que você trabalha com teatro, normalmente está se dedicando por bastante tempo e investindo muita energia nisso — especialmente para manter o equilíbrio. Também me ensinou a gerenciar meu tempo, porque eu ainda estava estudando na escola ao mesmo tempo. Então, aprendi a usar meus intervalos para fazer a lição de casa e a tirar cochilos quando conseguia, quando estava cansado. E eu simplesmente amava aquilo e sabia que estava sacrificando um pouco de uma infância “normal”. Mesmo na época, percebia que haveria coisas das quais eu abriria mão como criança, mas para mim valia totalmente a pena — e ainda vale — porque eu amo profundamente o que faço e amo trabalhar com teatro. Também aprendi a me virar nas ruas de Nova York desde muito novo, o que foi divertido.

Você começou Stranger Things já com uma experiência de cantar e atuar ao vivo. Como esse ritmo musical influenciou a forma que construiu o Dustin, que sempre parece ter sua própria trilha sonora?
Sim, ele tem mesmo. Acho que posso atribuir isso menos ao que fiz no palco e mais a como eu sou como pessoa. Algo que as pessoas acabam percebendo sobre mim é que estou constantemente cantando e falando sozinho, mesmo quando não há ninguém por perto. Muita gente acha isso perturbador. É algo que nem percebo. Então, acho que sempre há uma trilha sonora interna tocando na minha cabeça de algum jeito, e estou sempre batendo o pé ou mexendo os dedos. Há sempre um pouco de música ou movimento na forma como funciono. E acho que o mesmo vale para o Dustin. Sempre fui uma pessoa muito extrovertida e bastante energética. Gosto muito de gente, adoro conhecer novas pessoas, e nunca fui tímido quanto a isso. Acho que há uma certa coragem no Dustin – ele é ainda mais confiante do que eu era nesse sentido – e talvez isso fosse algo a que eu aspirava. Talvez por isso eu tenha tentado torná-lo assim. E há definitivamente um pouco dessa musicalidade trazida para o personagem.
Você literalmente cresceu junto com o Dustin – quase uma década interpretando o mesmo personagem. Agora, na temporada final, o que mais te emociona: o fim da série ou o fim de uma jornada que espelhou sua própria passagem para a vida adulta?
Já sinto falta do processo. Já sinto falta da constância de fazer parte daquele grupo. O crescimento do Dustin e o meu estão completamente entrelaçados. Sempre vou carregar uma parte da série e do personagem comigo (para o bem ou para o mal) pelo resto da minha vida. Amei demais fazer parte disso. Por mais que as pessoas digam que “foi uma infância muito pública”, e por mais assustador que isso pudesse ser — e talvez, como eu disse, tenha havido sacrifícios —, acredito que serei muito grato por isso. Daqui a uns dez anos, talvez eu olhe para trás e fique feliz por haver tantas gravações da minha infância, mostrando como eu era – embora às vezes eu morra de vergonha ao ver nossas entrevistas aos 13 anos, antes de ter melhores habilidades sociais. É um pouco constrangedor assistir, mas também divertido. É uma boa lição para perceber que não preciso me levar tão a sério. Acho que muita gente se lembra de como era na época da escola e revira os olhos, mas o fato disso ser público me ajuda a levar na boa e a pegar mais leve comigo mesmo.
Imagino que seja um pouco como com o elenco de Harry Potter: eles serão para sempre lembrados por aqueles personagens. E você, será para sempre o Dustin?
Sim, todos eles continuaram trabalhando de forma constante, crescendo e prosperando. Na verdade, já conheci o Daniel Radcliffe, que interpretou o Harry Potter, algumas vezes. Sempre admirei as escolhas e o percurso da carreira dele, porque ele foi uma das crianças e pessoas mais famosas do mundo, e usou isso para dizer: “Quero fazer o que quero”. Ele transformou essa fama em uma carreira muito interessante e cheia de nuances. Também é um ótimo cantor, e é muito legal vê-lo usar algo tão grande como Harry Potter para desenvolver uma carreira teatral e cinematográfica tão interessante, que admiro e respeito muito. Penso bastante nesse elenco, especialmente no que ele faz.
Depois de tantos anos, devem existir histórias que só quem viveu em Hawkins conhece. Qual é aquela lembrança de bastidores que sempre vem à sua mente quando pensa na série?
Essa é uma boa pergunta. Há tantas, porque isso literalmente ocupou uma década inteira da minha vida — seja filmando, fazendo divulgação ou até mesmo falando sobre a série quando eu estava em casa entre as temporadas. Me recordo dos dias em que eu ia para a casa do Finn (Wolfhard), do Caleb (McLaughlin) ou do Noah (Schnapp) — só para jogar videogame e ser criança — porque a gente definitivamente conseguia sentir que ainda tinha uma infância normal, já que passávamos por tudo isso juntos. E mesmo que tenhamos sido colocados juntos por outras pessoas, a conexão aconteceu naturalmente. Tenho muita certeza de que, se tivéssemos nos conhecido fora da série, também teríamos virado grandes amigos rapidamente. Eu os amo muito.

Você tem uma voz marcante e uma relação antiga com a música. Agora, aos 23 anos, você sente vontade de voltar a cantar?
Ah, isso seria muito legal, mas não sei. Sempre amei cantar. Mas minha grande prioridade ultimamente tem sido treinar de forma consistente para que, se surgir outra semana de oito apresentações, eu consiga fazê-la de maneira saudável. Tenho buscado desenvolver minha voz mais do que antes, porque sempre fui ator em primeiro lugar. É muito generoso da parte dos espetáculos me deixarem participar e fazer o meu melhor, e tive a chance de aprender na prática, cantando ao lado de pessoas muito mais treinadas do que eu. Tenho dedicado um bom tempo para treinar intensamente por conta própria. Então, eu adoraria encontrar meu novo som. Gostaria muito de continuar fazendo musicais. Sempre quis que a música – e o canto, especialmente – se tornassem uma parte constante da minha carreira, sobretudo no teatro. Quem sabe isso se estenda para o cinema ou a TV em algum momento. Sempre vi mais como um hobby, só que as pessoas, gentilmente, me permitiram trazer para minha carreira. Não existe um mundo em que eu não esteja cantando — pelo menos para mim mesmo, no chuveiro — e, se às vezes isso acontece em um palco, sou muito grato por isso.
Você fala abertamente sobre displasia cleidocraniana, até como uma forma de inspirar outras pessoas. Como se sentir confortável com quem é, dentro e fora das telas?
Sou mais confiante agora…Muitas vezes, você começa a desenvolver inseguranças e a se sentir mais observado conforme envelhece. Antes da adolescência, eu não era muito consciente de como as pessoas me olhavam. Eu falava sobre minha condição e minhas diferenças físicas com muito orgulho e entusiasmo. Via isso como uma oportunidade: não necessariamente para educar ou conscientizar, mas simplesmente para ser eu mesmo. Nunca vi isso como um obstáculo. Via como uma característica marcante, algo que era meu, e sempre me orgulhei de deixar que isso fizesse parte da minha vida. Claro que as complicações médicas apareciam – fazer cirurgias com frequência não é nada divertido – mas eu sabia que tinha a oportunidade de não esconder nada. Acho que esconder seria o maior desserviço possível. Mesmo que não houvesse ali um ativismo direto ou o uso da minha plataforma para isso, deixar de falar sobre o assunto teria sido algo muito triste, porque significaria não falar sobre mim mesmo.

Complete a frase: “Se eu pudesse viver um dia como Dustin Henderson, eu…”
Vou presumir que eu também teria o cérebro do Dustin, porque ele é muito mais inteligente do que eu. A primeira coisa que eu faria seria, curiosamente, fazer uma prova de ciências, só para finalmente sentir confiança enquanto faço – porque é aí que estão os pontos fortes dele, e definitivamente não os meus. Faria uma prova de matemática, e pela primeira vez, seria bom nisso.
“Se o Dustin pudesse viver um dia como você, ele…”
(risos) Adorei! Se o Dustin pudesse viver como eu por um dia, provavelmente iria a um karaokê, porque acho que ele não é muito confiante em relação ao canto, mas eu gosto de cantar bem mais do que o Dustin.
Agora que Stranger Things está prestes a chegar à temporada final, você levou alguma lembrança do set? E, simbolicamente, o que você gostaria de carregar de Hawkins para o resto da sua carreira?
Levei várias meias, só porque às vezes esquecia de tirá-las no fim do dia (risos), mas não cheguei a pegar nenhum objeto de cena. Acho que devia ter feito isso. Todos nós acabamos levando uma coisinha aqui e ali. Eu realmente não sei onde está o meu boné original. Não sei se a Netflix o guardou em algum cofre ou se está com o figurino. Adoraria que isso fosse dito publicamente – duvido que me deem o boné, mas quem sabe.

Como você descreveria a temporada final de Stranger Things em uma frase?
Acho que não posso dar muitos spoilers, mas posso dizer que é longa, épica e culmina em um final muito satisfatório, na minha opinião.
Quais são os próximos passos de Gaten Matarazzo?
Quero aprender a ficar bem com o fato de não ter muitos planos imediatos. Não sou muito bom com isso: às vezes fico ansioso quando não há muito o que fazer ou quando não há nada concreto pela frente. Mas preciso me permitir dar um passo atrás, relaxar e deixar as coisas acontecerem no seu tempo – e ganhar mais confiança nesse processo. Então, acho que estou bem em dizer que não sei.