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Motos Mais Desejadas do Mundo Estão Escondidas no Noroeste da Inglaterra

Empresário britânico preserva raridades do motociclismo, de modelos pré-guerra a ícones esportivos modernos

7 min

Não há endereço divulgado no site, o sistema de navegação não leva ao ponto exato e, quando finalmente se encontra o local, nenhuma placa denuncia o que está por trás daqueles muros. É quase impossível ter certeza de onde se está até chegar a poucos passos do portão de segurança que conduz a um pátio diante de um galpão industrial sem qualquer identidade, que poderia abrigar caixas de mercadorias em qualquer parte do mundo.

O cenário, no entanto, está longe de ser banal. Câmeras espalhadas por todos os ângulos, barreiras metálicas reforçando o perímetro e portas de metal do tipo persiana, pesadas e discretas, deixam claro que ali se guarda algo precioso. O acesso só acontece após identificação por interfone, e a única pista fornecida ao público é a localização genérica: Noroeste da Inglaterra. O motivo de tanto sigilo? Uma das coleções mais valiosas de motocicletas clássicas do mundo.

Logo no topo da escada que leva ao andar superior, a primeira revelação: uma Brough Superior avaliada em £225.000 (R$ 1,6 milhão). Mas a surpresa cresce a cada passo. Ao lado dela, repousa outra joia ainda mais rara: uma Brough de £350.000 (R$ 2,5 milhões) — testemunhos do fascínio atemporal pelas máquinas que marcaram eras.

Como muitas das bicicletas de Solo, a Brough é considerada uma obra de arte
Iain MacauleyComo muitas das bicicletas de Solo, a Brough é considerada uma obra de arte

Valores flutuantes das motocicletas clássicas

Nos últimos anos, o mercado de motocicletas clássicas tem revelado uma volatilidade surpreendente. A empresa de seguros britânica Footman James, especializada em veículos históricos, vem registrando oscilações expressivas nos preços dessas máquinas — ora valorizadas como obras de arte, ora sujeitas a quedas abruptas.

É nesse cenário que surge a Solo Motorcycles, uma coleção singular de cerca de 300 modelos considerados entre os melhores já produzidos por diferentes fabricantes. Reunida pelo empresário Steve Malone, 65 anos, a coleção nasceu de uma paixão pessoal, mas também com o olhar estratégico de quem enxerga potencial de investimento. Ainda assim, à medida que se percorre o acervo, fica evidente que muitas dessas motocicletas parecem destinadas a permanecer sob seus cuidados.

Alguns exemplares foram preservados exatamente como foram encontrados, carregando a pátina do tempo; outros, quando considerados merecedores, passam pelas mãos de restauradores especializados, que realizam desde intervenções minuciosas até uma renovação completa, devolvendo às peças o brilho e a potência originais.

Um detalhe curioso do mercado atual: modelos fabricados antes da Segunda Guerra Mundial vêm perdendo valor. Por isso, quando Malone e seu consultor, Robert Bentham, 66 anos, apresentam uma Norton International da década de 1930, vendida por uma soma de cinco dígitos — em contramão da tendência —, o impacto é imediato. “Quando fabricaram esta Norton International, selecionaram as melhores peças na fábrica e montaram tudo junto, todas com o mesmo número de série. É, sem dúvida, matching numbers”, explica Bentham. O valor e o comprador permanecem em sigilo, reforçando a aura de exclusividade.

O que se segue é uma verdadeira imersão: um showroom de dois andares, iluminado apenas por claraboias e pontos de luz estrategicamente posicionados para realçar o brilho do cromo, a intensidade das cores e a impecável conservação das máquinas. No térreo, abrindo o percurso, uma Egli Vincent 1300 de 1968 dá as boas-vindas — o primeiro indício de que se está diante de uma coleção tão rara quanto irreplicável.

Iain MacauleyO Egli Vincent 1300 da década de 1960. Um dos melhores quadros da época, um dos melhores motores de todos os tempos

Motocicletas como obras de arte

Isto é uma obra de arte. Na verdade, este lugar inteiro está repleto delas. Cada vez que se observa uma dessas motos, descobre-se um detalhe novo”, afirma Steve, com a convicção de um colecionador que enxerga além da mecânica. Robert completa: “Quando abro o espaço pela manhã, rio sozinho ao acender as luzes. Como entusiasta, ainda me surpreendo com o que vejo. Cada moto carrega uma narrativa — algumas grandiosas, outras discretas, mas sempre fascinantes.”

Entre os exemplares mais intrigantes está uma Levis de 1916, estacionada pelo primeiro proprietário pouco depois da compra. “Faz pensar: será que, naquela época, alguém foi para a guerra e não voltou…?”, reflete Steve. A moto permanece em first paint — com a pintura original, marcada pelo tempo, mas intacta em sua essência.

Outro exemplo é uma Montesa dos anos 1970, que conserva um assento remendado e sinais de uso intenso. Ainda assim, o tanque e as superfícies metálicas brilham como um espelho polido pelo atrito de décadas. Cada imperfeição é também uma assinatura do passado: a placa espanhola amassada sugere que a moto possa ter capotado em algum momento, enquanto a poeira incrustada e as marcas de uso reforçam sua autenticidade, transformando cicatrizes em patrimônio histórico.

Iain MacauleyEdição especial das Honda CB50s da década de 1990. 14.000 rpm, 7 cv, apenas “milhas aceleradas”

Modelos raros — e nunca usados

Na sequência, a coleção revela preciosidades improváveis: duas Honda CB50 do fim dos anos 1990, uma de rua e outra de corrida, ambas capazes de atingir impressionantes 14.000 rpm. A primeira exibe apenas dois quilômetros no hodômetro, resultado de meros empurrões para movimentá-la; já a versão de competição permanece intocada, jamais ligada desde que saiu de fábrica — cápsulas do tempo sobre rodas.

Ao lado delas, uma Honda SL350 verde dos anos 1970 encarna a filosofia de Steve de que motocicletas clássicas não devem ser apenas contempladas, mas também vividas. Levou-a à Ilha de Man durante o Classic TT, onde completou uma volta no lendário circuito da montanha e serviu como meio de transporte ao longo do evento. “Funcionou perfeitamente, absolutamente confiável”, recorda, com orgulho.

Esse espírito permeia toda a Solo Motorcycles, um espaço reservado e cuidadosamente guardado, mas pulsante de histórias. Ali convivem desde a singela BSA Bantam, ícone acessível do pós-guerra, até a robusta KTM com a qual Steve desafiou e concluiu o rali Paris-Dakar em 2007. Entre essas extremidades, alinham-se BMWs, Ducatis, Harley-Davidsons, Indians, todas as marcas japonesas, uma constelação de britânicas históricas e modelos que remontam a quase 120 anos de evolução sobre duas rodas.

E, em meio a tantas joias, Steve não hesita em apontar sua favorita: uma Husqvarna de 1929. Mais do que uma motocicleta, um elo vivo entre o passado e a paixão que move toda a coleção.

Iain MacauleyMotos de nicho como esta Husqvarna 250 estão entre as poucas que contrariam a tendência de manter os valores das motocicletas clássicas pré-Segunda Guerra Mundial

“No Reino Unido, e possivelmente em escala global, o mercado de motocicletas clássicas passou por uma correção. Hoje, elas valem em torno de 60% do que os colecionadores pagavam durante a pandemia de Covid-19. Mas modelos de nicho, como a Husqvarna, parecem contrariar essa tendência”, observa Steve. Para ele, essa mudança tem um lado positivo: “Significa que estão muito mais acessíveis. A mensagem é simples: compre e ande nelas.”

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