Não há endereço divulgado no site, o sistema de navegação não leva ao ponto exato e, quando finalmente se encontra o local, nenhuma placa denuncia o que está por trás daqueles muros. É quase impossível ter certeza de onde se está até chegar a poucos passos do portão de segurança que conduz a um pátio diante de um galpão industrial sem qualquer identidade, que poderia abrigar caixas de mercadorias em qualquer parte do mundo.
O cenário, no entanto, está longe de ser banal. Câmeras espalhadas por todos os ângulos, barreiras metálicas reforçando o perímetro e portas de metal do tipo persiana, pesadas e discretas, deixam claro que ali se guarda algo precioso. O acesso só acontece após identificação por interfone, e a única pista fornecida ao público é a localização genérica: Noroeste da Inglaterra. O motivo de tanto sigilo? Uma das coleções mais valiosas de motocicletas clássicas do mundo.
Logo no topo da escada que leva ao andar superior, a primeira revelação: uma Brough Superior avaliada em £225.000 (R$ 1,6 milhão). Mas a surpresa cresce a cada passo. Ao lado dela, repousa outra joia ainda mais rara: uma Brough de £350.000 (R$ 2,5 milhões) — testemunhos do fascínio atemporal pelas máquinas que marcaram eras.

Valores flutuantes das motocicletas clássicas
Nos últimos anos, o mercado de motocicletas clássicas tem revelado uma volatilidade surpreendente. A empresa de seguros britânica Footman James, especializada em veículos históricos, vem registrando oscilações expressivas nos preços dessas máquinas — ora valorizadas como obras de arte, ora sujeitas a quedas abruptas.
É nesse cenário que surge a Solo Motorcycles, uma coleção singular de cerca de 300 modelos considerados entre os melhores já produzidos por diferentes fabricantes. Reunida pelo empresário Steve Malone, 65 anos, a coleção nasceu de uma paixão pessoal, mas também com o olhar estratégico de quem enxerga potencial de investimento. Ainda assim, à medida que se percorre o acervo, fica evidente que muitas dessas motocicletas parecem destinadas a permanecer sob seus cuidados.
Alguns exemplares foram preservados exatamente como foram encontrados, carregando a pátina do tempo; outros, quando considerados merecedores, passam pelas mãos de restauradores especializados, que realizam desde intervenções minuciosas até uma renovação completa, devolvendo às peças o brilho e a potência originais.
Um detalhe curioso do mercado atual: modelos fabricados antes da Segunda Guerra Mundial vêm perdendo valor. Por isso, quando Malone e seu consultor, Robert Bentham, 66 anos, apresentam uma Norton International da década de 1930, vendida por uma soma de cinco dígitos — em contramão da tendência —, o impacto é imediato. “Quando fabricaram esta Norton International, selecionaram as melhores peças na fábrica e montaram tudo junto, todas com o mesmo número de série. É, sem dúvida, matching numbers”, explica Bentham. O valor e o comprador permanecem em sigilo, reforçando a aura de exclusividade.
O que se segue é uma verdadeira imersão: um showroom de dois andares, iluminado apenas por claraboias e pontos de luz estrategicamente posicionados para realçar o brilho do cromo, a intensidade das cores e a impecável conservação das máquinas. No térreo, abrindo o percurso, uma Egli Vincent 1300 de 1968 dá as boas-vindas — o primeiro indício de que se está diante de uma coleção tão rara quanto irreplicável.

Motocicletas como obras de arte
“Isto é uma obra de arte. Na verdade, este lugar inteiro está repleto delas. Cada vez que se observa uma dessas motos, descobre-se um detalhe novo”, afirma Steve, com a convicção de um colecionador que enxerga além da mecânica. Robert completa: “Quando abro o espaço pela manhã, rio sozinho ao acender as luzes. Como entusiasta, ainda me surpreendo com o que vejo. Cada moto carrega uma narrativa — algumas grandiosas, outras discretas, mas sempre fascinantes.”
Entre os exemplares mais intrigantes está uma Levis de 1916, estacionada pelo primeiro proprietário pouco depois da compra. “Faz pensar: será que, naquela época, alguém foi para a guerra e não voltou…?”, reflete Steve. A moto permanece em first paint — com a pintura original, marcada pelo tempo, mas intacta em sua essência.
Outro exemplo é uma Montesa dos anos 1970, que conserva um assento remendado e sinais de uso intenso. Ainda assim, o tanque e as superfícies metálicas brilham como um espelho polido pelo atrito de décadas. Cada imperfeição é também uma assinatura do passado: a placa espanhola amassada sugere que a moto possa ter capotado em algum momento, enquanto a poeira incrustada e as marcas de uso reforçam sua autenticidade, transformando cicatrizes em patrimônio histórico.

Modelos raros — e nunca usados
Na sequência, a coleção revela preciosidades improváveis: duas Honda CB50 do fim dos anos 1990, uma de rua e outra de corrida, ambas capazes de atingir impressionantes 14.000 rpm. A primeira exibe apenas dois quilômetros no hodômetro, resultado de meros empurrões para movimentá-la; já a versão de competição permanece intocada, jamais ligada desde que saiu de fábrica — cápsulas do tempo sobre rodas.
Ao lado delas, uma Honda SL350 verde dos anos 1970 encarna a filosofia de Steve de que motocicletas clássicas não devem ser apenas contempladas, mas também vividas. Levou-a à Ilha de Man durante o Classic TT, onde completou uma volta no lendário circuito da montanha e serviu como meio de transporte ao longo do evento. “Funcionou perfeitamente, absolutamente confiável”, recorda, com orgulho.
Esse espírito permeia toda a Solo Motorcycles, um espaço reservado e cuidadosamente guardado, mas pulsante de histórias. Ali convivem desde a singela BSA Bantam, ícone acessível do pós-guerra, até a robusta KTM com a qual Steve desafiou e concluiu o rali Paris-Dakar em 2007. Entre essas extremidades, alinham-se BMWs, Ducatis, Harley-Davidsons, Indians, todas as marcas japonesas, uma constelação de britânicas históricas e modelos que remontam a quase 120 anos de evolução sobre duas rodas.
E, em meio a tantas joias, Steve não hesita em apontar sua favorita: uma Husqvarna de 1929. Mais do que uma motocicleta, um elo vivo entre o passado e a paixão que move toda a coleção.

“No Reino Unido, e possivelmente em escala global, o mercado de motocicletas clássicas passou por uma correção. Hoje, elas valem em torno de 60% do que os colecionadores pagavam durante a pandemia de Covid-19. Mas modelos de nicho, como a Husqvarna, parecem contrariar essa tendência”, observa Steve. Para ele, essa mudança tem um lado positivo: “Significa que estão muito mais acessíveis. A mensagem é simples: compre e ande nelas.”