Alerta de spoiler. Há uma cena marcante em um episódio de Ripley — série da Netflix de 2024 baseada no romance The Talented Mr Ripley (1955), de Patricia Highsmith — em que o personagem-título dirige de forma desesperada por uma estrada deserta em uma noite iluminada pela lua. O corpo do homem que ele acabou de matar em um apartamento em Roma está caído no banco do passageiro de seu Fiat 500.
Até aqui, um cenário típico do noir.
O terceiro personagem dessa cena é a própria estrada — a Via Appia Antica, uma antiga via militar romana de abastecimento que, no passado, se estendia para o sul e o leste até o porto de Brindisi. Calçamento de pedras, ruínas e aquedutos arqueados, entre pinheiros e ciprestes, compõem um ambiente associado à história do local.

Séculos após o início de sua construção, em 312 a.C., a importância cultural da Via Appia Antica permanece significativa. Em 2024, ela se tornou o 60º Patrimônio Mundial da UNESCO na Itália. Seus vínculos culturais do século 20 também são relevantes.

A Villa d’Autore, construída na Via Appia Antica por volta de 1900 pelo escritório italiano Busiri Vici, foi durante um período a residência do produtor de cinema Carlo Ponti e de sua esposa, a atriz Sophia Loren. A produção mais bem-sucedida de Ponti foi Doctor Zhivago (1965). Loren atuou em mais de cem filmes, incluindo The Black Orchid (1958) e Marriage Italian Style (1964). Outros nomes do cinema das décadas de 1950 e 1960 também se hospedaram no local, como Elizabeth Taylor, Richard Burton, Kirk Douglas, Michael Douglas, Rex Harrison e Tony Curtis.

A propriedade está assentada sobre uma camada de cerca de 4,6 metros de rocha vulcânica, originada do antigo vulcão extinto próximo a Castel Gandolfo. A Villa d’Autore ocupa o local de uma antiga estrutura romana, cujos elementos foram incorporados ao edifício atual.
Atualmente à venda por US$ 26 milhões (R$ 143,8 milhões), a propriedade conta com cinco dormitórios e aproximadamente 1.200 metros quadrados de área construída, e busca novos responsáveis por sua preservação.

Em 1985, os atuais proprietários — uma família que ainda reside na villa principal — adquiriram o imóvel de Ponti, que havia realizado reformas extensas nas décadas de 1950 e 1960. Novas intervenções foram feitas ao longo do tempo para atender às necessidades da família, à evolução tecnológica e às mudanças de uso.
O que permanece são os elementos protegidos do patrimônio histórico, como o piso de mosaico da sala de jantar, pertencente à antiga residência romana e integrado ao uso atual.

O jardim possui cerca de 14.000 metros quadrados (aproximadamente 1,4 hectare) e foi projetado e mantido pelo proprietário, que é arquiteto paisagista. O espaço reúne artefatos de pedra e estátuas de mármore com mais de dois mil anos, além de uma casa de jardineiro. Um antigo estábulo foi restaurado e adaptado como espaço para eventos, com cerca de 700 metros quadrados.
Chiara Gennarelli, corretora responsável pela venda pela empresa Building Heritage, define seu papel como o de aproximar o imóvel do comprador adequado. Segundo ela, a busca não é apenas por um comprador, mas por alguém que reconheça o valor do local. A menção aos antigos proprietários conhecidos contribui para o interesse, mas, de acordo com a corretora, o aspecto central é o sítio histórico, sua relevância geológica, histórica e cultural, presente no próprio terreno.
A propriedade também oferece contato com a natureza, privacidade e isolamento. Apesar disso, a Villa d’Autore está localizada a cerca de 15 minutos de carro do centro de Roma. Assim, quando a convivência cotidiana com história, arte e cinema se torna parte da rotina, os serviços, lojas e restaurantes da capital permanecem facilmente acessíveis.