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Aviões Comerciais com Piloto Único: o Que Falta para a Ideia Decolar?

Ideia ganha estudos, porém esbarra em segurança, fadiga, manutenção e confiança do público

6 min

Cabines com piloto único são um dos temas mais espinhosos da aviação. Em certos aspectos, fazem sentido, ajudando a lidar com a escassez de mão de obra e a pressão de custos das companhias aéreas e, em tese, já existe tecnologia para permitir sua implantação.

Mas, à medida que a pesquisa europeia avança, também aumentam as preocupações. Agências de segurança, sindicatos e pilotos alertam que a tecnologia ainda não é capaz de substituir a redundância crítica (backup) oferecida por dois profissionais treinados.

A pesquisa conduzida pela Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) concluiu o mesmo em 2025. No entanto, há um grupo de trabalho para avaliar até onde seria possível operar com apenas um piloto em companhias aéreas comerciais. A seguir, um explicador sobre o histórico e o que pode acontecer no futuro.

Cabines com piloto único ganharam tração no início dos anos 2020

Em 2017, Airbus e Dassault, duas fabricantes de aeronaves, procuraram a EASA para solicitar uma revisão regulatória sobre a viabilidade de operações com piloto único em voos comerciais.

Em 2021, a Airbus anunciou que a tecnologia necessária estaria pronta em algumas de suas aeronaves até 2025 e buscava um cronograma para quando o setor a adotaria.

Ao mesmo tempo, a Reuters informou que a Airbus havia criado um grupo de trabalho, o Project Connect, com a Cathay Pacific, visando implementar operações com tripulação reduzida em voos de longa distância até 2025, com um único piloto na cabine na maior parte do tempo. A mesma reportagem disse que a Lufthansa também realizou testes, mas não tinha planos de implantá-los.

A EASA lançou um grupo de trabalho e conduziu uma avaliação de risco de segurança das operações com piloto único para determinar quais regras seriam necessárias para tratar de questões como fadiga e a necessidade de pausas para descanso.

Em 2025, a pesquisa da EASA concluiu que, para operações com piloto único, a tecnologia atual ainda não pode garantir um “nível equivalente de segurança” ao de uma tripulação com dois pilotos.

Os argumentos a favor e contra cabines com piloto único em voos comerciais

Os defensores apresentam argumentos claros:

  • Há longos períodos, especialmente em voos de longa distância durante o cruzeiro, em que quase nada acontece na cabine.
  • Seria uma grande forma de as companhias aéreas reduzirem custos, já que ter apenas um piloto cortaria significativamente salários, treinamento e outras despesas com pessoal.
  • Alguns dirão que é uma conclusão lógica. A indústria vem aumentando a automação há décadas. Nos anos 1950, havia um comandante, um copiloto, um engenheiro de voo, um navegador e um operador de rádio na cabine. E a tecnologia no cockpit melhora o tempo todo.
  • Desde a pandemia, a escassez de profissionais na aviação aumentou. Reduzir drasticamente o número de pilotos necessários, em tese, ajuda esse problema em vez de agravá-lo.

Para os críticos, há vários argumentos contra:

  • O processo atual depende de dois pilotos — eles compartilham responsabilidades, verificam as decisões um do outro e são treinados para responder juntos em crises. Mudar isso exigiria depender mais de pessoas e ferramentas fora da aeronave para apoiar o único piloto, e esses processos são desconhecidos e ainda não existem.
  • Muitos sindicatos e entidades de pilotos, incluindo a ECA, fizeram campanha contra testes e eventual implantação, considerando operações com piloto único — ter apenas uma pessoa para responder a emergências — “uma aposta com a segurança”.
  • Um único piloto abre espaço para mais erros acumulados. Com apenas um, a carga de trabalho é constante, sem alívio. Isso aumenta as chances de perder sinais, responder mais lentamente e reduzir a percepção situacional. Dois pilotos elevam a possibilidade de notar quando algo está errado e reagir.
  • Tony Lucas, comandante do Airbus SE A330 da Qantas e então presidente da Australian & International Pilots Association, disse: “Quando as coisas dão errado, dão errado muito rápido”, acrescentando que quem impulsiona essa mudança não é quem pilota esses jatos todos os dias.
  • A tecnologia atual ainda não está equipada para lidar de forma confiável com todo esse trabalho com apenas um piloto, como relatou a Airport Technology. Em essência, num ambiente de piloto único, não há substituto para um piloto certificado e comprovadamente capaz de assumir o comando total de uma aeronave de forma imediata e segura.
  • Traria mais atritos a um setor já cheio de problemas desde a pandemia. Além disso, haveria menos oportunidades para tripulantes juniores aprenderem com pilotos experientes se todos voassem sozinhos.
  • Entende-se que um dos maiores obstáculos é a confiança dos passageiros. Pesquisas mostram repetidamente que as pessoas simplesmente não querem embarcar em uma aeronave com apenas um piloto.
  • Fabricantes e pessoas motivadas por ganhos financeiros deveriam realmente ditar a política de aviação?

Onde a ideia está agora?

A European Cockpit Association (ECA), que representa 40 mil pilotos em 33 países europeus, disse em fevereiro de 2025 que “a batalha pelos voos com piloto único está longe de terminar”, apesar das conclusões recentes sobre segurança.

O Plano Europeu para a Segurança da Aviação, publicado em 2025, ainda inclui as Operações com Tripulação Mínima Estendida (eMCO) — o que chama de operações com piloto único durante o cruzeiro — como resultado final, mas também afirma que novas tecnologias precisam melhorar a segurança. A EASA empurrou o cronograma para o fim da década, por volta de 2030, permitindo mais consultas com órgãos de segurança da aviação e outras partes interessadas.

A ênfase na Tarefa de Regulação (RMT.0739) — o grupo oficial responsável por desenvolver os frameworks regulatórios — mudou de um piloto do início ao fim do voo para apenas um durante o cruzeiro.

Em vez de correr para aprovar tripulações reduzidas, o foco agora é desenvolver “cockpits inteligentes”. Isso envolve certificar a tecnologia primeiro, mantendo dois pilotos na cabine para coletar dados.

Isso aborda a lacuna de segurança identificada pela pesquisa, pois a lógica é que você não pode simplesmente remover um piloto; é preciso substituir o que ele faz por tecnologia certificada.

Só então cabines com piloto único poderiam se aproximar da realidade, técnica e legislativamente. Convencer o público seria, obviamente, o passo final — e muito divisivo e desafiador.

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