Na última quinta-feira (23) fui à pré-estreia de O Diabo Veste Prada 2 com a Eduarda, minha filha de 11 anos.
Antes de sairmos de casa, ela roubou um dos meus vestidos Valentino. Se produziu inteira. Maquiagem, cabelo, atitude. Tudo cruelty free, claro – sua nova causa, levada com a seriedade de quem acabou de descobrir que pode ter impacto no mundo.

Chegamos ao Theatro Municipal e logo entendemos que a Disney havia transformado a Praça da Cinelândia em um infinito tapete vermelho, conectando o Teatro ao Cinema Odeon, do outro lado da praça. Isabeli Fontana e Carol Trentini abriram oficialmente o tapete vermelho e, em seguida, Duda e sua amiga Alice desfilavam tentando imitá-las.
Já sentadas no cinema, apresentei as meninas à Isabeli e à Carol, minhas amigas de tantos anos, que ficaram encantadas. E ali tive a sensação de estar vendo dois filmes.

O que estava prestes a começar na tela. E o que já estava em curso, ali, na minha frente.
Não vou dar spoilers. O filme entrega, e muito.
O roteiro de Aline Brosh McKenna é quase cirúrgico na forma como reflete o momento atual, respeitando a evolução natural dos personagens ao longo de duas décadas. Não seria qualquer continuação capaz de convencer Meryl Streep e Anne Hathaway a voltarem. Há maturidade, ironia e, sobretudo, consciência de que o mundo da moda, e o mundo, já não operam sob as mesmas regras, tudo com humor e leveza, algo que o diretor David Frankel, vinte anos depois, segue fazendo com maestria.
E foi impossível não mergulhar na minha própria trajetória.
Quando o primeiro O Diabo Veste Prada chegou aos cinemas, em 2006, eu era recém-formada e morava em Nova York. Foi quando recebi o convite de Silvia Rogar para ser colaboradora da Vogue. Na época, trabalhava como assistente pessoal do ator Matt Dillon, e minha parte preferida do trabalho era ler e analisar os roteiros que chegavam para sua produtora.
Eu estava nas nuvens com o convite da Silvia. Um texto de minha autoria seria publicado em um veículo icônico. O simples fato de ser “published” tinha um peso quase simbólico. Era pré-redes sociais, pré-doom scroll. A leitura ainda era um hábito coletivo. E a Vogue era, sem discussão, a maior referência de moda do mundo.
Assim como Andy Sachs, fui parar na Vogue sem nenhum apego particular ou formação em moda. O que me levou até lá foi a mesma coisa que sempre me seduziu no cinema: uma paixão profunda por contar histórias.
Mas havia um desafio adicional. Depois de quatro anos na Brown University, eu pensava, lia e vivia quase exclusivamente em inglês. Escrever em português, minha língua materna, já não vinha com a mesma naturalidade. De certa forma, eu estava começando duas vezes. Na moda e na minha própria língua.

Minha pauta parecia simples.
“Você mora perto do SoHo, Paula?”
“Moro.”
“Então você vai escrever, em primeira pessoa, sobre o impacto do incêndio na loja da Prada na vizinhança, para a seção Eu, Repórter.”
Saí do meu prédio na Mott Street com um bloquinho na mão. Passei no Dean & DeLuca para o café latte do dia e segui pela Prince Street até a esquina com a Broadway, me sentindo uma repórter de verdade.
Conseguir chamar a atenção de um nova-iorquino andando em alta velocidade, ouvindo iPod (lembra deles?) não é tarefa fácil. Finalmente encontrei um segurança na porta da loja que se dispôs a falar comigo.
Perguntei quantas pessoas morreram.
“Lady, no one died.”
Quantos ficaram feridos?
“No one was seriously hurt.”
De repente, me vi sem história.
Como escrever uma página inteira sobre o impacto de um incêndio que não feriu ninguém? Lamentando a perda de lápis e jaquetas militares? Na pauta mundial, o mundo se mobilizava para ajudar a New Orleans após o furacão Katrina, e o Paquistão acabava de sofrer um dos maiores terremotos da década.
Pensei seriamente em desistir. Agradecer à Silvia e dizer que não conseguiria entregar.
Até que uma memória voltou.
Dezembro de 2001. Eu estava em Nova York, três meses após o 11 de setembro. A cidade ainda era um fantasma. Eu me hospedava na casa de amigos no SoHo e via lojas fechando, ruas vazias, e o então prefeito Rudy Giuliani na televisão pedindo que as pessoas voltassem a consumir, a ir ao teatro, a tentar salvar a economia.
A Broadway estava deserta.
Mas, em uma esquina, Prince com Broadway, havia uma aglomeração. Pessoas. Fotógrafos. Movimento.
Era a inauguração de uma nova loja.
Enquanto o bairro recuava, uma marca avançava. Um investimento de US$ 40 milhões, um projeto de Rem Koolhaas, e um gesto quase simbólico de confiança no futuro.
Era a Prada.
Naquele momento, entendi.
Não era sobre o incêndio. Era sobre o papel de uma marca dentro de um contexto maior. Sobre quem recua e quem permanece. Sobre quem escolhe apostar no SoHo quando todos desistem. Sobre quem entende que moda também é cultura, economia, sinal.
E foi assim que nasceu o meu primeiro texto para a Vogue.

E o início de mais de uma década escrevendo para a revista. Depois, fui colunista do saudoso Style.com e, após alguns anos sem escrever, me reencontrei em 2021, de casa nova, aqui na Forbes.
Saindo do cinema ontem, olhei novamente para minha filha, aos 11 anos, orgulhosa no “seu” Valentino, mas firme em sua decisão de consumir de forma consciente. E pensei no quanto o universo da moda se transformou.
Se antes era sobre aspiração, hoje também é sobre responsabilidade.
Se antes era sobre pertencimento, hoje é sobre posicionamento.
E, ao vê-la ali, entre o Valentino e suas convicções, entendi que a moda continua sendo sobre sonho. Mas agora, também, sobre consequência.
Mas será mesmo que isso é de hoje?
No próximo texto, conto como conheci, nessa mesma época em Nova York, o estilista que provou, muito antes de se falar em consumo consciente, que luxo e sustentabilidade não só podem, como devem, coexistir.