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Como “Obsessão” Se Tornou Fenômeno Surpresa com Bilheterias de R$ 485 Milhões

O sucesso do filme de terror de baixo orçamento apresenta um olhar mais cínico dos jovens sobre o amor

6 min

Um filme de terror de baixo orçamento estrelado por atores relativamente desconhecidos se tornou o hit surpresa do verão americano ao arrecadar impressionantes US$ 28,2 milhões (R$ 150 milhões) em seu segundo fim de semana em cartaz — um aumento de 30% em relação à semana anterior. O sucesso aproveita a popularidade dos trabalhos anteriores de seus criadores na internet, uma campanha de marketing viral e, possivelmente, o olhar mais cínico da geração mais jovem sobre romance.

Obsessão, produzido com um orçamento entre US$ 750 mil (R$ 3,7 milhões) e US$ 1 milhão (R$ 5 milhões) pelo cineasta de 26 anos Curry Barker, transformou o boca a boca positivo e a performance comentada da atriz Inde Navarrette em um resultado que publicações especializadas classificaram como “virtualmente sem precedentes”.

O longa arrecadou US$ 17,2 milhões (R$ 86,3 milhões) em 2.615 salas em seu fim de semana de estreia — muito acima das projeções entre US$ 10 milhões (R$ 50 milhões) e US$ 12 milhões (R$ 60 milhões) — e depois registrou um raro crescimento no segundo fim de semana graças às críticas extremamente positivas, ao buzz online e a uma campanha imersiva de marketing de guerrilha. Isso fez de Obsessão o único filme de terror de amplo lançamento do século a arrecadar mais dinheiro em seu segundo fim de semana do que no primeiro. No total, até agora, Obsessão já arrecadou US$ 96 milhões (R$ 485 milhões) mundialmente.

Barker e o ator Cooper Tomlinson, dupla por trás do canal de esquetes no YouTube that’s a bad idea, aproveitaram sua base de mais de 1 milhão de seguidores para promover o filme — além de explorarem o potencial viral típico do gênero terror. A dupla já havia percebido isso com o thriller Milk & Serial, lançado no YouTube em 2024, produzido por apenas US$ 800 (R$ 4 mil) e que acumulou 2,7 milhões de visualizações.

Após uma recepção calorosa no Toronto International Film Festival, a Focus Features adquiriu Obsession por US$ 15 milhões (R$ 75 milhões) e mudou a estratégia do lançamento: em vez de uma estreia independente gradual, o filme ganhou uma distribuição nacional agressiva.

A Focus criou expectativa em torno do longa com outdoors enigmáticos espalhados por Los Angeles e New York City, que se tornavam progressivamente mais caóticos e frenéticos conforme a estreia se aproximava — refletindo a “obsessão” romântica retratada na trama.

As ações de marketing viral de “Obsession”

Os outdoors convidavam o público a enviar mensagens para um número de telefone. A campanha, que viralizou no TikTok e no Instagram, respondia aos participantes com áudios personalizados gravados por Navarrette, descritos online como “perturbadores” e “assustadores”. Até sexta-feira (22), mais de 70 mil pessoas já haviam participado.

A Focus também apostou diretamente no boca a boca entre fãs de terror, fechando parcerias com criadores digitais e influenciadores para gerar avaliações no Letterboxd.

A distribuidora ainda colocou à venda o dispositivo mágico do filme, chamado “One Wish Willow”, em lojas especializadas, máquinas temáticas e online. O item esgotou em poucas horas e passou a ser revendido no eBay por até dez vezes seu preço original de US$ 6,99 (R$ 35).

O “One Wish Willow” rapidamente começou a aparecer em vídeos de influenciadores e fãs no Instagram e TikTok. Jason Cassidy, vice-presidente da Focus Features, afirmou à FastCompany que isso “criou um enorme impulso social” para o filme.

“O que é tão incrível no Curry Barker é que ele é extremamente nativo desse universo digital, conhece sua voz e sua comunidade — e nós definitivamente queríamos explorar isso”, disse Cassidy. “Essa é uma geração que passou a vida inteira online e gosta de participar das coisas. Isso é vital para essa experiência.”

Fato surpreendente

A última vez que um filme registrou um aumento tão grande em seu segundo fim de semana foi com Sound of Freedom — produção cercada de controvérsias e associada ao movimento MAGA e a teorias conspiratórias ligadas ao QAnon — que teve um crescimento de 39% no verão de 2023 após uma campanha de apoio promovida por grupos da direita americana.

Contexto importante

Obsession possui 95% de aprovação da crítica e 95% do público no Rotten Tomatoes, colocando-o ao lado de recentes sucessos do terror, como Sinners e The Invisible Man.

O filme reinventa o clássico trope do “desejo amaldiçoado”. Bear, um funcionário socialmente desajeitado de uma loja de música, deseja que sua colega Nikki se apaixone por ele. O desejo é realizado — mas Nikki, interpretada por Navarrette, desenvolve uma obsessão extrema e cada vez mais violenta por Bear, claramente contra sua própria vontade.

Críticos elogiaram especialmente a atuação de Navarrette, destacando a empatia que ela consegue despertar mesmo interpretando a “vilã” da história — algo raro no terror. Alguns críticos já pediram que a atriz seja lembrada na próxima temporada de premiações.

“É Navarrette, no entanto, quem realmente dá alma ao filme”, escreveu Frank Scheck, do The Hollywood Reporter. “Ela entrega uma performance tão virtuosa como a hipnotizada Nikki que vai provocar pesadelos em qualquer pessoa que já tenha se perguntado o que diabos está acontecendo com seu parceiro romântico.”

O contraponto

As críticas negativas classificaram o longa como “uma fantasia masculina repulsiva”. Odie Henderson, do The Boston Globe, escreveu que “o roteiro tenta dizer algo sobre autonomia feminina e egoísmo masculino, mas o filme funciona como uma versão de 108 minutos da velha piada de stand-up ‘namoradas são loucas’, sem jamais subverter esse clichê”.

Ainda assim, essas reações ajudaram a impulsionar a popularidade do filme. Obsessão já foi descrito como um “terror incel”, explorando o sentimento de direito que um homem socialmente desajeitado sente sobre o afeto de sua colega de trabalho — sem se importar com os impactos da maldição sobre a autonomia dela.

A premissa do longa — obsessão parassocial e manipulação disfarçadas de romance — parece ter atingido um nervo exposto entre o público mais jovem, que, segundo pesquisas recentes, demonstra maior medo e menos interesse por relacionamentos amorosos.

O que observar agora

O próximo passo de Curry Barker. O cineasta vai escrever e dirigir um reboot de O Massacre da Serra Elétrica para a A24, enquanto a Focus Features também distribuirá outro de seus filmes, Anything but Ghosts, estrelado por Aaron Paul.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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