1. Início
  2. /
  3. Forbes Life
  4. /
  5. “Hoje Eu Não Tenho Mais Medo do Mundo”: um Guia de Sobrevivência para Mulheres Que Viajam Sozinhas
Forbes Life

“Hoje Eu Não Tenho Mais Medo do Mundo”: um Guia de Sobrevivência para Mulheres Que Viajam Sozinhas

Cerca de 62% das brasileiras já deixaram de viajar solo por questões de segurança. Por isso, a Forbes reuniu dicas para as mulheres se sentirem seguras sem abrir mão de sua independência

10 min

“Cada hora eu estou em um lugar e trazendo dois pontos: inspirar mulheres e quebrar estereótipos de países, mostrando que o mundo vai muito além dos Estados Unidos e a Europa tradicional”, afirma Letícia Pavim, diretamente de seu treinamento de kung fu do outro lado do mundo, China.

DivulgaçãoLetícia passou três semanas imersa no treinamento de kung fu

Diretamente do Templo de Shaolin, região milenar da arte marcial, Letícia contou sobre sua trajetória como viajante solo até a experiência que vivenciava. Formada em Relações Internacionais e criadora de conteúdo sobre viagens, a jovem de 26 anos já visitou mais de 40 países, sendo 27 viagens com sua própria companhia. 

Ela não é a única a explorar o mundo dessa forma. Quatro em cada 10 brasileiras já viajaram sozinhas e cerca de 31% delas realizam esse tipo de atividade com frequência. Por outro lado, 62% afirmaram que já deixaram de viajar por questões de segurança.

A pesquisa foi realizada pelo Ministério do Turismo em parceria com a Unesco, que entrevistou 2.712 mulheres de todas as regiões do país, em 2025. O trabalho resultou no Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas com orientações e dados para promover um turismo mais seguro para essa população.

Foi pensando nisso também, que a Forbes conversou com quatro mulheres que já conheceram dezenas de países sozinhas para entender a experiência por trás do ato de independência e coragem. Letícia Pavim, Alessandra Stockler,Gabriela Procopio e Daniela Filomena compartilham histórias, dicas e uma missão em comum: a vontade de inspirar outras mulheres a explorar o mundo sozinhas. 

Qual o melhor destino para mulheres?

Antes mesmo de qualquer planejamento financeiro, logístico ou cultural, a preparação sempre começa com a escolha do destino. E sendo uma exploradora solo de primeira viagem, um dos fatores decisivos para essa decisão passa pela questão linguística. Ter a tranquilidade de que a comunicação será clara e eficiente deve ser uma das prioridades neste momento.

“O idioma realmente é uma barreira. Se você não consegue comunicar a sua ideia, o que quer ou o que pensa, isso vai te deixar aflita e insegura. Então, é importante estudar inglês, se você quer viajar sozinha”, aconselha Letícia.

DivulgaçãoLetícia indica o Vietnã para mulheres visitarem sozinhas

Apesar de existirem países mais tradicionais dentro do turismo e, aparentemente, mais estruturados — como os Estados Unidos e a Europa Ocidental — as viajantes de carteirinha destacam a importância de enfrentar certos estereótipos culturais. Esse trabalho de desmistificação de certos destinos, por vezes, conta até com parcerias entre os governos locais e profissionais, como Letícia e a empreendedora e luxury traveler Alessandra Stockler, para incentivar o turismo em países menos conhecidos.

“Temos sempre que vencer o preconceito. Todo mundo tem uma opinião sobre algum país sem nunca ter ido para lá”, diz Alessandra. Mesmo em regiões com costumes mais rígidos e até mesmo considerados machistas, como a Arábia Saudita e o Irã, o respeito às culturas vem sempre em primeiro lugar. “Acho que quando visitamos um país, precisamos ser muito educados. Você vai para o Irã e eles pedem para usar hijab já no espaço aéreo. Então, eu vou lá e coloco”, complementa a criadora de conteúdo Gabriela Procopio.

DivulgaçãoAlessandra Stockler em sua viagem para Arábia Saudita

Experiências em espaços mais restritos às mulheres, no entanto, devem considerar cuidados diferentes com a segurança. Ao explorar a Arábia Saudita dirigindo um carro sozinha por mais de 6 mil quilômetros, por exemplo, Alessandra adotou precauções maiores, como o uso de vestimentas ainda mais discretas dos pés aos olhos azuis cobertos para chamar o mínimo de atenção possível, além da restrição de horário para dirigir até às 18h. Por isso, ela mesma não recomenda o país para viajantes iniciantes. “Acho importante respeitar culturas diferentes, claro, mas também entender até onde existe espaço para que uma mulher viaje com autonomia e tranquilidade”, pontua Daniela Filomeno, apresentadora da CNN e viajante profissional.

Para sair dos destinos mais óbvios, confira a lista a seguir de países indicados pelas pioneiras para visitar: 

  • Vietnã
  • Uruguai
  • Noruega
  • Costa Rica
  • Estônia
  • Tailândia
  • África do Sul

Sozinha em algum lugar do mundo

Todas precisam começar com um salto de coragem. “Meu Deus, eu estou muito longe de casa e totalmente sozinha”. Esse foi o pensamento de Letícia em sua primeira viagem solo aos 18 anos para a Espanha. A exploradora confidencia que esse choque inicial foi comum até se acostumar com a experiência e obter confiança.

Por isso, ela ressalta a importância de organizar esses primeiros momentos em outro país. “Uma coisa simples que ajuda muito mulheres que vão viajar sozinha é ter um transfer, por exemplo, uma pessoa com uma plaquinha com o seu nome. Isso só traz segurança, porque a gente chega muito vulnerável”, diz.

DivulgaçãoAlessandra na Tailândia

Estar sozinha, porém, não é sinônimo de estar desamparada e não precisa ser necessariamente solitário. Uma dica indispensável é sempre compartilhar sua localização em tempo real com uma pessoa de confiança, seja ela um familiar em outro país ou até mesmo um profissional concierge do local onde você está hospedada.

Alessandra também conta sobre uma prática pessoal que desenvolveu para obter informações com comunidades locais de mulheres. “Eu sempre busco me conectar com outras mulheres. Então, eu vou na manicure e ali é papo de salão. Não estou lá só fazendo a unha, eu estou lá por informação em um ambiente seguro entre mulheres”, conta Alessandra.

Preparação e “mentirinhas do bem

Essa forma de pesquisa de campo é adicional. Já a pesquisa teórica é obrigatória para qualquer mulher que pretende viajar sozinha. Daniela afirma com precisão: “A maior dica de segurança que posso dar é pesquisar muito bem o destino antes”.

DivulgaçãoDaniela em Machu Picchu, no Peru

O conselho é especialmente importante para as exploradoras de primeira viagem. Antes de visitar qualquer lugar do mundo, é preciso saber desde vacinas e processos burocráticos exigidos pelo país até suas questões culturais e políticas. Com dezenas de países já visitados, Daniela estabelece a organização como uma das etapas inegociáveis para garantir sua segurança.

“Acho que a grande diferença da viagem solo feminina é que você aprende a equilibrar liberdade com atenção. Dá para viver experiências incríveis sem abrir mão de planejamento, informação e segurança”, conta Daniela.

Se precaver não significa perder a espontaneidade, mantra o qual também se aplica às novas conexões feitas ao longo de cada jornada. Contrariando uma das primeiras lições aprendidas na vida ainda quando criança, a habilidade de mentir em situações necessárias se revela uma das mais úteis e necessárias. Intituladas “mentirinhas do bem”, Gabriela comenta que essas práticas são aplicáveis em diversas situações, desde baladas até simples conversas em táxis.

DivulgaçãoGabriela já visitou Marrocos e indica o país para viajantes com maior experiência

A orientação máxima é nunca dizer que você está viajando sozinha para pessoas estranhas, especialmente, para homens desconhecidos. Letícia também complementa: “Infelizmente, nós, mulheres, temos que aprender a mentir. Não dizer que está sozinha, se precisar falar que você é casada, mesmo se você não for, isso já ajuda muito, porque não podemos mostrar essa vulnerabilidade”.

Experiências ao vivo e publicações assíncronas

Uma dica extra para aquelas que curtem compartilhar os registros de suas aventuras é nunca postar em tempo real. Para além de evitar possíveis stalkers em um país estrangeiro, o maior perrengue da vida de viajante solo de Letícia ilustra bem um dos perigos dessas publicações.

Em sua visita à Angola em 2024, ao denunciar casos de corrupção entre policiais no país em suas redes sociais, um simples vídeo viralizado a deixou exposta em um país desconhecido. Por trás do caso que virou notícia em grandes noticiários e até provocou impactos na política local, estava uma mulher sozinha sem qualquer garantia de segurança.

“Se você odiou alguma coisa daquele país, fala sobre isso depois. Os angolanos me mandavam mensagem: ‘Nossa, você é muito corajosa’. E eu não fui corajosa, eu só fui ingênua”, conclui.

Jornada de autoconhecimento

Entrar nessa aventura sozinha não é só uma forma de enfrentar estereótipos em que as mulheres já estão expostas no mundo, como também de descobrir paixões e expandir capacidades que até então estavam adormecidas. A cada experiência, uma nova porta de entendimento do seu próprio limite e corpo se abre. “Existe um desprendimento muito interessante nisso. Você começa a se respeitar mais, no seu próprio tempo e desejo”, reflete Daniela.

Do outro lado do mundo, em seu acampamento de kung fu, a vivência planejada por Letícia seguia um objetivo: “Expandir a mente, corpo e espírito”. Com uma rotina de treino de mais de 6h por dia de segunda a sábado — que envolvia quebrar bastões de madeira com a força do próprio corpo —, ela aprendeu literalmente o tamanho de sua força. “Vem sendo uma jornada muito transformadora e eu não quero ir embora”, afirma.

 
 
 
 
 
Ver essa foto no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Um post compartilhado por Letícia Pavim | Bora Viajar o Mundão (@lepavim)

Os resultados das viagens solo se revelam não só em força física, mas, sobretudo, na conquista de maior autoconfiança e autoconhecimento. Saber quando se impor, como ler o ambiente e até desenvolver um feeling próprio para possíveis perigos são algumas das habilidades que Gabriela adquiriu em seus anos de experiência.

Com a preparação correta e os cuidados indicados, qualquer mulher pode explorar o mundo com liberdade e segurança. “Hoje eu não tenho medo do mundo”, garante Gabriela.

Guia de sobrevivência para mulheres que viajam sozinhas

  • Escolha um destino, onde consiga se comunicar em algum idioma falado no país;
  • Conheça e respeite a cultura local;
  • Planeje bem a sua chegada no país até a hospedagem, esse é o momento de maior vulnerabilidade da viagem;
  • Nunca diga que está sozinha para desconhecidos e aprenda a mentir quando necessário;
  • Não poste registros da sua viagem em tempo real, compartilhe com alguns dias de intervalo;
  • Pesquisa e organização são essenciais para evitar imprevistos;
  • Da mesma forma, sempre ande com uma reserva de dinheiro;
  • Sempre viaje com um pacote de internet e bateria portátil;
  • Compartilhe sua localização em tempo real e uma palavra-chave de segurança com alguém conhecido, e
  • A dica de mãe: Se for ingerir álcool, sempre tome cuidado com seu copo.
Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.