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“Capiba, Pelas Ruas Eu Vou” Traz de Volta À Vida um dos Maiores Símbolos da Música Pernambucana

O musical, apresentado pelo projeto Aria Social, retrata a vida e obra do músico Capiba, compositor de grandes frevos, maracatus e choros nordestinos

6 min

Jumento e teimoso. É esse o significado por trás do apelido “Capiba”, dado a um dos maiores nomes da música brasileira nordestina. Nascido em 1904 em Pernambuco, Lourenço da Fonseca Barbosa aprendeu a ler partituras antes mesmo de ser alfabetizado. Recebeu o apelido do avô, que logo viria a ser sua marca registrada como músico, compositor, poeta e pianista do cinema mudo.

Sua vida e obra foram contadas pelo musical Capiba, pelas ruas eu vou, apresentado no Teatro B32, em São Paulo, entre os dias 24 e 26 de julho. Com uma formação de mais de 40 bailarinos e cantores, todos integrantes do Projeto Aria Social (instituição sem fins lucrativos responsável por capacitar cerca de 600 crianças e jovens em situação de vulnerabilidade em Recife), a obra reproduz 17 músicas de Capiba, indo desde os carnavais pernambucanos até missas em latim – um reflexo da versatilidade do músico.

“Capiba soube extrair das raízes da nossa gente os sons, os ritmos que bem representam a alma e os sonhos de um povo: as cirandas nas praias enluaradas; os frevos da alegria dos carnavais; os maracatus do batuque como as batidas do coração; os choros e as valsas românticas expressando o universal do amor”, afirma Cecília Brennand, diretora-geral do espetáculo e presidente do Projeto Ária Social.

O musical não tem uma linearidade clara, nem traz personagens interpretando Capiba como uma biografia. Aqui, o protagonista é a música. O retrato do compositor é pintado nas cores de Pernambuco, com composições que o tornaram símbolo da identidade do estado. Mas Capiba está longe de ser apenas o nome por trás da trilha sonora: o pernambucano tem sua história contada por meio de dois dançarinos que se dividem para narrar sua infância, vida, profissão e morte.

Logo nos primeiros minutos, o musical convida a plateia a percorrer, musicalmente, as ruas de Pernambuco por meio de filmes antigos sendo projetados ao fundo, retratando o cotidiano daquele povo. A homenagem à cidade nordestina e a Capiba é traçada ao som de São os do Norte que vêm e Recife Cidade Lendária. Os figurinos, que começam em tons mais neutros e terrosos, ganham contornos vermelhos, formas geométricas, texturas e contrastes ao longo do musical, culminando em peças tão criativas que é impossível não sentir a vibração do carnaval pernambucano. O guarda-roupa é assinado por Beth Gaudêncio.

Um dos elementos que mais chamam a atenção é a presença dos músicos como personagens. A orquestra de câmara não fica no fosso do teatro, mas invade o palco desde o primeiro segundo e permeia toda a peça, com diferentes formações que se misturam aos cenários e aos personagens. O ritmo é marcado pela percussão forte e persistente, com metais e cordas compondo a base harmônica da narrativa. A direção musical, os arranjos e a regência são de Rosemary Oliveira, vice-presidente do projeto Aria Social.

O repertório de 17 músicas reúne ainda clássicos como É de Amargar, Linda Flor da Madrugada e Nos Cabelos de Rosinha, permeando frevos, valsas, choros, maracatus, sambas e marchas. Mas muito além disso, explora uma vertente mais erudita de Capiba, com uma representação da Missa Armorial cantada em latim, durante 10 minutos.

“Readaptar a Missa Armorial foi outro grande desafio, pois a finalidade era manter as características da obra e os sentimentos do compositor no momento de sua criação. A grandeza do movimento armorial, idealizado por Ariano Suassuna, é muito bem realizada por Capiba“, afirma Rosemary. Em meio à cena, marcada por um extenso coral vestido em tons de vermelho e preto, emerge a delicadeza do balé, com uma única dançarina resgatando a leveza e o romantismo das obras de Capiba.

E essa é uma das maiores forças do musical: misturar balé, frevo, dança contemporânea, valsa e manifestações populares em uma única narrativa. Ao passo que o espectador vive a intensidade da valsa, é também contagiado pela alegria do frevo e da ciranda – tão contagiado que, ao final do espetáculo, começa a dançar na plateia junto com os bailarinos.

“Na atmosfera dos gestos, se fundem a espiritualidade, a resistência, a ancestralidade e a alegria; e, no quadro em movimento, as linguagens artísticas se comunicam: o corpo tem voz e a voz tem corpo”, afirma Ana Emília Freire, responsável pelo roteiro, direção artística e cenografia do musical.

E dizer que os corpos são o cenário não é exagero. As peças cenográficas são formadas por poucos elementos: um banco de praça, um microfone e guarda-chuvas. As projeções ao fundo também ajudam a ditar o ritmo, marcada por artes e esculturas de argila, texturas e cores, natureza viva e pessoas. Um dos destaques foi o registro de um vídeo histórico de Capiba que, dançando e pulando em meio a uma multidão, entoou: “O carnaval não morreu!”. Uma cena tão simples foi capaz de traduzir a essência da festa nordestina e mostrar que Capiba fez o que fez porque era parte intrínseca de tudo aquilo.

E tanto era parte que nunca saiu do estado. “Capiba foi uma pessoa muito simples, ele não teve a oportunidade que alguns ícones nordestinos tiveram de sair de Pernambuco. Todo mundo conhece o Luiz Gonzaga, mas o Capiba está guardado em uma gaveta. Em vida, ele nunca viajou, mas, com o musical, nós estamos viajando com ele e mostrando o Brasil, e isso me alegra muito, porque ele merecia”, afirma Brennand.

Ao fim, quando toda essa história eclode em uma multidão festiva, encontramos o fim da vida de Capiba, aos 93 anos. Acompanhada por imagens que percorrem desde sua infância até a velhice, a sua despedida não é marcada por tons frios de tristeza e dor, mas pelas cores vivas de quem se tornou infinito por meio da música.

Capiba, Pelas Ruas eu Vou segue viajando o Brasil, perpetuando o legado brasileiro de Capiba e tornando a tradição pernambucana reconhecida em todo o território nacional.

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